Análise | Hotline Miami 2: Wrong Number ata laços sangrentos

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Não faz muito que empreendi um emparelhamento da narrativa do primeiro Hotline Miami com o métier do diretor David Lynch. Nesta reflexão prévia, pude enxergar o quanto o andamento do game de Söderström e Wedin me agrada, provando que a opção por não-linearidade – quando bem estruturada -, pode fazer um jogador levar para a cabeceira da cama diversas inquietudes.

Em termos gerais, Hotline Miami 2: Wrong Number dá continuidade aos vaivéns ultraviolentos de seu predecessor. A imensa variedade de maneiras de se degolar, esfaquear, balear e tirar a barrigada dos inimigos em estilo cartunesco e sangrento persiste, assim como o igual frenesi no contar da história foi mantido. Neste sentido, a dupla criativa da Dennaton Games foi feliz em sua análise da resposta do público ao aclamado título de 2012 – não se mexe em time vencedor.

Logo de início, Hotline Miami 2 faz questão de propor indagações fundamentais ao jogador: o que está acontecendo, de fato, no universo do jogo e o que é mentira? O que é cinema? A própria interface de menu do game contribui para a confusão ao simular um controle de videocassete (lembra deles?). Todo este aparato, todavia, não é mera perfumaria, mas algo que dá alicerce aos comentários que o título se propõe a fazer.

Hotline Miami 2 Menu

Preciso destacar a mordaz metalinguística que, igualmente, foi mantida no game. Em sua sutileza, o jogo faz questão de comentar que “você realmente gosta de machucar pessoas” – fazendo referência à famosa pergunta do primeiro game. Outro momento memorável de mesma estirpe encontra-se em um crescendo da violência que culmina na frase “é apenas um filme”. Basta trocar “filme” por “game” que obtemos o reciclado argumento utilizado por muitos jogadores médios de videogame para invalidar análises mais críticas e profundas em grandes portais especializados. Em seguida, o mesmo sujeito tenta legitimar seu hobby como arte, vá entender.

Em suas minúcias, Hotline Miami 2 tem altos e baixos. Agrada-me a perspectiva da estória sob diversas óticas, coisa que, mesmo na confusão narrativa do título, ata diversos nós deixados frouxos por seu predecessor. Entretanto, esta escolha dos desenvolvedores sacrificou um dos trunfos do jogo primo – a variedade de máscaras que o protagonista podia vestir, atribuindo-lhe diferentes habilidades. Por outro lado, é compensador ter a alternativa de jogar com duas metralhadoras ou com uma dupla de personagens munidos de serra elétrica e pistola – embora a mecânica de um protagonista seguir o outro desta mereça um aprimoramento.

Hotline Miami 2

Algumas impressões ruins de Hotline Miami 2 não podem ser varridas para baixo do tapete. Uma das grandes críticas atribuídas a seu antecessor não foi corrigida – a presença de inimigos invisíveis ao jogador, mas com alcance suficiente para derrotá-lo. Neste sentido, parece-me que a coisa piorou: em determinados momentos, consegui sair da tela e ter dificuldade para regressar. Aparentemente, obstáculos escondidos foram deixados no level design para desespero do jogador.

A programação do título pareceu-me menos polida se comparada ao Hotline Miami de 2012. Tornou-se lugar comum para mim estudar a rotina dos adversários para, seguramente, eliminá-los. Uma das práticas de meu jogo covarde é entrar no campo de visão do inimigo para atraí-lo e derrotá-lo no combate manual. Quando meti-me a fazê-lo neste game, muitas vezes a inteligência artificial mostrou-se desorientada – ou, talvez, seja normal para membros da máfia russa girar sobre seu próprio eixo ou debater-se entre parapeitos de porta ao perder um perigo em potencial de vista. Alguns níveis também parecem privados de um limitador: consegui contornar paredes que não deviam ser evitadas e chegar ao outro lado da fase. Pode parecer picuinha, mas incomoda um tanto.

'Onde está Luiz Roveran?' é o novo 'Onde está Carmen Sandiego?'

‘Onde está Luiz Roveran?’ é o novo ‘Onde está Carmen Sandiego?’

Novamente, é preciso reforçar que a narrativa do game funciona muito bem. O aprimoramento desta em relação ao título original é notável ao dar maior ênfase ao lado humano de suas personagens. Há maior espaço para reflexão, para concordar ou discordar das atitudes tomadas por cada um dos atores do filme (ou seria um game?). As pequenas peças do quebra-cabeça resistem ao encaixe, mas quando se ajustam, formam uma imagem satisfatória. A recompensa ao acreditar-se entender o que se passa em Hotline Miami 2 se compara à encontrada no fim de cada fase. O jogo, quiçá, poderia ser enxugado para uma menor duração. Sabe-se que uma das demandas do público era ter uma sequência mais longa, no entanto, Hotline Miami é o tipo de game que exige muito de sua energia. Tornar inteligíveis todas as cores e pulsações marcantes da (excelente) música eletrônica, além de passar por cada fase incólume demanda trabalho e esforço mental. Não reclamo da duração do primeiro título da série e acho que logo ali seus desenvolvedores encontraram um tamanho ideal.

Hotline Miami 2 fecha um círculo notável e frutífero para a Dennaton Games. Ainda prefiro o título original, mas sua sequência é digna e divertida o suficiente para superar suas falhas. É um game, no entanto, que deve ser abordado com cuidado – por trás de sua face rubra de sangue, há muita coisa dita. “Busque ser crítico”, talvez, seja o que mais me salta aos olhos. Deve ser meu ofício.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.