Análise | This is the Police

Jack Boyd nem de longe lembra o costumeiro mocinho dos games mais conhecidos. Na verdade, em meio a um jeito ranzinza e amargurado, ele soa pouco como o cara bom da história. Com sua cabeça pouco preenchida por cabelos brancos e uma pança desafortunada, o protagonista de This is the Police é um anti-herói dos bons. Com seus dias contados para uma aposentadoria “forçada”, faz o necessário para manter sua alta estatística de 80% de problemas resolvidos. Obviamente, nada é fácil na vida – e, especialmente, na polícia.

Tutorial 60

“Sou um policial de 60 anos a poucos meses da aposentadoria. Não preciso de alguém falando como fazer meu trabalho.”

O grande retrato pintado em tons pastéis nos quadrinhos exibidos do game desenvolvido pelo pequeno estúdio bielorrusso Weappy é a ironia. O sempre cansado Jack – perfeitamente caracterizado na voz de Jon St. John (Duke Nukem) ou no seu modo de tratar as pessoas -, enquanto conta seus dias para finalmente repousar, acaba preso em um grande esquema de intrigas, corrupção e violência comuns às boas e velhas histórias noir. Reforçado por uma trilha sonora característica cheia de jazz e música clássica, o herói acaba enrolado nas teias do mafioso Christopher Sand, um homem que recompensa seus aliados e apaga seus problemas. Ao mesmo tempo, ainda precisa atender aos caprichos do prefeito, um sujeitinho blasé cujas opiniões mudam ao seu bel prazer: pede uma repressão violenta a manifestações femininas num dia e solicita a contratação de mais mulheres policiais no outro. Um pequeno retrato da política, per se.

Enquanto capitão da delegacia local, é esse caos que o protagonista deve conter. Como responsável por definir os policiais, divididos em dois turnos, Jack precisa comandar seus subordinados da melhor forma para resolverem os mais diversos problemas da cidade, desde furtos e alarmes falsos a terrorismos e chacinas. Boa parte do game encontra-se nesse gerenciamento: mandar todos os seus policiais para um caso de sequestro do outro lado da cidade, por exemplo, pode acarretar em diversas pessoas mortas por uma bomba. Como nada na vida é fácil, é necessário lidar também com faltas, desistências ou mortes de seus subordinados – afinal, o perigo é o ganha-pão deles. Enfim, tarefas burocráticas como lidar com a imprensa, as exigências do prefeito ou uma guerrinha entre facções mafiosas também são pautas corriqueiras.

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Embora a mecânica seja baseada em textos e point-and-click, as coisas podem ser interessantes em casos mais complexos. Escolher a resposta errada significa ver um refém morto ou um suicida pular com seus filhos de uma ponte. This is the Police trata cruelmente suas opções, e é preciso estar com os nervos em dia para suportar esse tipo de culpa e compartilhar essa carga com os mesmos homens da lei, que a enfrentam diariamente. Todavia, as missões mais simples são exatamente isso: costumam ser sem graça e repetitivas, e mais atrapalham do que ajudam no andamento do jogo. Um alarme falso em nada vai afetar seu ânimo, especialmente quando você pega o jeito da administração. Infelizmente, nessa hora, a obra perde a magia, e só resta esperar que o dia seja “bom” – alguma desgraça ocorrer ou a história desenrolar.

As investigações, por sua vez, conseguem ser piores. Basicamente, o trabalho de seus detetives consiste em reconstituir os incidentes, baseado nos relatos contados por testemunhas, mas o que era pra dar um ar bem mais intrigante (e engajador) acaba como um puzzle absurdamente maçante de arrumação de imagens na ordem correta. Sequer é preciso ler os testemunhos. Infelizmente, é uma mecânica decepcionante e insossa que também prejudica o ânimo do jogador.

Mesmo assim, os momentos de impacto do jogo ficam na memória e, embora seja um tanto binário, com apenas duas opções a seguir por vez, ela faz diferença. Decidir por não ajudar aquele seu amigo que fez a maior burrada da sua vida pode acarretar na cabeça dele como souvenir no dia seguinte e, embora o game seja cartunesco, são imagens e consequências bem duras de lidar. O cotidiano de um policial, sentido em sua plenitude apenas por quem usa a farda. Seja ele mocinho ou corrupto.

Author: Marco King

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.

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