Análise | Hatred e a necessidade de atenção

Análises PC

[ATENÇÃO: este jogo é classificado como Adulto, devido ao seu teor de violência. Não recomendamos que menores de 18 anos comprem ou usufruam do mesmo.]

Todo mundo já foi rebelde quando mais jovem. As frases de mudar o mundo, beber para obter respeito ou mostrar que é “adulto”, desrespeitar placas, família e tudo o mais, toda aquela ladainha causadora de vergonha alheia quando relembramos. Quando sofre coisas mais sérias, como bullying, violência doméstica e perda de entes queridos, é normal nutrir um certo ódio do mundo. O escritor Anatole France falou, certa vez, que “é-se rebelde quando se é vencido”. Dor, angústia, culpa – como vencer o que te impede de evoluir?

Eis que crescemos. A raiva pode até permanecer, mas precisamos seguir com nossas vidas. Nem todos conseguem, e então surge a ideia de criar Hatred – ou, prefiro chamar, o sinônimo de alguém impedido de vencer.

Hatred

“Eu sou genocídio” (Imagem: Reprodução/Hatred)

Similarmente ao clássico herói Peter Pan, com seu desejo de ser criança para sempre, o protagonista deste game ainda não cresceu. É o reflexo de um ódio pueril, de ter raiva apenas porque pode-se tê-la, do “poder ser” um misantropo sem qualquer fundamentação para tal. Não apenas isso: conforme a obra avança, a única impressão passada é de um personagem que só quer chamar a atenção, como um fedelho que grita e esperneia para a mãe, de mal grado, verificar o que o aflige. Surge, assim, uma figura mundana: um rapaz sem nome, de rosto inexpressivo, com cabelos longos ensebados, sobretudo e coturno. Um estereótipo puro, porém até válido, que traz à tona imagens de minha (e de várias outras) adolescência furiosa – com exceção do cabelo.

Contudo, é profundamente difícil compartilhar alguma experiência desta persona. É somente alguém repleto de falas clichês (“eu odeio política, mas, mais que isso, eu odeio políticos”) completamente ignoráveis, fixado no objetivo de matar inocentes porque tem uma arma para isso. Seu senso megalomaníaco de terminar sua vida em uma grande explosão é o motivo primordial de que – repito – ele só precisa de um pouquinho de atenção. Se ninguém o vê, ele fará com que o notem e blábláblá. Sem tanta asneira “cuspida” da boca dele, o jogo já melhoraria.

Falas de Hatred

Cala boca, meu chapa! (Imagem: Reprodução/Hatred)

Infelizmente, isso não seria o bastante por ser um título repleto de falhas. Hatred é extremamente limitado em seu desenvolvimento, fato este exposto já nos requisitos mínimos: ele não roda em sistemas 32 bits, não roda sem o primeiro pacote de atualização (Service Pack 1) do Windows 7 e ainda tem problemas com componentes AMD/ATI. Eu ainda tento assimilar como um game consegue ser concebido com tamanha restrição para seus consumidores. Há ainda problemas com comandos e detalhes das fases. Pular obstáculos é um desafio, e eu consegui ficar preso por uns dois minutos no tutorial porque o maldito protagonista não conseguia pular as mesmas caixas que transpôs da primeira vez. Também existem os casos em que o próprio adversário não está em seu campo de visão, e então via-me forçado a levar tiros para ter a mínima noção de trajetória e eliminar o desgraçado (ou simplesmente correr até achar o infeliz, o que era menos divertido). Quer uma notícia boa? Você pode dirigir carros! Lamentavelmente, eles são horríveis de controlar – piores até que minhas lembranças iniciais de GTA 1.

Mas a pior coisa deste título é a “desinteligência” dos inimigos. É impressionante observar uma escada transformar-se em uma barreira intransponível para os soldados que caçam o rebelde. Suba um andar e você estará salvo até morrer de tédio ou descer para ter alguma ação. Os próprios policiais ainda atiram uns nos outros, na esperança de que suas balas desviem dos companheiros e voem até sua direção. Além disso, estar em um ambiente totalmente fechado tornará sua vida extremamente mais fácil, pois os “espertos” entrarão um ou dois por vez, e cairão com a mesma velocidade dos tiros projetados neles. Adorei ver o pavor dos pobres inocentes, que ousam pegar as armas dos soldados mortos para proteção ou retaliação àquele assassino, porém a incapacidade de a maioria sequer reagir de acordo deixou-me frustrado. Esta IA é o que mais faz jus ao título, porque eu realmente tive raiva com tamanha burrice.

Hatred IA

Corpos empilhados depois de cinco minutos da “fila para a morte” (Imagem: Reprodução/Hatred)

Mesmo depois de tantas críticas, tenho que cumprimentar o trabalho de arte do game. As cidades, com suas casas, lojas e parques, são bastante convincentes e, apesar de o jogo ser fundamentalmente em preto e branco – assim como esconde algumas imperfeições, “camufla” alguns inimigos e impede que sejam percebidos rapidamente -, as nuances coloridas das televisões, lanternas dos carros de polícia e, principalmente, do fogo deixam qualquer um entusiasmado. As paredes podem ser destruídas (embora não faça muito sentido poder derrubá-las com o pé) e as explosões são verdadeiramente excitantes, com direito a folhas de papel levantadas em bibliotecas – com muito pesar, lembro que a polícia avança no incêndio e morre estupidamente queimada.

Apesar de todas estas falhas, eu ainda consegui arrancar um pouco de entretenimento aqui. Hatred é a típica obra que chamo carinhosamente de “desligue o cérebro e seja feliz”. Se você tem prazer em atropelar, cortar, atirar, xingar ou qualquer outra atividade parecida, sem ter a preocupação de porquê está fazendo isso – mais ou menos o que muita gente pratica nos GTA‘s ou Saints Row‘s da vida -, é possível encontrar diversão também neste título. É só ter em mente de que você cresceu: seria muito chato ter outro cabeludo carente de atenção por aí.

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.