Análise | Resident Evil 7: Biohazard

Em 1996 tive meu contato inicial com da franquia Resident Evil. Apesar de ter jogado Alone in the Dark no PC de um amigo, quando o assunto é jogo de terror, o primeiro game da franquia RE foi um acontecimento totalmente marcante e diferente, por misturar medo, mistério e ação à temática dos zumbis. Como esquecer a famosa cena da virada de rosto da ameaça inaugural da mansão?

Depois deste, diversos outros jogos continuaram a saga – sem esquecer os reboots -, totalizando onze obras. Porém, diversos fãs reclamavam pediam incansavelmente pelo retorno às raízes, ao afirmar que a franquia estava perdendo sua essência e suas últimas entradas mais pareciam jogos de tiro de terceira pessoa. Pelo visto a Capcom ouviu o clamar do povo, pois Resident Evil 7: Biohazard resgata com sucesso o elemento principal do início da série: o survival horror.

O melhor, você não precisa ter acompanhado os 20 anos de história do jogo para por as mãos nele, por mais que seja uma “continuação”. Não vamos em detalhes sobre isso, com o objetivo de não estragar a experiência de quem quiser jogar.

Três coisas me ajudam a definir o novo Resident Evil: medo, investigação e retribuição.

Você inicia o jogo na pele de Ethan Winters, um jovem em busca de sua esposa, Mia, desaparecida há três anos. Graças à mensagem deixada por ela, com instruções para Ethan não ir a seu encontro (o mesmo que dizer, “venha depressa!”), Ethan é levado até uma plantação em Dulvey, no estado de Louisiana. Se já não bastasse angústia ao redor da situação, toda ambientação do jogo, desde o início, cria um maravilhoso clima de horror e medo.

Pela primeira vez a série é jogada em primeira pessoa e isso traz ainda mais imersão. Deixe-me explicar melhor: você não precisará imaginar uma plantação esquecida pela civilização, ou uma velha mansão escura e fria, você estará lá. É fácil sentir-se em meio a tudo o que está acontecendo quando você precisa virar e observar os cantos ou saber onde algum terror se escondeu (ou de onde ele vem).

A Capcom não estava brincando quando lançou o slogan, “o terror volta para casa”. Isso deve-se, em parte, à combinação desta câmera com o belo trabalho gráfico e de som desta obra.

A arte e física são bem definidas e mostram detalhes impressionantes, seja de um verme rastejante pela parede, aos dentes dos personagens (tão impressionantes que inspiraram uma matéria da Kotaku sobre o jogo). Quando combinados aos sons e trilha sonora fica ainda melhor. Admito, em muitos momentos pausei o jogo e dei boas risadas dos meus sustos (dou uma tremida como um celular vibrando ao ser assustado), aproveitando para respirar fundo e prosseguir.

Cada ruído, cada som de objeto caindo, a madeira rangendo, tudo foi precisamente planejado e executado em um momento pontual, deixando elementos ainda mais reais e assustadores. Resident Evil 7 me fez passar por momentos de frio na espinha, enquanto explorava os quatro cantos de seus mapas.

Você terá muito o que entender, e não apenas a explorar. Somente assim será possível descobrir os reais motivos da trama. Semelhante ao game clássico, itens como munição, armas, curas e afins precisam ser combinados a outros, para fornecer algo melhor ou novo. Esses mesmos itens são escassos (ao menos no início) e sugerem ações com cautela, economizando tudo o que for possível. Saber como ou quando utilizar as armas apropriadas, pode ser a diferença entre a sobrevivência e o fim.

Nunca amei tanto uma faca.

Complecionistas, saibam também da existência de elementos adicionais, documentos e fitas VHS que ajudam a desvendar todo o mistério e caos ao redor do terreno da família Baker. Novamente, não entrarei em detalhes sobre os Bakers ou demais acontecimentos da história de RE7 evitando spoilers.

Posso, entretanto, dizer o quanto você vai amar aprender a odiá-los. As fitas de vídeo anteriormente citadas são jogáveis e reveladoras, e ajudam a completar lacunas importantes no desenrolar do enredo. Se você jogou as demos liberadas antes do lançamento pela Capcom, certamente terá uma noção de como cada fita traz diferentes experiências de um mesmo Resident Evil.

A gama de situações enfrentadas no desenrolar da história consegue transformar seus sentimentos. Novos inimigos, por exemplo, praticamente adicionam diferentes mecânicas e desafios a cada tipo que aparecem, e ajudam a entender o significado passado pelo termo em inglês survival horror: horror de sobrevivência. Como? Às vezes com luta, outras com a inteligência de admitir que o melhor a fazer é fugir.

Por qual motivo? Escolha! Seja para poupar munição, por ser a melhor coisa a fazer naquele momento ou até por medo de morrer. Afinal, perder uma batalha agora com vida pode significar vencer a guerra posteriormente. Controlar a vontade de descarregar tudo neles e saber onde se esconder poderá ser recompensador.

Outro momento que coloca seus esforços à prova, são as batalhas com os chefões. A mecânicas de embate por trás de cada um é deveras interessante e misturam as sensações explicadas como definição do título, principalmente ao lembrar da perspectiva em primeira pessoa e suas limitações de campos de visão. Nunca me vi utilizando tanto o analógico de visão, como um desesperado em saber onde estava minha ameaça.

Porém, foi também aqui onde encontrei alguns dos deslizes do game. Tudo bem não haver uma barra de vida em nenhuma das ameaças do jogo, mas é pedir demais finalmente termos um sinal de que você está triunfando? Sei que nenhum jogo da franquia fez isso antes, entretanto talvez isso ajudasse a remover a sensação momentânea de aleatoriedade da batalha (tem começo, porém quando acaba?), como também deles serem além de grandes e ameaçadoras esponjas de balas.

Ah… os Bakers… MATA!

Semelhante a outros jogos RE, temos dois modos de dificuldade, fácil e normal. Apenas não confie neste último, de normal ele não tem nada. Isso deve-se o interessante e nada aleatório nível de desafio. Graças a isso, a sensação de recompensa por cada etapa vencida é satisfatória, inclusive dos chefões ou mesmo quando não recebi qualquer loot em troca.

Se mesmo assim você achar que o “normal” não foi tão desafiador assim, ao terminar o jogo – nesse nível – a dificuldade mad house (do inglês livre, manicômio) é desbloqueada.

Jogar no mad house? Haja cura!

E como um gigante quebra-cabeças tudo se encaixa perfeitamente perto do final. Para agilizar o encontrar das peças, é possível revisitar alguns locais. É interessante notar que isso não é obrigatório. Apesar de não ser um jogo open world, tudo nesse gigante universo de terror foi bem arquitetado e faz a vontade de explorar, entender e superar ser maior que o medo (em boa parte das vezes, ao menos). Tais detalhes só não são superados pela satisfação de entender onde estava cada peça.

Resident Evil 7 é uma experiência memorável. Mas é bom deixar claro seu teor adulto: muitos xingamentos, horror, sangue e demais detalhes chamam atenção à classificação indicativa recomendada para jogar, como previamente anunciado em nossa matéria sobre o assunto.

O título está disponível para Xbox One, PC e PlayStation 4 e vale lembrar da participação do jogo no programa Play Anywhere, onde a versão digital de Xbox One garante a versão de Windows 10 (e vice-versa), como também que o título está disponível para o PlayStation VR.

Author: Jeancarlos Mota

Community Manager e geek multi-classe que acredita que o "ismo" é perda de tempo. Afinal, bom mesmo é jogar games, pouco importa a plataforma!

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