A música de Yasunori Mitsuda e seu papel na série Chrono – Parte 2

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Na semana passada, tratei aqui do início da carreira do compositor Yasunori Mitsuda na Squaresoft e de sua primeira trilha musical na desenvolvedora, Chrono Trigger. Fechando a temática proposta, lidarei hoje com o trabalho de Mitsuda em Chrono Cross.

Yasunori Mitsuda

“O” cara.

Lançado em 1999 para PlayStation, Chrono Cross é a sequência direta de Chrono Trigger – embora alguns possam citar a obscura visual novel Radical Dreamers, disponível para Super Famicom, como um intermezzo entre os dois títulos. Cross marcou a passagem do bem sucedido universo de Chrono Trigger para a geração 3D e teve recepção positiva da crítica, apesar de muitos jogadores não terem gostado das mudanças bruscas de gameplay e narrativa em relação a seu antecessor. A música do game, no entanto, mostrou-se distante destes comentários, sendo amplamente elogiada e, mais tarde, tornando-se repertório obrigatório do gênero.

Quando se fala de música associada a outras mídias, é necessário atentar para o conteúdo e contexto do material que ganhará trilha musical. Chrono Trigger tem um aspecto muito importante para o desenvolvimento de sua estória: as viagens temporais. Neste caso, a música adquire não somente a função de ditar e caracterizar o ambiente, mas também de diferenciar diferentes períodos de tempo durante o game. A grande diferença de Chrono Cross para o primeiro título de sua série é que o jogo lida, em grande parte, com o espectro das viagens dimensionais. Indo além, é importante citarmos a dicotomia existente na fábula contada nos dois games: enquanto Trigger mostra que, no fim, somos senhores de nosso destino, Cross diverge e conta que nossas ações sempre serão atraídas em direção a um final pré-determinado, por mais que lutemos e nademos contra a corrente. Estes fatores são de suma importância na hora do compositor decidir qual caminho ele irá trilhar – isto não foi um trocadilho.

A trilha de Chrono Cross não foge do característico som de Mitsuda, influenciado pela música popular de diversos lugares do mundo. Isto logo se revela na faixa de abertura, Time’s Scar, em que o músico utiliza instrumentos como o bouzouki grego e as flautas japonesas shinobue e shakuhachi. Note como o compositor é inventivo ao dobrar a linha da shakuhachi com o violino na parte mais movimentada da peça (início em 1:15):

É importante citar que a mescla entre instrumentos orientais e ocidentais já foi amplamente explorada no Japão – muito provavelmente, Mitsuda teve a influência de seus conterrâneos mais velhos. Um bom exemplo é a peça November Stepspara biwa, shakuhachi e orquestra, de Toru Takemitsu – exímio compositor que fez trilhas para cineastas como Akira Kurosawa e Masaki Kobayashi e que terá trabalhos executados este ano pela OSESP. A dica do dia está dada.

As viagens dimensionais em Chrono Cross influenciaram amplamente o processo de criação de Yasunori Mitsuda. É importante notar que as duas dimensões por onde o jogador transita compartilham do mesmo mapa. Desta forma, a música do game assume não somente um papel dramático e caracterizador, como a função de diferenciar os dois planos. Com isso em mente, Mitsuda utilizou-se de uma extrapolação do conceito musical de tema e variações. No repertório clássico, o tema e variações é uma forma musical em que o compositor apresenta um determinado material temático e, esbanjando sua criatividade, encontra diferentes maneiras de tocá-lo – seja alterando seu ritmo, andamento, forma de acompanhamento, tonalidade (em repertório tonal) e etc. No caso, Mitsuda compõe uma melodia e utiliza-se dela para fazer duas peças diferentes. Bom exemplo é o par de músicas que toca no vilarejo natal do protagonista Serge, Home Arni Village Another Arni Village:

No primeiro vídeo, escuta-se a peça executada na dimensão natal de Serge. Mitsuda, assim como outros compositores, busca evocar sensações de paz e tranquilidade neste momento do game. No encarte do disco da trilha original de Chrono Cross – lançado em 1999 pela DigiCube – ele explica:

Todos os temas de ‘primeira cidade’ que eu havia escrito até então remetiam a uma sonoridade brilhante e ensolarada, então desta vez eu tentei fazer algo com uma atmosfera mais calma. Eu pensei que a música para guitarra de fado seria muito legal para esta cidade, mas a sonoridade do fado geralmente gera uma imagem escura e repleta de tristeza. Então eu me perguntei ‘se eu tentasse escrever uma música pacífica e brilhante com uma guitarra de fado, que tipo de música seria?’. Bem, talvez neste caso não seja exatamente fado…(risos)

Note a rica instrumentação empregada por Yasunori Mitsuda em Home Arni Village. O emprego do contrabaixo acústico confere movimentação rítmica durante toda a peça, assemelhando-se a uma valsa. Como o compositor descreve, é uma música de caráter calmo. O emprego do que Mitsuda chama de ‘guitarra de fado’ – cujo timbre sintético, no caso, lembra muito mais um violão de aço – evoca a canção popular que tanto fascina o músico.

Protagonista do game, Serge.

Protagonista do game, Serge.

A segunda peça, Another Arni Village, é um exemplo da sensibilidade de Mitsuda. Na estória do game, Serge cai em uma dimensão paralela em que ele morreu ainda pequeno. A música do vilarejo de Arni neste mundo busca evocar uma sensação de despertencimento, afinal, imagine caminhar por sua vizinhança e ninguém reconhecer você. Causa também estranheza, visto que a alegria visual da vila se contrapõe à música. Este tipo de conflito entre música e outra mídia foi muito explorado em outras formas audiovisuais. Um exemplo famoso do cinema japonês – universo cultural próximo de Mitsuda – encontra-se no filme O Anjo Embriagado (1948) de Akira Kurosawa. Em uma determinada cena, o yakuza interpretado pelo astro Toshiro Mifune caminha em um mercado a céu aberto. O mafioso havia acabado de perder seu território, pois seu chefe saiu da prisão. Feirantes o insultam e, para completar a catástrofe, a personagem de Mifune sofre de tuberculose. A música escolhida por Kurosawa e pelo compositor Fumio Hayasaka foi a Valsa do CucoA contradição entre universo visual e sonoro apenas reforça o psicológico do protagonista.

No mesmo encarte citado anteriormente, Mitsuda fala de Another Arni Village:

Another Arni Village lhe dá a sensação de inexistência que vem do puro vazio. Então eu arranjei Home Arni Village com um sentimento de vazio para se tornar o tema desta peça. O desolador som do piano dobrando o violão se encaixa bem nesta vila.

Nota-se que a escolha de instrumentos é muito importante para o compositor de Chrono Cross. Uma boa demonstração disso encontra-se na peça Another Guldove. Guldove é um pacato vilarejo pesqueiro em uma ilha. O próprio nome do lugar chama a atenção e dá a dica do caráter bucólico do local, sendo a união da denominação de duas aves: Gull (gaivota) e dove (pomba). No tema de Another Guldove, Mitsuda emprega o oboé – instrumento de sopro cujo som assumiu um caráter pastoril na cultura ocidental. Yasunori se aproveita deste fato para criar uma das peças mais eficientes e marcantes da trilha de Chrono Cross:

A trilha musical de Chrono Cross foi disponibilizada integralmente na forma de um disco triplo – como disse anteriormente, o álbum foi lançado sob o selo DigiCube em 1999. Na América do Norte, um mini CD intitulado Chrono Cross Selected Music foi distribuído como bônus às pessoas que compraram o game na pré-venda. Yasunori Mitsuda fala há anos do lançamento de um disco das faixas de Chrono Cross totalmente rearranjadas por ele, mas pouca coisa acerca deste álbum se concretizou, por ora.

Citei isto no primeiro texto desta série, mas desenvolvi uma monografia sobre a trilha de Chrono Cross que, subsequentemente, rendeu um artigo na revista GEMiNIS da UFSCar. Disponibilizo nos links estes textos àqueles que se interessarem em se aprofundar no assunto. Espero que a leitura tenha sido de vosso apreço tanto quanto me foi prazeroso revisar minhas pesquisas.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.