Análise | Castlevania (Netflix)

[O texto foi construído no intuito de ter o menor número possível de spoilers, mas algumas explicações sobre a trama – em especial do jogo original – foram citadas.]

A primeira coisa que devo admitir a você, leitor, é: eu não esperava que uma série de Castlevania sequer fosse lançada um dia. A segunda coisa: não esperava que fosse gostar tanto.

Pensado inicialmente como um filme (na verdade, a ideia era de uma trilogia), a Netflix comprou a proposta e trouxe para sua plataforma com uma série propriamente dita. No entanto, aparentemente foi uma aposta que a empresa parece ter achado arriscada demais, resultando em uma temporada de quatro episódios de 20 e poucos minutos cada.

Não apenas pelo tempo, mas também por seu desenvolvimento. A trama construída em cima do Castlevania III: Dracula’s Curse, lançado pro Nintendinho em 1989, consegue ser fiel em diversos pontos (e uma boa adaptação em outros). Contudo, essa temporada inicial passa a impressão única de um prólogo, com um desenvolvimento inicial dos personagens principais e algumas costuras em seus secundários.

A suavização no cruel Drácula, por exemplo, e o modelo de redenção de um monstro trazido por sua amada Lisa tiram o grande antagonista da saga do seu lugar de “mal encarnado que você pode atirar antes e perguntar depois”, provocando no espectador sentimentos ambíguos de simpatia e raiva.

Castlevania III: Dracula’s Curse

O mesmo não pode ser dito da igreja. Claramente a grande vilã dos episódios, ela é representada por um antagonista sem nome, chamado apenas de Bispo. Suas motivações restringem-se em adquirir poder para ele e a Igreja, renegando toda a ajuda que aparece em uma causa nitidamente perdida, e as justificativas se fragilizam em uma fidelidade cega a um Deus que ele próprio parece desconhecer (ou tornar único à sua causa).

Porém, o mais incômodo para mim foi ver como são frágeis e secundárias as opiniões dos cidadãos da cidade. É estranho, especialmente no episódio 2, ver as pessoas tranquilas pela cidade, em suas vendas e casas, mesmo com a ameaça de um exército de demônios à sua porta. É coerente pela influência da igreja nessas vidas; suas palavras citam que os fiéis não terão problemas e a culpa está nos renegados por Deus. Mas a extrema calma deles não parecia lógica, principalmente pela facilidade com que Trevor Belmont os convenceu da culpa da igreja (aparentemente, um padre munido de espadas fazia todo o sentido até alguém falar).

Trevor também é meio… esquisito. Ele vive sua própria dualidade: esconde de todas as maneiras o brasão da família, mas brada orgulhoso ser o único remanescente dos Belmont. Não dá a mínima para os cidadãos de Gresit, porém puxa seu clássico chicote para salvá-los sem pestanejar.

O personagem parece ter uma dupla personalidade: Trevor e Belmont. O segundo é membro da consagrada família de matadores de monstros e possui raiva de uma igreja que excomungou a ele e a seus parentes; basicamente, o que esperaríamos do protagonista nos games.

O primeiro, por sua vez, tem uma personalidade que seria melhor encaixada em outro herói do jogo: o pirata Grant Danasty. Pelo jeito, não seria possível adicioná-lo nesses quatro episódios, então a solução foi dar ao protagonista um ar de canastrão a fim de amenizar o clima sombrio e pesado da série. A tendência, demonstrada pelos dois últimos episódios, é que Belmont mantenha-se no comando, enquanto há uma chance de introduzir o pirata na segunda temporada.

No entanto, essa ressalva deve ser notada somente aos que jogaram a obra. Marinheiros de primeira viagem não devem estranhar muito esse alter ego – na verdade, costuma ser interessante ter anti-heróis como protagonistas – e um número menor de personagens principais ajuda no desenvolvimento de suas personalidades. E – crueldades à parte – convenhamos que Grant não faz mesmo tanta falta assim.

Além disso, seria quase inevitável não inserir nuances em Trevor, visto que Dracula’s Curse não aprofunda tanto o personagem – algo feito em outros títulos da franquia, como Symphony of the Night e Judgement. A própria vestimenta do Belmont aproxima-se mais da arte feita por Ayami Kojima em Curse of Darkness e vários outros pontos remetem à fase pós-Symphony of the Night, tanto no conceito artístico quanto na trama. Um Belmont tem que ser orgulhoso, mas a pitada de único sobrevivente dá uma nova vida ao protagonista.

Essa é a grande vantagem de Castlevania: embora utilize de recursos e referências que só os fãs entendem de primeira (lágrimas de sangue <3), é uma produção pensada para além desse público. Aprofunda o enredo simples da obra original enquanto volta-se à estética e aos personagens. Embora as animações não sejam perfeitas, a arte como um todo é de tirar o fôlego e a violência característica de Warren Ellis é retratada com vigor, com o nítido anseio do produtor Adi Shankar (cuja adaptação de Dredd já havia me surpreendido positivamente) de realçar essa brutalidade. Pra completar, os aventureiros (Belmont, a maga Sypha Belnades e Alucard, filho de Dracula) formam um trio interessantes, com perfis complementares.

De fato, o maior problema está na brevidade da temporada. O gostinho de “quero mais” deixado ao fim não é doce como o de um filme bom, mas de uma série que cumpriu o seu papel, mas dá um corte abrupto em sua trama, quase forçada a ser contada mais tarde. Ao menos, a Netflix já confirmou uma nova temporada com o dobro de episódios. Para nós que estamos sedentos por mais, ainda bem.

Author: Marco King

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.

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