Análise | Pokémon e a Didática da Reinvenção

3DS Análises

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso
saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para
morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas
têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num
fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre dois
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc
etc
etc
Desaprender oito horas por dias ensina os princípios.

Em 1993, Manoel de Barros (1916-2014) publicou O Livro das Ignorãças, obra que contém o poema do trecho destacado acima – um dos mais conhecidos de sua autoria-, intitulado Uma Didática da Invenção. A escrita arrojada do autor matogrossense sempre me atraiu pelo bucolismo que evoca, e foi com este poema que aprendi, em grande parte, que o empirismo é de suma importância para a vida humana. É da miríade de experiências do indivíduo que emergem diversas de suas facetas mais extraordinárias. Foi graças a esta lição do saudoso Mané que sua poesia brotou em minha mente enquanto jogava o mais recente título da série Pokémon, remake de sua versão Sapphire – Alpha Sapphire, para o 3DS.

Manoel-de-Barros

O poeta.

O mundo de Pokémon está próximo de completar seus 20 anos de existência. É interessante, no mínimo, parar para contemplar o que os jogos da série causaram no universo particular de cada jogador que tomou contato com seus títulos. De minha parte, recordo-me das alegrias que vivi jogando os games das duas primeiras gerações, acompanhando simultaneamente, sempre, o desenho animado de estrondoso sucesso – era a plenitude de minha infância. Com igual nitidez consigo me lembrar da empolgação que me tomou quando ganhei meu Game Boy Advance SP junto de um cartucho de Pokémon Sapphire. Uma nova aventura para viver, celebração! Infelizmente, decepcionei-me rapidamente. Sim, à época, a terceira geração de games dos Monstros de Bolso não me agradou – pouco consegui me identificar com aquela nova safra de criaturas distribuída em um continente que em nada se equiparava à grandeza de Kanto ou Johto. Esse amargor que ruminei por anos apenas realçou o sabor da bela surpresa que foi Alpha Sapphire para mim. Uma década se passou e, aparentemente, a experimentação da qual Manoel de Barros falou tão lindamente fez bem à Game Freak e à Nintendo, que amadureceram e deixaram Pokémon amadurecer para incorporar diversos elementos à recriação de um antigo título da série. É a Didática da Invenção aplicada ao ato de se reinventar.

III

Repetir repetir – até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

Uma das grandes reclamações feitas sobre Pokémon ao longo dos últimos anos se referia à repetição de recursos de gameplay e narrativa que perpassou a série em alguns de seus jogos. O ato de se repetir, ao contrário do rótulo nefasto que o impuseram na indústria do videogame, mostrou-se especialmente feliz em Pokémon ao culminar na geração X/Y. A saturação causada pelas mesmas histórias e batalhas nos games foi tamanha a ponto de intensificar o frescor das adições presentes nestas obras. A repetição alicerçou o estilo Pokémon de jogo para que esta base recebesse estas novidades tão bem vindas.

Em Alpha Sapphire, não houve a preocupação – talvez tola – de se refazer o jogo original em seus mínimos detalhes. Os principais recursos de X/Y estão presentes no remake: O PSS (sistema de busca de jogadores), a possibilidade de brincar com seus Pokémon para estreitar seus laços com eles e o modo Super Training – em que o jogador pode upar os status de suas criaturas por meio de minigames. O mais interessante do jogo, no entanto, é que os desenvolvedores ousaram adicionar mecânicas novas em um título distribuído como remake, como é o caso do DexNav – programa

A interface do DexNav.

A interface do DexNav.

utilizado pelo jogador para encontrar Pokémons sobressalentes na tela e que, possivelmente, tem status promissores ou golpes incomuns. Todas estas funções – junto do mapa de Hoenn, o AreaNav – se apertam na tela inferior do 3DS à famosa maneira “coração de mãe”: sempre cabe mais uma. A organização é um pouco confusa e leva tempo para se familiarizar o suficiente a ponto de alternar entre os apps sem pensar duas vezes.

O excesso é perceptível em outros momentos do game, igualmente. As competições de talentos, chamadas contests, já me eram pouco atrativas na versão original do título. Pouco foi feito em Alpha Sapphire para tornar este modo do jogo interessante o suficiente para prender o jogador a ponto dele completar todas as tarefas propostas nesta seção da obra.

XIV

Poesia é voar fora da asa.

Em comparação com X/Y, é importante notar que uma falha fatal foi corrigida nas recriações da terceira geração – o número de criaturas lendárias é muito maior nestes games, facilitando a vida do jogador que almeja completar sua Pokédex. Boa parte do acesso a esses Pokémon é feito por meio da nova função de vôo implementada, em que o jogador tem controle total sobre a viagem que faz montado no dorso de uma determinada personagem do game. A vista do sobrevôo, associada à sempre zelosa arte de Pokémon, é extremamente satisfatória. Não só a equipe de desenvolvimento fugiu de seu lugar-comum, como o fez para se redimir de um erro cometido nos títulos antecedentes – afinal, é errando que se aprende.

Jogo é repleto de cutscenes elaboradas, outra inovação da era 3DS.

Jogo é repleto de cutscenes elaboradas, outra inovação da era 3DS.

XIX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

Neste processo de reinventar um game, parece-me que um ponto ainda precisa ser melhor trabalhado em Pokémon – sua estória, e como é contada. Conhecemos já a linearidade e a mastigação de fatos que acompanha os jogos principais da série desde seus primeiros títulos e, independente de ser um remake ou não, é fácil adivinhar o que acontecerá na trama dos games da série. Alpha Sapphire se permite à ousadia apenas após o final da campanha principal – em um episódio intitulado Delta. Torço para que esta espécie de epílogo seja uma experiência a ser expandida em jogos subsequentes, mas teria sido incrível tomar contato com uma narrativa repleta de dinamismo na trajetória principal do/da protagonista deste game. O universo de Hoenn, agora em 3D, contribuiria perfeitamente para uma nova forma de se contar a estória em Pokémon: um mundo em que, num momento, se voa ao cume do vulcão para depois submergir nos oceanos mais profundos é perfeito para uma aventura frenética – seria fácil imaginar o encontro entre Satoshi Tajiri e Jules Verne.

XX

Lembro um menino repetindo as tardes naquele
quintal.

A ousadia em Alpha Sapphire foi tão bem arquitetada que trouxe muitos sentimentos nostálgicos a mim. Este é um remake que pode ser jogado até por navegantes de primeira viagem na embarcação Pokémon que, sem problemas, prenderá a atenção dos novatos. Aos familiarizados com a série e, em especial, com Pokémon X/Y, ficará claro que o título é uma recriação que incorpora diversos elementos da passagem de Pokémon para o mundo tridimensional em um continente já explorado pela franquia. O esmero entre as partes, como sempre, é perceptível. Na parte musical, por exemplo, consegui ouvir os temas originais de Ruby/Sapphire com outros ouvidos graças ao trabalho de timbres renovados da biblioteca do 3DS.

Cortando alguns excessos aqui, colocando outras coisas para lá. Experimentando daqui e acolá, Alpha Sapphire se mostrou uma grata surpresa e que prenuncia bom futuro e longevidade à franquia Pokémon. E que continuemos tendo que pegar.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.