Análise | Absolver

Durante meses, ver os trailers e os comentários de desenvolvimento de Absolver fazia minha empolgação borbulhar. Visualizar toda a dança corporal de filmes de Jackie Chan e Jet Li transportada para um game me dava a possibilidade de finalmente transformar-me em um exímio artista marcial, então estava pronto para usufruir do jogo o quanto antes.

Um pouco diferente do meu pensamento, a primeira nuance a saltar-me os olhos está na simplicidade da obra. Não falo com um sentido pejorativo, mas com um regozijo inesperado e inspirador, espalhado em todas as suas características, desde os gráficos à jogabilidade.

De fato, Absolver tem um tom apaixonantemente despretensioso à primeira vista. Os tons e cores aquarelados dos cenários contrastam e realçam o rudimento poligonal das formas de ambientes e lutadores, em uma beleza crua e suave que relaxa os olhos conforme avança à procura de aplicar suas técnicas de combate nos outros.

Mais impactante e contradizente ao aspecto comum de tantos outros jogos de luta, todos os belos movimentos restringem-se a poucos comandos. Alterar sua instância de combate flui-se a partir de uma lista de golpes que pode ser modificada facilmente, de modo que toda a complicação de combos esvai-se com o apertar de alguns botões.

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Engana-se, porém, quem acredita que isto torna Absolver um título simples de ser masterizado. É comum passar vários minutos no modo de treinamento editando o deck de movimentos a fim de encontrar a melhor combinação de socos e chutes, seja para adequá-lo ao seu próprio estilo de batalha ou simplesmente tornar uma luta a mais graciosa ou eficiente possível. Ademais, apertar freneticamente os botões raramente é efetivo; é crítico saber a hora exata de atacar, bloquear ou esquivar, assim como dominar a rotação das instâncias.

Isso não ocorre somente no começo do game; a adequação do seu estilo torna-se um ritual tão minucioso quanto progressivo. Aumentar a lista de ataques decorre das dezenas de confrontos vencidos durante suas caminhadas pela província de Adal e adiante. Conforme desvia ou bloqueia os pontapés desferidos, você começa a estudar o referido golpe até que este é completamente entendido e entra como mais uma opção de movimento. Assim, novos e mais impactantes combos surgem e dão ao jogador uma sede única de conhecimento. Entretanto, isso só acontece nas vitórias, uma contradição à filosofia de que um aprendizado eficaz vem das derrotas.

Ainda que seja possível jogar desconectado, é no modo online que o game demonstra sua essência. O encontro com outros jogadores é frequente e, com um misto de espanto e alegria, estes tornam-se o recurso mais importante de Absolver. Incomum a tantos outros games do estilo, as pessoas costumam se ajudar a todo momento: elas entram nas lutas para salvar sua pele (afinal, a experiência é dada aos dois), levantam seu corpo ao ser derrotado e os duelos são extremamente estratégicos e divertidos, além de ótimas fontes de aprendizado.

Destaca-se aqui a falta de recursos de chat por voz ou texto. Chamar a atenção de alguém requer apelar aos emotes, a única forma de comunicação presente. Ao mesmo tempo que essa característica tem seu charme (e traz à mente obras como Journey), ela dificulta entender pedidos de auxílio, treino ou entrada na sua escola de artes marciais. Mesmo assim, encontrar um amigo tende a ser a forma mais eficiente de evoluir.

De igual forma, os equipamentos encontrados são um estudo à parte. É um teste de avaliação contínua analisar cada nova peça de roupa e verificar como ela se encaixa em seus objetivos: a defesa oferecida por ela é boa para equilibrar seu dano causado? A redução no dano recebido compensa diminuir sua velocidade de ataque? A cor combina com minha nova máscara?

O peso dessas vestimentas interfere razoavelmente no estilo de jogo desejado. Peças mais leves favorecem o combatente mais ágil com ataques constantes, enquanto uma perspectiva mais resistente torna mínima sua capacidade de esquiva, mas sua vida reduz pouco mesmo após uma surra implacável.

A luta é o cerne de Absolver e, por isso, foi implementado à exaustão e funciona extremamente bem. A satisfação frequentemente se apresenta na forma de um combo perfeito após horas de tira-e-coloca movimentos na lista, bem como ao vencer os chefes do jogo ou outros jogadores em um Duelo. Infelizmente, o jogo se resume a isso.

O game consiste em incessantes brigas a todo momento. Não há mais o que fazer. Virar uma esquina significa encontrar outros jogadores reais ou inimigos “robotizados”, que erguem-se de seu estado catatônico apenas para guerrear contra o jogador e voltar ao seu estado natural caso ele opte por ignorá-los. A obra coloca vários desses combatentes unidos em determinados pontos, o que pode ser um desafio hercúleo e terminar em frustração. Quando mais poderoso, é possível enfrentar a “manada” de igual pra igual, mas atingir essa conquista pode demorar mais que o esperado.

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Uma das opções para sobrepujar essa mesmice é seguir a campanha da obra, mas ela acaba por ser um de seus principais desapontamentos. A história é absurdamente rasa e assemelha-se mais a um mero tutorial de cinco horas ou menos – que pode virar inúmeras ao se perder ou ser derrotado incontáveis vezes -, restrita a “ganhe desses inimigos” para deixar de ser um aprendiz e virar um absolver.

Pior, encontrar todos esses oponentes específicos é irritante graças ao mundo labiríntico do jogo. Ainda que não seja tão grande, vários de seus ambientes são semelhantes e é fácil acabar perdido. Não existe um mapa para ser consultado a qualquer momento e, com exceção dos NPCs e outros jogadores, há muito poucos itens de incentivo à exploração. Há, sim, belos cenários a serem apreciados; no entanto, o imediatismo do jogo apaga essa aspiração.

Ainda assim, todos esses detalhes seriam facilmente relevados caso Absolver não apresentasse tantos problemas técnicos. A todo instante, bugs e crashes tiravam a minha paciência, de forma que toda a satisfação com o game convertia-se em frustração e raiva.

Picos de lag são uma constante no jogo,  e basta alcançar um novo ambiente para o bug “clone das sombras” (ocorreu tanto comigo que até dei apelido), cujo exemplo eu gravei e pode ser visto no vídeo acima, aparecer. O Duelo, o único modo de jogo PvP até agora, pode demorar minutos na tela de carregamento apenas para informar que não foi possível conectar ao jogador. Por fim, ver o jogo fechar abruptamente e visualizar a tela de feedback de travamento deixava de ser uma surpresa para tornar-se uma questão de tempo.

Sem dúvidas, Absolver tem um imenso potencial. Sua customização de golpes e movimentos, bem como de equipamentos, moldam o lutador ao seu bel prazer e as batalhas contra outros jogadores podem tornar-se momentos épicos, com viradas memoráveis ou combos infinitos. Infelizmente, o game é refém de seus problemas, motivos notórios para afastar jogadores menos pacientes como eu. É difícil, assim, absolvê-lo de suas falhas e somente a esperança por dias melhores perdura. Como um torcedor ávido por sangue ao redor da arena, eu anseio por isso.

Author: Marco King

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.

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