Grim Fandango Remastered. Oh Manny, que saudade!

Análises PC Playstation 4 PS Vita

Que alegria foi o anúncio na coletiva da Sony (E3 2014) de que Grim Fandango seria remasterizado. Lembro-me das muitas tardes em que chegava da escola e passava horas tentando resolver os difíceis puzzles que o jogo me apresentava. Ri muito com Manuel (Manny) Calavera, Glottis e Salvador Limones. Foi realmente muito bom ver o jogo de volta.

grim fandango corpo - manuel_calavera

Grim Fandango segue o estilo neo-noir, onde figuras 3D são aplicadas em cenários estáticos pré-renderizados. Ele utiliza traços da cultura asteca e dá grande foco em uma importante celebração da cultura mexicana: El Día de Los Muertos (o dia dos mortos). No jogo, você será o agente de viagens do departamento dos mortos em El Marrow, Manuel Calavera, que vende pacotes para o além aos recém-chegados.

Mas assim como no mundo dos vivos, o dos mortos também está cheio de pessoas mal-intencionadas e corruptas. Manny Calavera percebe que um esquema fraudulento de larga escala está ocorrendo com os bilhetes de viagem dos mortos “VIP’s” e, após perder uma cliente para o terrível esquema dos vilões, ele decide partir em uma jornada pelo mundo dos mortos a fim de salvá-la.

A história é dividida em quatro anos e Manny, junto com seu parceiro Glottis, passarão por florestas de pedra, cidades de apostas, o fundo do mar e muito mais, na busca de justiça e de salvar a sua cliente perdida, Mercedes (Meche) Colomar.

Com vilões bem divertidos e companheiros mais divertidos ainda, a história é muito bem montada e lhe instiga a seguir em frente. Personagens, como o líder revolucionário Salvador Limones, o parceiro-do-crime de Manny, Glottis e o vilão Hector Lemanz realmente ganham a cena e os jogadores.

Salvador Limones de boina ao lado de Manny

Salvador Limones de boina ao lado de Manny

O sistema de controles é simples; estamos falando de um point and click, portanto é necessário interagir com objetos e personagens, solucionando diversos puzzles para prosseguir na história. Infelizmente, os controles (às vezes) não funcionam como deveriam, sendo necessárias mais de uma tentativa de cliques ou posicionamento do personagem em cena para interagir com algum objeto, o que irritou um pouco.

Grim Fandango tem quase 20 anos de história; ele foi lançado em 1998 pela LucasArts, foi desenvolvido por Tim Schafer – Monkey Island, Full Throttle, Days of The Tentacle, Broken Age, entre outros títulos de sucesso – e, quem era gamer nessa época, deve lembrar que os jogos costumavam ser muito mais desafiadores do que hoje. O grau de dificuldade para solucionar os puzzles é enorme, pois não existem tutoriais, dicas ou um “abaixe o nível para passar”, tanto que, mesmo já tendo jogado antes, precisei procurar algumas dicas na rede sobre como prosseguir em determinados pontos do jogo. Realmente um desafio fantástico para quem gosta de desvendar segredinhos escondidos nos cenários.

O humor obscuro impera, com piadas mais adultas que ficaram muito melhores com a maravilhosa dublagem em português. Isso precisa ficar claro para vocês, o jogo é bom, muito bom, mas entendo que muito disso é mérito da dublagem. As vozes são muito engraçadas e carregadas com o sotaque espanhol, em alguns momentos são até um pouco amadoras. Tenho certeza de que metade da diversão não existiria não fosse a dublagem canastrona que foi utilizada aqui. E o jogo não foi só dublado, como também tropicalizado, ou seja, as gírias não foram traduzidas literalmente, mas sim adaptadas para nossa cultura e idioma. E vale lembrar que este jogo já tinha dublagem em português brasileiro no seu lançamento original, mostrando que a LucasArts enxergava com bons olhos o nosso mercado.

Junto com a dublagem, temos uma bela trilha sonora. Produzida por Peter McConnell, ela segue um mix dos estilos Jazz, Folk, Swing, Mariachi e Big Band, tudo harmoniosamente “encaixado” criando uma incrível atmosfera neo-noir/novela “pastelão” mexicana. O áudio, de maneira geral, é muito bom e por isso mesmo eu recomendo que você explore cada cantinho dos cenários e realize todos os diálogos possíveis – muitas das conquistas só ocorrem após as opções de conversação com determinado personagem se esgotarem.

Uma das cenas de destaque acontece no clube noturno Blue Casquet em Rubacava, onde Manny ou Olivia (proprietária do clube) podem subir ao palco para recitar ridículas poesias, ou o que quer que venha no script.

Lupe

Lupe

A remasterização, no entanto, não está lá muito boa. A LucasArts realizou a aplicação de texturas com melhor qualidade nos momentos do gameplay, mas nem sempre estavam bem encaixadas e em alguns pontos não apareciam. Personagens chegaram a ter a cor branca de seus ossos transformada em lilás, como aconteceu muito com os dentes de Glottis e o corpo de Lupe. Os cenários, por exemplo, não tiveram alteração de qualidade alguma. Acontece que diversos problemas aconteceram no processo de remasterização, já que muitos dos arquivos foram perdidos com o tempo e muitas das tecnologias utilizadas nem existem mais, como o drive de leitura dos backups DLT recebidos da Double Fine Productions de Tim Schafer, por exemplo. Felizmente o áudio, com a incrível dublagem pôde ser recuperado e por isso a encontramos também aqui nesta versão. O ponto positivo da remasterização é simplesmente o fato de que o jogo original não era encontrado tão facilmente, afinal já são 17 anos desde o seu lançamento. Com a nova versão tivemos a oportunidade de novamente colocar as mãos em uma cópia da saudosa odisseia do nosso querido Manuel Caveira. Você tem a opção de rodar o game com seus gráficos originais, o que não mudará muito a experiência.

Grim Fandango é um puzzle solving desafiador, com personagens cativantes, cenários criativos e uma história envolvente. Particularmente não ligo para gráficos e, portanto, o fato da remasterização não estar boa em nada interferiu no meu gameplay. Quem já jogou tem agora a oportunidade de matar a saudade e, quem ainda não conhece, não deve perder a oportunidade.

Grim Fandango Remastered não só saciou a minha saudade do jogo, mas me transportou para uma época diferente de minha vida, meu passado. A cada cena ou música que surgia, imagens e até aromas da minha infância voltavam a minha mente como mini flashbacks. E isso, meus amigos, é impagável.

grim fandango corpo 1

Marketing na cabeça, game no coração. Não importa o dia, a hora e muito menos a plataforma, o que importa é o prazer de jogar.