Análise | INSIDE

O dicionário da língua portuguesa define imersão como “substantivo feminino – ato ou efeito de imergir(-se); imergência, submersão”. Já a desenvolvedora Playdead define a palavra imersão como INSIDE.

Quando joguei o primeiro game desenvolvido pela empresa, Limbo deixou-me com o controle do meu velho Xbox 360 nas mãos por cinco horas ininterruptas. A busca de um jovem garoto pelo resgate de sua irmã, em cenários estarrecedores e com perigos a cada passo, mudou também a forma como gosto de mergulhar nos videogames. Limbo era belo, repleto de quebra-cabeças inteligentes e definitivamente pesado, ao ponto de algumas das mortes possíveis a cada erro tirarem meu fôlego antes mesmo de tentar novamente.

Quando vi o trailer de INSIDE, imaginei se ele conseguiria ser tão bom quando seu “antecessor” ou se a Playdead manteria o pedigree ao construir algo tão incrível quanto os cenários e feitos que Limbo conquistou. Pois bem, não tenho mais dúvidas. INSIDE é a obra-prima da Playdead.

Depois de duas horas de exploração, já estava convencido de como o título conseguiu trazer as temidas sensações dos pesadelos infantis em sua versão adulta. INSIDE é conto de um jovem garoto tentando escapar de um sinistro experimento social, que mais lembra um projeto sombrio de controle da humanidade. Para ter sucesso nesse título, faz-se necessário sempre lembrar da premissa principal: você é caçado a todo o momento e está totalmente sozinho. Aqui, sobreviver é a palavra da vez e não são comandos complicados, fases impossíveis de passar ou inimigos ilógicos que vão fazer você morrer inúmeras vezes. O perigo é o quanto seu auto-controle e reflexos conseguem atrapalhar suas decisões.

Todo o vacilo será fatal.

Todo o vacilo será fatal.

INSIDE, assim como Limbo, bebe da fonte principal de sua desenvolvedora: a combinação de ambientações umbrosas (com gráficos, sons e música encaixando-se totalmente ao ambiente) e perigos sempre à espreita, graças aos inteligentíssimos puzzles. Basta começar a jogar e você começará a entender porque é tão fácil morrer. Para deixar as coisas ainda mais macabras, a violência é ainda mais pesada do que Limbo e credito isso à simples realidade deste game ser em cores. Elas não são uma paleta completa de Pantone, apenas suficientes para detalhar os animais mortos, o clima envolto de nevoeiro, chuvas e sangue, e isso permite que o clima tenso entre ainda mais em sua mente.

Nada é à toa. Não é uma questão de violência gratuita, apenas algo totalmente plausível em uma situação real. São homens armados que atiram sem dó ou cães ferozes e famintos por sua caça. Apenas imagine o resultado caso você errasse um salto, em um momento de perseguição, e fosse pego por um dobermann raivoso e será possível não imaginar o resultado. Eis o sentimento com o controle em mãos.

Mais impressionante que os belíssimos gráficos – onde parei em alguns momentos, apenas para admirar a mistura de simplicidade e perfeição -, é o fato de sempre haver uma recompensa após algo bem feito ou desafio vencido. Seja o simples avançar para a uma próxima etapa, para poder saborear um raro momento de paz e recuperação do ar aos pulmões (antes de um novo perigo à espreita) ou ao obter, como recompensa, acesso a um dos vários dispositivos eletrônicos (secretos), responsáveis pelas conquistas do jogo. O que eles são e sua utilidade? Cabe a você descobrir.

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Se INSIDE tem um defeito é ser curto. Com quatro a cinco horas você chega ao seu (conflitante) final. Isso é um defeito apenas por ser tão bom. Fica apenas a inevitável sensação de querer mais.

Todavia, talvez se fosse melhor, estragava. É muito raro ver um game tenso, belo, cruel e tão viciante ao mesmo tempo. Até a minimalística jogabilidade é suficiente para permitir que qualquer pessoa curta o título: seu direcional, um botão de ações outro de pulo são as ferramentas necessárias para jogar. Se no roteiro ele seja apenas um jogo de plataforma de deslocamento lateral, na prática é um título completo, apropriado a todo o fã de um bom game plataforma com enigmas.

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Uma ambientação magistral, quebra-cabeças lógicos e desafiadores e a bela narrativa visual são um convite a um mergulho de cabeça em INSIDE. Consegui, facilmente, esquecer de tudo da minha vida pessoal no espaço-tempo de míseras quatro a cinco horas. Isso foi imersão, como poucos games conseguem.

Ah! Só um favor, não seja o trouxa que estraga o final – dando spoilers para seus amigos ou demais pessoas na internet -, ok? Procure fóruns ou lugares apropriados para discutir os finais do jogo (sim, há dois. Boa sorte em descobri-los).

Author: Jeancarlos Mota

Games Editor, geek multi-classe e fã de esportes que acredita que bom mesmo é jogar games, pouco importa a plataforma.

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