A figura do mensageiro em Mirror’s Edge

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Incontáveis são os exemplos em que arquétipos da mitologia tomam diferentes formas na arte. A jornada solitária de retorno ao lar em Ítaca de Odisseu – herói da guerra de Tróia, “pluriardil e magnopensante” – foi contada e adaptada diversas vezes, tanto pela cultura ocidental como a oriental: O Senhor dos Anéis e The Legend of Zelda testemunham a favor desta afirmativa. De fato, é na “aurora dedirrósea” da mitologia greco-romana que grande parte destes modelos é tomada de empréstimo, sendo referenciada mais ou menos explicitamente, variando entre casos.

Em Mirror’s Edge (Dice, 2008), a figura clássica do mensageiro é constantemente lembrada ao jogador. No game, assume-se Faith como personagem jogável, uma jovem runner – entregadora de informações sob o formato de pacotes. Em um mundo assolado por um obscuro governo despótico que monitora os principais meios midiáticos, ter uma profissão como a da protagonista é um crime grave, tornando os runners em alvos de enfática perseguição. É através de rápida ação parkour que Faith e seus colegas de trabalho evitam a polícia, tornando esta a principal mecânica que norteia o gameplay do título.

Não é preciso ir muito longe para encontrar referências diretas à mitologia greco-romana em Mirror’s Edge. A operação da polícia de treinamento de combate a runners é denominada Project Icarus. Em um jogo em que as personagens nos dão a ilusão do voo através de suas acrobacias, remeter ao mito do jovem cujas asas artificiais são mortalmente derretidas pelo sol, neste caso, sugere bastante sobre as intenções do governo para com Faith e semelhantes.

O mito de Ícaro é um exemplo de história da antiguidade constantemente referenciada nos tempos modernos.

O mito de Ícaro é um exemplo de história da antiguidade constantemente referenciada nos tempos modernos.

Nosso foco, no entanto, reside no supracitado arquétipo do mensageiro. Na Grécia, duas figuras divinas assumem este papel: Hermes e Íris. Em Mirror’s Edge, a lembrança a Hermes é mais claramente definida, afinal, o mentor de Faith é Mercury, abreviado carinhosamente como “Merc”. Mercúrio, entre os romanos, é o equivalente do deus-mensageiro grego. No jogo, Mercury possui duas características extremamente marcantes e intimamente relacionadas à figura de Hermes. Em primeiro lugar, o fato comum a todos os runners: usam sua esperteza a fim de iludir perseguidores e atingir seus objetivos, são tricksters. No Hino Homérico a Hermes, texto clássico que conta o nascimento e infância do deus grego, fica clara a perspicácia do mensageiro do Olimpo, embora usada em prol de um arrivismo que acompanha sua figura. Nesta obra, Hermes ardiloso e infante trama e executa um plano para roubar o gado de Apolo. Confrontado por sua mãe, Maia, depois pelo próprio irmão de Ártemis, tenta usar de falsa ingenuidade camuflada por seu caráter infantil para convencê-los de sua inocência. Ainda que falhe em sua tentativa, é notável a esperteza de Hermes que, no mito, tinha apenas um dia de idade.

Mais relevante, talvez, seja o caráter de guia que Merc assume no jogo. É ele quem traça as rotas e planos para que Faith os execute. Na Odisseia, Hermes atua de forma semelhante. É no último canto do poema que o mensageiro guia as almas dos pretendentes de Penélope, massacrados por Odisseu e Telêmaco, ao Hades. No mesmo sentido, Merc direciona não somente Faith, mas o jogador ao seu destino – o fim de cada missão – ajudando-o a completar a história.

Não confundir com este Hermes, embora ele seja tão ardiloso quanto seu homônimo grego.

Não confundir com este Hermes, embora ele seja tão ardiloso quanto seu homônimo grego.

A psiquê de Faith, como se espera de uma protagonista, é construída de forma mais intricada. A palavra “faith” em si tem uma de suas raízes no latim, do verbete fides. Na cultura romana, Fides é uma das deusas mais cultuadas do panteão, sendo a figura divina da confiabilidade. Desta forma, o nome da personagem principal de Mirror’s Edge sugere seu bom e inexorável caráter, mesmo que a lei de seu mundo diga o contrário sobre ela. Quanto à figura do mensageiro clássico, nota-se grande aproximação de Faith com a deusa Íris. Divindade do arco-íris, corre rápida como o vento, indo do topo do Olimpo ao mundo terreno e ao Hades com facilidade. Esta proficiência e velocidade é presente em Faith também. Pode-se ir longe aqui, mas ao lembrar que Íris viaja sobre o arco-íris para levar mensagens aos mortais, é possível associar esta imagem aos trajetos que Faith percorre, dominados pela cor branca, condensação dos sete tons.

Como mensageira, Íris possui papel notável na Ilíada, poema homérico que precede a supracitada Odisseia, onde Hermes assume esta função. No texto que narra a sangrenta guerra de Ilion (Tróia), a deusa do arco-íris serve como mediadora entre Zeus, mortais e outros deuses. É ela quem transmite a ordem Olímpica para que Poseidon pare de interferir na luta e quem incita o general troiano Heitor ao combate com os gregos, tudo sob as ordens de Zeus. Em Mirror’s Edge, esta subordinação não é presente em Faith, que passa a imagem de protagonista independente. Esta ruptura com a origem da imagem do mensageiro não é sem intenção, mas sim algo que traz à tona um caráter contextualizador da protagonista em seu universo fictício.

Assim como Íris, Faith é o elo entre dois mundos distantes. Ao invés de estabelecer o contato entre o divino e o terreno, a protagonista de Mirror’s Edge promove a transmissão da informação intocada pelo governo a diversos receptores inseridos no mundo despótico, enaltecendo através desta aproximação o discurso de que, sim, knowledge is power. Faith é ponto chave de uma rede de comunicações, assim como Íris e Hermes foram em seu tempo. A grande diferença é que, de fato, os mensageiros divinos não estavam inseridos em uma rede, mas sim em um sistema linear de emissor-meio-receptor – Zeus emite através de seu deus subordinado que entrega a palavra divina ao destinatário. Estas discrepâncias são naturais, afinal, Mirror’s Edge situa-se na contemporaneidade e busca manter-se atual.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.