Beyond: Two Souls e o choque sociológico da mendicância

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“Meu nome é Mauro Isidoro, tenho 33 anos. Há 12 anos, vim parar aqui na rua por causa do meu orgulho”

Independente do fato de Beyond: Two Souls ser ou não um bom game, antes disso, o impacto cultural que ele causa é algo a ser ponderado. Na realidade, o jogo em si parece mais um pano de fundo em torno de todas as problemáticas trabalhadas. Seu foco nos tabus da espiritualidade (vida após a morte e vida durante a gestação, por exemplo) levam a refletir muito mais do que usar o controle para derrotar fantasminhas obscuros.

No entanto, a cena que mais me causou choque neste trabalho da Quantic Dream foge do escopo da alma (mas não totalmente, como irei explanar); é uma questão mais sócio-cultural de uma situação que costumamos nos deparar diariamente e frequentemente viramos o rosto: a mendicância. De forma a fazer-me compreender, darei um breve resumo da história até o ponto citado.

Jodie é uma garota que desenvolve uma ligação muito forte com uma entidade chamada Aiden, que é retratado não como um espírito, mas como algo desconhecido. Ainda menina, em meio aos problemas que você pode imaginar que isso traz a uma criança (descrença, intolerância e bullying), é levada ao Departamento de Atividades Paranormais (DPA) e lá descobre que pode lidar com seres do outro mundo, como ver e falar com os mortos e derrotar entidades malignas. Graças às suas habilidades, a CIA (que tem a DPA como uma de suas divisões) fica interessada e recruta a garota, que recebe treinamento e apoio.

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Após uma missão, ela descobre que foi enganada e foge da corporação, tornando-se uma fugitiva. Sem ter para onde ir e com a polícia ao seu encalço, Jodie vira uma moradora de rua, e é nesse ponto que eu fui pego de surpresa: o relativismo das coisas. Neste caso, como alguém que tem uma vida confortável pode rapidamente perder tudo. Lógico, o caso dela é algo bem específico, mas é um fato de que não podemos ter certeza do nosso futuro e, ao conhecermos a realidade dos outros moradores de rua que a acolhem, isso fica mais evidente.

“Meu sonho é voltar a ser manicure e cabeleireira igual quando eu era casada”.

Jimmy é um viciado em drogas. Tuesday é uma gestante que torna-se pedinte após fugir de seu namorado violento. Walter foi incapaz de pagar seus empréstimos e perdeu casa, emprego e amigos. Esses casos soam tão corriqueiros que fazem minha mórbida imaginação trabalhar: o que poderia acontecer comigo que me faria acabar como eles? Para meu alarme, as respostas foram mais do que eu gostaria (ou estava preparado).

Mais interessante é notar como nós mesmos podemos nos impor a esta condição. Stan, o homem que salva Jodie após ela desmaiar em meio ao frio e à neve, ao perder sua mulher para uma leucemia, fica desamparado e perdido e acaba nas ruas em menos de um ano. A perda de um ente querido gera uma dor incrível, que o impede de sair desta situação: ele segue em frente apenas quando sua mulher, por intermédio da protagonista, lhe pede para “parar de viver no passado” e construir uma vida nova.

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“Depois que você veio falar comigo, um pessoal já veio aqui também e a galera passou a respeitar um pouco mais”

Em nosso mundo real, assim como as pessoas que passam e ignoram completamente Jodie enquanto ela pede, encontramo-nos em um estado quase que de repúdio aos pedintes. O mendigo é visto como vagabundo, preguiçoso e beberrão (algumas vezes, ele mesmo contribui para este pensamento), indigno de piedade e merecedor de sua própria condição. Ele representa o mínimo que o ser humano poderia alcançar, não apenas em termos materiais, mas, sociologicamente falando, ele representaria uma regressão, um retorno ao nosso estado primitivo e animalesco, e deixa então de ser homem. Muitas vezes, por esta forma de pensar, ele se torna digno de ser ignorado e, por fim, torna-se “invisível” (o que a sociologia e a psicologia chamam de invisibilidade social). Douglas Adams trata deste sério problema de uma forma divertida e interessante na sua “trilogia de cinco livros” O Guia do Mochileiro das Galáxias, ao dizer que uma nave pode ficar completamente invisível ao usar uma tecnologia chamada de POP, acrônimo para “Problema de Outra Pessoa”.

Um POP é alguma coisa que não podemos ver, ou não vemos, ou nosso cérebro não nos deixa ver porque pensamos que é um problema de outra pessoa. É isso que POP quer dizer: Problema de Outra Pessoa. O cérebro simplesmente o apaga, como um ponto cego. Se você olhar diretamente para ele, não verá nada, a menos que saiba exatamente o que é.

– Douglas Adams: A Vida, O Universo e Tudo Mais.

E é o que ocorre conosco: não sabemos exatamente o que é. Não sabemos como é viver nessas condições, sequer passa essa situação pela nossa mente. Taxamos essas pessoas como bestas, animais e elas simplesmente passam despercebidas, “desaparecem” das nossas vistas. Somente depois de ter sido impactado com esta visão em Beyond foi que eu pude notar como isso era frequente. Respostas a questões como “qual a última vez que passei por um pedinte?” não foram respondidas facilmente, quando foram.

“Pra quem acha que todos são bandidos, eu digo: nem todos os dedos da mão são iguais”

Mas, ao contrário do que podemos pensar, eles ainda se consideram cidadãos. Vêem na prática da mendicância uma forma honesta de sobreviver, que se opõe ao furto e ao roubo, algo que o próprio game demonstra. Se as decisões que Jodie (consequentemente, você) faz envolvem furto, Stan a repreende e diz que foi uma “má escolha”. Isso se quebra em parte ao furtarem um supermercado: Stan e Jodie são “forçados” a invadi-lo quando Tuesday entra em trabalho de parto. No entanto, pode ser visto como um ato de desespero e, mesmo em meio a uma grande variedade de itens, os únicos pegos tinham o intuito exclusivo de manter a saúde e a integridade física da mãe e do bebê.

Este senso de companheirismo, de cuidar uns dos outros, é extremamente forte entre os sem-teto. Em entrevista para o jornal O Globo, o sociólogo Paulo Magalhães, que conviveu com moradores de rua por um mês, disse após ser perguntado porque eles preferem continuar na rua: “(…) Eles são, em primeiro lugar, territorializados. Eles se estruturam em grupos, desenvolvem relações de afeto, comemoram aniversários, datas festivas — menos o Natal, porque remete à família e aí ‘ferra’ com eles —, há uma forte vida grupal”. Desde o primeiro momento em que Jodie acorda, já na cama de Stan, parece haver um vínculo fraternal entre eles, que se estende aos outros em dois momentos: quando, aparentemente, reconhecem que ela é “um deles” e quando a garota conhece mais da vida de cada um.

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Enquanto isso, não há ninguém que cuide deles, exceto eles mesmos. São negados pela política e pela sociedade. Até pouco tempo, mendigar era crime, assim como roubar. Para o psicólogo Samuel Gachet, em entrevista para o site Discutir Educação, “é preciso não só ver esses invisíveis, mas é preciso olhar para eles e sentir junto com eles, é preciso ‘colocar óculos em toda humanidade’”. Beyond: Two Souls alcançou êxito em transmitir a problemática ao impactar de forma envolvente, inesperada e pessoal. O campo POP foi quebrado; resta-nos saber como tratar essa informação.

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As frases em destaque são trechos de confissões reais de mendigos, retiradas da página SP Invisível, um projeto que visa abrir os olhos e a mente através das histórias dos invisíveis para motivar as pessoas a terem um olhar mais humano. Conheça mais do trabalho dessas pessoas, vale a pena.

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.