Análise | Dreamfall Chapters

De acordo com a abordagem psicanalítica, os sonhos são cargas emocionais armazenadas no inconsciente, que projetam imagens e sons. De acordo com Freud, como sabemos que os objetos nos sonhos são derivados de cargas emocionais, podemos, através deles, chegar a raiz ou seja as emoções que geraram essa imagem ou som. Se depender da versão para consoles de Dreamfall Chapters, você pode ir tão fundo que é capaz de ficar nele para sempre.

Ele é na verdade a continuação direta de The Longest Journey, título de PC que iniciou a mitologia da franquia. A versão remasterizada para consoles do belo game da Deep Silver e Red Thread fala de um conto de dois mundos, divididos em livros. O universo do jogo mais parece um sonho: sua mitologia fala da Terra como um de incontáveis mundos, criados por um ser conhecido como Lux, o primeiro sonhador. Conhecida no universo jogável como “Stark”, a Terra é um mundo de ciência, totalmente inversa à sua contraparte gêmea, Arcadia, que é um mundo comandado magia. Ao menos deveria ser…

O enredo iniciou-se no ano de 2220 na contagem Stark, quando Brian Westhouse, um Starkiano preso em Arcadia, planejava retornar para casa através da reunião dos dois mundos. Para isso, ele queria utilizar os poderes do Undreaming (do inglês livre, o sem sonhos), antagonista de Lux. Com a ajuda de uma aliada – Helena Chang -, Westhouse começou a produção de um motor capaz de armazenar sonhos, utilizando um aparelho criado por Chang, chamado de Dreamachine (algo como a “maquina de sonhar). Helena também queria aproveitar os poderes dos sonhos para criar “sonhadores” geneticamente modificados com poderes semelhantes aos de Lux.

Porém, ela classificou sua primeira criação como uma falha, que acabou sendo criada por Gabriel Castillo – parceiro de Brian – como sua própria filha, Zoë. A senhorita Castillo acaba descobrindo que os patrocinadores de Chang, a mega corporação WatiCorp, queiram fazer uma lavagem cerebral nos usuários da Dreamachine. Ela falha em sua tentativa de dete-los e é posta em um coma induzido por Chang, ao mesmo tempo em que Kian Alvane, um soldado de elite Azadi é investigado por corrupção em Marcuria, acabando preso.

É neste ponto que a trama de Dreamfall Chapters tem início e cabe a você decidir de que forma os acontecimentos desse universo deverão ser moldados. Assim como outros títulos episódicos, o game grava seu progresso e escolhas para os próximos livros. Essa nova abordagem dos clássicos point-and-click dá um pouco mais de liberdade ao jogador, quase lembrando um game de ação, o que permite uma maior exploração dos cenários, algo totalmente necessário para descobrir itens e segredos necessários para progressão.

Ele também tem muitas informações opcionais – como o diário, itens e personagens empalhados pelos mundos -, e quase dá uma ideia de mundo aberto a um jogo com bases lineares, um incentivo à descoberta e maior envolvimento. Tamanho universo expande-se ainda mais nos momentos em que você deixa de jogar com Zoë para controlar Alvane (e vice-versa), transformando algo que aparentava ser confuso em um elo necessário para o entendimento da intriga.

Esses detalhes unem-se a belos gráficos e desenhos, mesmo tratando-se de um remaster de uma versão de anos atrás para PC. O trabalho artístico é impressionante, encanta e faz com que o mundo de fantasia transforme-se em um convite ainda mais tentador. Pena que os desenvolvedores não aproveitaram a oportunidade para resolver alguns glitches incômodos, como a quebra dos gráficos ao explorar canto de cenários – algo que pode ser bem irritante a depender do local. Além disso, há momentos em que a tentativa de deixar a aventura mais “real” torna-se cansativa, obrigando quem joga andar por muitos lugares, às vezes desnecessariamente, algo que pode tornar-se enfadonho.

Menos mal que sua paciência é sempre recompensada com puzzles e investigações interessantes em diversos momentos, proporcionando uma ótima sensação de dever cumprido. Só cuidado para não transformar seus sonhos em pesadelos recorrentes, já que suas escolhas sempre podem voltar para te assombrar. Há diversas escolhas a serem feitas no decorrer da história, que têm impacto significante em diversos outros momentos.

Pense bem antes de tomar uma decisão…

Opcionalmente, há uma opção online que mostra a escolha que outras pessoas fizeram, todavia não sei ao certo e isso mais ajuda ou aumenta sua indecisão. Sempre depois de decisões importantes, você será avisado que “o equilíbrio foi alterado” e posteriormente um lembrete de suas decisões surgirá para que você entenda que algo está diferente graças a sua escolha. Com isso, a sensação de poder moldar o universo é gratificante e empolga para ver até onde suas decisões o levarão.

Todas as vezes que você termina um livro um resumo de suas opções servirá como epílogo, uma introdução à nova parte da trama. Dentre livros, há também um interlúdio que apresenta uma terceira personagem jogável, Saga. Mas, no intuito de evitar spoilers, vamos deixar que você a descubra ao jogar.

 

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Dreamfall Chapters ainda discute temas polêmicos de uma forma interativa e cativante. Seus personagens são inteligentes, quase vivos, como itens importantes de sua investigação do universo de Stark e Arcadia. Se um dos desejos da humanidade é entender e até interagir com os sonhos, aqui você poderá fazer exatamente isso, seja com outros personagens (mesmo que de forma limitada, às vezes) até com os itens, que por si só já podem revelar segredos interessantes. Só cuidado para não confundir ficção e realidade.

A nova versão está disponível para PlayStation 4 e Xbox One, enquanto sua versão clássica no PC. Se você já jogou esta última, verá que praticamente tudo é igual, exceto mudanças sutis para os espertinhos que acham que sabem onde estão todos os itens para a progressão. Vale a pena a aventura e muitas reflexões com outros amigos após terminar a série.

Author: Jeancarlos Mota

Community Manager e geek multi-classe que acredita que o "ismo" é perda de tempo. Afinal, bom mesmo é jogar games, pouco importa a plataforma!

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