Análise | Her Story: o triunfo da narrativa estilhaçada

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Her Story é um game fora da curva de uma maneira elegante. É, acima de tudo, um convite ao desvelar de uma história diante de nossos olhos, e cabe a nós – e somente a nós – quando e como queremos fechá-los. Também revela-se como um título que faz o jogador ponderar sobre o quanto vale a pena vasculhar um passado. Esmiuçá-lo? Deixar os pormenores de lado? De que adianta sequer tirar os esqueletos do armário se tudo já se foi? Tudo depende de quem se senta do outro lado da tela.

A nova empreitada do diretor britânico Sam Barlow (AisleSilent Hill: Shattered Memories) encontra singularidade no casamento de mecânicas simples com uma narrativa ultrafragmentada. Toda a interatividade se dá por meio de uma interface de PC à la Windows 95 em que desponta um software de consulta a uma database de vídeos curtos. Nestes clipes, uma mulher depõe à polícia sobre um assassinato. As datas variam, assim como o comportamento e as roupas da moça. Cabe ao jogador se municiar das ferramentas básicas disponíveis – como colocar tags em cada vídeo ou reproduzi-los em uma sequência definida a gosto – para extrair ao máximo o conteúdo das falas.

Her Story Corpo

Talvez o aspecto que mais salte aos olhos em Her Story é que o game trinca o paradigma de não-linearidade nas narrativas de videogame. Geralmente, jogos do tipo têm um começo, fim (ou finais) e caminhos bifurcados ou de curvas sinuosas que desembocam nos desfechos disponíveis. Aqui, tudo é incerto. O título sugere que comecemos nossa busca de termos pela palavra murder (“assassinato”), mas o jogador poderia facilmente pesquisar por outras coisas cabíveis na investigação forense de um crime como sua motivação ou a arma utilizada. A partir daí, não só os rumos que o jogador trilha dependem de sua escolhas, mas o próprio final do game pode ser acessado a qualquer momento e, graças a isso, conta com uma variabilidade quase infinita.

Jogos eletrônicos geralmente nos impõem objetivos que, quando alcançados, trazem satisfação a seu apreciador. Her Story coloca este julgamento do que é suficiente ou não ao próprio jogador. Em uma hora, um indivíduo pode ter um panorama geral da estória e terminar sua experiência ali. Da mesma forma, outra pessoa pode ficar de oito a dez horas procurando entender ao máximo o que lhe é contado – abrindo espaço para a reflexão e múltiplas interpretações. Em ambos os casos, os dois terminaram o game, cada qual à sua maneira.

Her Story Corpo

Falando em refletir, é um bom exercício parar para pensar após assistir a uma série dos vídeos in-game sobre como a trama nos toca. Como projetamos nossas experiências, convicções e inseguranças na fala da mulher no filme? Quanto isso vicia nossa apreensão dos fatos? Her Story pode assumir a forma de um suspense interativo, mas o espaço para auto-conhecimento é grande o suficiente para colocarmos nossa própria identidade sob a grande-angular da mente.

A ambientação do título foi pensada com esmero, ao passo que alguns recursos são disponibilizados para facilitar a vida do jogador. Um filtro de vídeo simula o aspecto de um monitor de tubo e a qualidade dos clipes é fiel à imagem dos VHS (lembra deles?) da época das filmagens no enredo – 1994. Legendas podem ser ativadas a qualquer momento. Pessoalmente, gosto dos pequenos detalhes, e o cuidado ao incluir sons fiéis que remetem às antigas máquinas da década de 1990 é apreciado.

Her Story Corpo

Frisa-se o bom trabalho da atriz Viva Seifert, que consegue assumir comportamentos e reações diferentes com destreza para reforçar sua imagem de narradora não-confiável. A escolha por este tipo de personagem que nos relata o caso é condizente com a própria organização temporal em fragmentos que Her Story propõe. Convida-nos ainda mais a separar o joio do trigo para fruir de sua estória. A exploração destas facetas no campo da narrativa é um lado que é sempre bem-vindo na produção independente de videogames e este jogo pode ser um elemento norteador neste sentido.

Her Story é, acima de tudo, um game que respeita a individualidade do jogador. Pouco importa o quanto você quer participar de sua narrativa, desde que você se dê por satisfeito. O termo “interatividade” subentende a existência de uma relação homem-máquina. Em muitos games, o lado mecânico se sobressai. É bom ver que, aos poucos, a humanidade conquista território neste matrimônio com o jogo eletrônico. Além disso, o título e sua proposta ousada se erigem sobre um roteiro bem articulado e que funciona em sua forma de apresentação pouco usual.

Aos menos acostumados com experimentações do gênero, lembra-se que Her Story está disponível por R$12,00 para PC e Mac na Steam. Vale a conferida.

MOMENTO JABÁ: Fui roteirista de um game que conta com uma interface muito semelhante à do título analisado aqui. fateOS foi desenvolvido para a Ludum Dare 32, alçou o trigésimo-terceiro lugar geral de 2821 jogos inscritos e você pode jogá-lo aqui.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.