Análise | A dualidade de Star Wars Battlefront

Antes do lançamento de Star Wars Battlefront, eu vivia uma dualidade acerca do que o game poderia trazer para mim, em termos de jogabilidade, história e, claro, diversão. Após a fase beta e a jogatina na Brasil Game Show (fiquei em primeiro do meu time, como é possível???), sentimentos ambíguos de frustração e hype fundiam-se em um amálgama de esperança. O jogo foi finalmente lançado no último dia 17, e eu ainda não sei se estou feliz ou cabisbaixo com minha aquisição.

Sim, o jogo é bem divertido. Ao mesmo tempo, é tão vazio quanto as cavernas congeladas de Hoth. Explico-me.

Battlefront parece basear-se em uma premissa simples de que todas as pessoas do planeta já assistiram à saga Star Wars (se você não viu, realmente, o que fez da sua vida por todo esse tempo?). Batalhar por Hoth ou Tatooine certamente tem muito mais significado se há um conhecimento prévio do vasto universo por trás. Virar uma coluna de pedras em Sullust e deparar-se com Bobba Fett, por exemplo, causa uma indescritível sensação simultânea de pavor e felicidade. Eu simplesmente largo o controle e abro um sorriso por encontrar o caçador de recompensas. Contudo, se eu não soubesse nada do líder dos Mandalorians, eu ia simplesmente olhar para ele e pensar “que skin leg… morri!”.

Boba Fett

ESSE é Boba Fett

Visitar os planetas citados causa a mesma impressão e você também não vai entender o porquê da guerra aqui simplesmente porque Battlefront não é uma aula de História – aliás, SEQUER tem história a menos que se saiba da história (frisei o suficiente?). Em suma, nada daquilo faria sentido, exceto que é uma guerra com armas que fazem “pew pew” e, bem, acaba por ser divertido mesmo. É como entrar em Crysis e não ter ideia de por que estar em solo norte-coreano e os habitantes atirarem em você – só apague a lógica e revide.

A primeira coisa bacana é o level e o sound design. Eu nem vou falar da imersão proporcionada por um Ewok correndo por entre as construções nos topos das árvores ou das pegadas deixadas na neve, pois meu foco vai ficar em quem não viu os filmes (sério, ainda não assistiu?). Os ambientes são visualmente incríveis e muito bem pensados (com exceção de alguns pontos basicamente iguais, onde parecia que saía e entrava no mesmo lugar), seja para o jogador casual ou o hardcore. Seu amigo camper terá mais dificuldade aqui pelo fato de existirem muitas árvores ou os caminhos pelas pedras terem relevos grandes o suficiente para haver uma cobertura natural. Isso possibilita um maior foco nos inimigos na sua frente e menos preocupação com aquele viciado no topo dos cânions – como eles chegam lá, afinal? Tudo isso regado por músicas originais da série, efeitos sonoros impecáveis e uma dublagem fiel aos personagens clássicos. Além disso, tudo serve como uma preparação ao jogador – ouvir a Marcha Imperial significa a vinda de Darth Vader ao combate. Escutar sua respiração abafada por perto quer dizer “morra e tente outra vez”.

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Mais sensacional ainda é como a obra te entrega (e, agora sim, eu falo para o fã) todo o mundo de Luke e Leia, e trabalha o seu imaginário. É fenomenal lutar ao lado dos icônicos personagens, pilotar X-Wings, andar em AT-STs – enfim, vivenciar os conflitos, seja em primeira ou terceira pessoa, com controles que atendem perfeitamente aos seus comandos. Tudo neste título é nostálgico e trabalha perfeitamente o ambiente da primeira e única trilogia de George Lucas. Eu só consigo pensar em como seria Battlefront na realidade virtual.

Com sua mira no multiplayer, o jogo possui nove modos e pouca variação entre eles. Drop Zone parece com Droid Run e com Cargo. Blast é como um “cada equipe por si” – do mesmo modo que o Heroes vs Villains. Hero Hunt consiste em todos os jogadores atrás de um herói ou vilão – no papel, parece bom, mas só fica divertido mesmo quando se é o herói (e fica difícil sê-lo com tanta gente atrás). Fighter Squadron chega a ser frustrante: quando você pensa que tá arrasando, não destruiu nenhuma nave inimiga e abateu apenas bots. No fim, eles pouco retratam a emoção e a essência do conflito intergaláctico, exceto em Supremacy e Walker Assault.

Supremacy

No primeiro, seu objetivo é dominar as bases inimigas enquanto defende as suas. O conceito é bem similar ao de vários dos modos citados, mas apenas em Supremacy pude realmente sentir a pressão imposta pelo meu time ou pelo adversário. Acuar os oponentes até não ter mais para onde eles possam correr causa uma maravilhosa sensação de vitória e, de fato, supremacia, enquanto o contrário deixa o jogador humilhado, mas pronto para uma revanche, especialmente se o combate foi acirrado. Walker Assault, por sua vez, dá a sensação de uma verdadeira guerra em Star Wars: corro em direção ao oponente por entre as pernas de um AT-AT enquanto ele atira em alguns dróides, escondo-me em uma nave caída e sobrevivo graças a uma redoma de energia. Recupero-me e parto novamente, apenas para ser abatido por Han Solo. Como não ficar animado?

Fácil. Sem entregar um conteúdo interessante e com um sistema de progressão lento e pouco empolgante, com o tempo, o saudosismo dá lugar à mesmice. Torna-se maçante ir e voltar repetidamente às guerras apenas para ganhar dinheiro e comprar armas, emotes e visuais, sendo que estes últimos, no mínimo, não tem a menor graça. Por qual motivo eu trocaria minha clássica máscara de stormtrooper para comprar um rosto com cara de sono e cabelinho penteado pro lado? Outro problema é o respawn: não são raras as ocasiões de morrer e reingressar à partida com um inimigo do seu lado, pronto para te metralhar com um sorriso de “abate grátis”.

X-Wing

Um modo inteiro com naves especiais e ele é só “meh”

Eu também não gosto da ideia de pegar ícones flutuantes pelo mapa para habilitar alguma arma ou jogar com um herói. A DICE, desenvolvedora do game, certamente preferiu tornar as coisas mais fáceis, mas não é muito imersivo correr, pegar um power-up e imediatamente estar montado em uma nave. Quanto ao singleplayer, com exceção do Survival, que traz uma certa emoção nas ondas finais, seus modos só me serviram para testar armas ainda não habilitadas no online.

De qualquer forma, o fã da Guerra nas Estrelas terá muitos momentos memoráveis neste game: este incessante combate entre Rebeldes e o Império é o mais fiel já ingressado por mim. É bem divertido participar dessa jogabilidade e mais ainda sentir a experiência. No entanto, a impressão causada é a mesma de Titanfall: jogar por horas até enjoar e não querer saber mais. Se tirarmos o hype Star Wars, o que sobra é repetitivo e com pouco valor. A vontade de ir para o fronte de batalha é inversamente proporcional ao tempo de jogo e diretamente proporcional ao tempo sem voltar para ele. Controverso, eu sei, mas a dualidade de sentimento ainda perdura.

Author: Marco King

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.

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