A quebra de paradigma de Hitman: Damnation

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Em comemoração ao Dia Mundial do Livro, resolvi dar uma contribuição marota para esta data especial. Como fã da série Hitman, nada mais justo do que falar de Hitman: A Condenação (Damnation), o segundo e último (por enquanto, ao menos) livro baseado na franquia do Agente 47.

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Capa do livro

A Condenação é um relato dos acontecimentos no período entre o quarto (Hitman: Blood Money) e quinto (Hitman: Absolution) games e, assim como a publicação anterior Hitman: Enemy Within, foi também escrita por Raymond Benson. O autor, inclusive, tem obras baseadas em outro jogo de furtividade, o Splinter Cell, além de ter produzido alguns livros do famoso espião James Bond. Então, já dá pra sugerir que foi um bom trabalho, não?

A publicação, como dito, ocorre antes do Absolution, então é uma leitura interessante para quem ainda não o jogou mas também serve para explicar algumas coisas para os que já o finalizaram. A iniciativa de Diana em arriscar sua vida para proteger o “pacote” retratado posteriormente no jogo, por exemplo, é uma ótima ponte entre as mídias – mas poderia ser melhor explorada. O grande ponto, no entanto, está no modo de pensar e agir do Assassino Silencioso.

O Agente apresentado por Benson foge do habitual. Aqui, conhecemos um novo 47: ainda excelente nas suas habilidades, mas frágil e suscetível. Senti-me espantado ao ver essas características, mesmo que bem menos à flor da pele, ao jogar a sequência da história (esse lance de crossmedia é sensacional, não acham?), mas fiquei ainda mais chocado ao ler.

Traficante 47

Garantindo a dose da semana

O Assassino, tão famoso por ser frio, calculista e extremamente eficaz, também falha. Um “acidente de trabalho” em uma missão no Himalaia força-o a tomar analgésicos para encobrir a dor que começa a sentir, mas, com o passar do tempo, ele acha que os medicamentos ajudam seus sentidos, mas a falta deles o deixa mais ansioso. Em determinado ponto, o personagem diz:

Eu podia parar de tomar os comprimidos quando quisesse. Eu sabia que podia.
Eu só não queria. Não ainda.

Antes, permita-me abrir um parênteses sobre a escolha do estilo de narrativa de escritor, que intercala entre terceira e primeira pessoa. Essa alternância é fluida, intrigante e, mais importante, permite que o leitor possa assumir o papel do protagonista durante o texto, assim como podemos fazê-lo no jogo. É bem interessante como, ao ver seus pensamentos, assumimos a posição do anti-herói, ao mesmo tempo em que o reconhecemos como um de nós. E é nesse ponto que Benson quebra a paradigma do Hitman: o super-humano vira humano, alguém como eu e você.

“PELO MENOS UMA VEZ, O AGENTE 47 PUXOU O GATILHO MOVIDO POR COMPAIXÃO”

Notou como o trecho citado anteriomente é algo comum do cotidiano? É uma frase de um viciado que não reconhece seu vício. Neste ponto, o maior assassino do mundo, geneticamente modificado e tudo o mais, é transformado em alguém comum, suscetível aos problemas do dia-a-dia. E continua a mudar durante a história, quando seu coração começa a sentir emoções nunca antes conhecidas por ele – e, por consequência, por mim e vários outros fãs – na série, e carrega esta “leve” mudança de comportamento para o Absolution.

Hitman: Silent Assassin

“Perdoe-me, padre, porque pequei”

Sabemos que o 47 dá, sim, importância para emoções. Uma das maiores provas é o segundo título da série, Hitman: Silent Assassin, cujo enredo foi construído com base em sua amizade com o padre Vittorio, que o acolhe quando decide se aposentar. Nele, seu amigo é sequestrado e, para pagar o resgate, ele decide retornar à Agência e cumprir missões para adquirir dinheiro, além de utilizar os recursos dela para encontrar o padre. Mas não seriam estes sentimentos “racionais” – e, desta forma, mais aceitáveis para um ser “perfeito” -, já que podemos escolher nossos amigos ou controlar nossa raiva, ao contrário de amor e da dependência?

Estes últimos, todavia, descontroem e remoldam o personagem durante toda A Condenação, rompendo bruscamente com a visão de “perfeição” que se tem dele – ou, ao menos, de total controle e consciência do “eu”. Estendendo-se a isso, esta quebra consegue também afetar diretamente imersão e experiência: eu próprio não era mais o agente frio, que cumpria com louvor meus objetivos. Voltei, sim, a ser uma pessoa normal, com silverballers e um lembrete de “não use drogas” na parede da sala.

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.