Análise | Uncharted 4 – prazer, Nathan Drake!

Nunca fui um grande fã de Uncharted. Há certas nuances na franquia que sempre me deixaram decepcionado: uma linearidade absurda, um combate repetitivo, uma brevidade amargurante do tempo de jogo e uma fórmula usada à exaustão. Relutei em adquirir essa última iteração, mas, como já havia sobrevivido aos jogos anteriores, senti como obrigação não deixar passar justamente o capítulo final dessa série. Ainda bem!

Jovens Irmãos

Uncharted 4: A Thief’s End é o encerramento merecido à saga de Nathan Drake. Céus, é como os primeiros poderiam ter sido, se não houvessem limitações de hardware e a evolução natural a cada novo título de uma franquia bem elaborada, a começar pela jogabilidade. Não é como se essa bendita estivesse completamente diferente; aliás, dificilmente acharia o contrário. O combate em terceira pessoa continua lá, bem como o sistema de cobertura e uma inteligência artificial um pouco melhorada. Os cenários têm rotas tão fixas que, quando me deparava com bifurcações, uma delas logo virava um beco sem saída ou ambas juntavam-se no mesmo caminho logo após atravessar a escuridão.

Outro item da fórmula de sucesso da franquia é a resolução de puzzles, mas, nesse caso, eu os achei fáceis demais. O único a me agradar dava as pistas de mão beijada a cada nova “fase”, então bastava ligar – literalmente – os pontos e seu caminho abria-se sem exigir qualquer raciocínio. Quando você não está ocupado demais escondido nos arbustos ou desvendando quebra-cabeças, possivelmente vai estar dependurado em desfiladeiros ou construções, antigas e novas. Nada muito diferente do habitual, exceto o fato de termos uma corda com gancho – e, com ela, as velhas escaladas tomaram um novo rumo de diversão. É legal demais “voar” de um ponto a outro e pular com um soco em cima de um oponente.

Puzzles

Aliás, mesmo que os vilões aparecessem, muitas vezes eu podia simplesmente evita-los, graças à mecânica de furtividade claramente emprestada de The Last of Us, outra obra consagrada da Naughty Dog. Embora nem sempre seja possível passar despercebido, existir tal possibilidade dá uma revigorada a mais no modo de jogar – e, para mim, foi excelente, pois prefiro ser furtivo mesmo. No entanto, é desapontador ver os companheiros serem mais úteis chamando a atenção para flanqueios inimigos do que a atrapalhar coisas do tipo.

A grande diferença deste quarto jogo, porém, é a fluidez dos acontecimentos. Eu não tinha de lutar a todo instante, por exemplo. Há muita escalada, é verdade, mas sempre tem um equilíbrio com as cutscenes. Essas duas tarefas mais recorrentes sempre possuem ação entre elas – brigas, perseguições, quebra-cabeças ou apenas uma pausa para apreciar a paisagem -, e no ponto certo. Às vezes, escutar uma conversa chega a ser recompensador, tamanha é a ansiedade causada pelas cenas de luta – jogar a perseguição frenética em Madagascar (gameplay completo dessa parte no vídeo abaixo) tirou o meu fôlego, então a cinemática que se segue ajudou a me recompor.

O final da cena acima, por sinal, serve como referência ao excelente trabalho feito com a roteirização. Para ser sincero, eu já ficaria bem contente de existir um contexto sobrenatural interessante, ao contrário das forçadas de barra dos outros títulos da franquia, mas Uncharted 4 deixa totalmente de lado esse aspecto e foca em um lado mais familiar e humano. O começo pode parecer meio lento, mas é necessário apresentar Samuel (o “outro Drake”) e a relação dos dois. Como exemplo, Elena também aparece, com foco inicial na sua vida de casada com o protagonista e como eles são mesmo apaixonados (entre si e pelas aventuras, embora ela não queira admitir), enquanto Victor… bem, a gente já está careca de saber da história dele, mas sempre chamou-me a atenção as inúmeras repetições de palavras como “kid” (“garoto”) ou “son” (“filho”) em suas frases para o Nate.

A espontaneidade da história e seus personagens tornara, enfim, todos os outros elementos do jogo o que deveriam ser desde o princípio: um mero recurso de uma narrativa sólida. Seja pela tristeza de Victor quando é mandado embora ou a vergonha de Sam após ser revelado como saiu da prisão, era normal colocar pensamentos e sentimentos na pauta como se eles mesmos o fizessem, parte também pelo bom trabalho dos atores (às vezes, eu esquecia que as vozes não eram dos próprios protagonistas). Palavras não precisaram ser ditas quando Nathan encarou o quadro enquanto Elena falava; eu tinha certeza da saudade que ele sentia de toda aquela vida de confusões e riscos, então soou real quando ele começou a se mostrar empolgado mais com a missão de buscar o tesouro dos piratas do que salvar a pele do irmão.

Irmãos

Embora a trama ainda seja contada linearmente, algumas mudanças acertadas de level design aliviam essa impressão. A própria cena de perseguição em Madagascar serve como exemplo: área clara, ampla e aberta para mostrar uma estrada ao mesmo tempo que te incentiva a sair dela pelo imediatismo. No fim, a rua acaba mais como um elemento de cenário do que uma escolha real do jogador: eu até podia seguir por ali, mas seria muito mais difícil escapar do carro blindado gigante com uma metralhadora no topo. A escuridão, por sua vez, é usada nas citadas bifurcações das cavernas para dar a falsa ilusão de vários caminhos: se eu visse facilmente quais surpresas me aguardavam mais à frente, veria uma parede bloqueando meu avanço ou a mesma sala por ambas as entradas.

Já que citei o level design, como não falar dos ambientes lindíssimos? Digo facilmente que este game é o mais bonito graficamente que tive o prazer de jogar no PlayStation 4, e um dos mais belos que já vi. Uncharted 4 superou fácil minha quantidade média de screenshots tirados (foram 130) e, em muitos deles, até me dei ao trabalho de utilizar o Photo Mode.  Isso já seria o suficiente, mas a riqueza de detalhes também é fantástica. A iluminação, as texturas e a renderização, tudo isso com pouco ou nenhum carregamento, auxiliam em uma experiência quase sinestésica.  Em determinado momento (veja a imagem abaixo), eu fiquei tão fascinado com o secar de uma pegada que passei minutos andando sobre poças e voltando à “pedra-secadora” só para ter o prazer de ver a marca sumir.

"Pedra-secadora"

É claro que eu iria tirar uma print!

Certamente, Uncharted 4 é, de longe, o melhor jogo da franquia. Em minhas quase 15 horas de jogo – quase o mesmo tempo que levei para finalizar os três games anteriores (sem buscar tesouros) -, corri, pulei, atirei, fugi de carros em meio a tiroteios, resolvi quebra-cabeças e explorei cenários belíssimos. Eu já havia experimentado tudo isso antes. Mas, pela primeira vez, vi um norte no protagonista, algo para guiar suas ações e tornar sentidas as consequências destas. Ele deixa de ser apenas um de tantos aventureiros piadistas em busca de glória e torna-se em um homem que usa o sarcasmo como escudo, seus instintos como arma e seu conhecimento como bússola. Por isso, ele sempre volta pra casa sem tesouro e fama, e com um sorriso no rosto.

O prazer foi meu, Nathan. Foi bom finalmente te conhecer.

Author: Marco King

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.

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