Pensando em Iwata

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Hoje, em meio ao caótico e conhecido trânsito paulistano, algo me saltou aos olhos. Era uma placa do Pikachu em tamanho grande, fixada a um poste – provavelmente de uma loja das redondezas. A visão fez o peito apertar, e eu sabia o porquê.

A semana é triste para o mundo do videogame. Satoru Iwata, presidente da Nintendo, faleceu aos 55 anos devido a complicações de um tumor em seu duto biliar. Iwata foi querido no meio e, assim como eu, muitos sentiram sua perda.

Satoru Iwata Corpo

Mas, afinal, por que essa desolação? Por que sentir o vazio antes preenchido por uma pessoa que sequer conhecemos? É um fato que, inclusive, intriga meu colega King em sua homenagem póstuma ao CEO da Big N. E eu tento enumerar algumas possíveis respostas.

Iwata foi o primeiro presidente da Nintendo a ter exercido a profissão de desenvolvedor de games. Era programador, exímio, diga-se de passagem. Em seu currículo, títulos de peso como Earthbound, Balloon Fight Kirby. Dentre seus feitos, enaltecemos a reconstrução do código-fonte no supracitado RPG protagonizado por Ness, a compressão de dois continentes de Pokémon em um só cartucho de Game Boy nas versões Gold/Silver e a exportação do sistema de batalhas dos monstrinhos de bolso para Pokémon Stadium. Ascendeu do cargo de programador da HAL Laboratories a sua presidência e, enfim, chegou ao posto mais alto da Nintendo ao substituir Hiroshi Yamauchi em 2002. É a história de esforço e crescimento pessoal que emociona qualquer um – é o caso de quem realizou um sonho.

Hollywood explorou muito essas histórias de ascensão e glória, não?

Hollywood explorou muito essas histórias de ascensão e glória, não?

Como executivo, Iwata pegou uma verdadeira bomba ao assumir a presidência da Big N. O Gamecube, console daquela geração, não vendia satisfatoriamente. O fato é explicado por algo que afeta a Nintendo até hoje: a falta de apoio de estúdios externos, as third parties.

O problema começou na gestão Yamauchi, quando o então presidente optou pelo uso de cartuchos no Nintendo 64. A decisão desagradou grandes desenvolvedoras que até então mantinham-se fiéis à gigante japonesa. A debandada foi inevitável. Como exemplo, lembramos da Squaresoft, criadora de RPGs clássicos que foi gerar ótimos frutos no PlayStation na era 3D.

Nintendo Wii corpoIwata buscou resgatar esse apoio por meio de inovação. Aparelhos com funcionalidades diferentes e sistemas únicos de interação foram lançados no mercado – refiro-me ao Wii e ao DS. A empresa deu uma forte guinada, ganhando a fama de “empresa-família” que tem hoje. Pode-se concordar ou discordar da decisão, mas a atitude salvou a pele da Nintendo com vendas exorbitantes de seus aparelhos e jogos. Não creio, todavia, que este novo público-alvo tenha sido o efeito mais importante destas mudanças. A Nintendo se tornou uma companhia fora da curva, criadora de hardware único. Apesar do fracasso do Wii U, a Big N manteve-se fiel a esta empreitada de vanguarda.

As diferenças entre a Nintendo e suas concorrentes não param em seus produtos – e é aqui que acredito que Satoru Iwata mais nos fará falta. A Big N sempre teve uma forma única de se comunicar com o público. É uma empresa que não se leva muito a sério e seus executivos entram no jogo. Reggie Fils-Aime, presidente da Nintendo of America, aceitou a brincadeira e adotou o jargão My body is ready. O próprio Iwata foi protagonista de momentos hilários, como quando encarou um cacho de bananas em sua mão sem nenhum motivo aparente no meio da conferência durante a Electronic Entertainment Expo de 2012.

A cada dia que passa, o meio do videogame se torna cada vez mais uma grande bolha corporativa. Discursos demagógicos, mas, no fundo, frios, assolam eventos como a E3 – que se tornou uma grande mostra de comerciais. Independente de mostrar bons games ou não, as conferências da Nintendo sempre foram deliciosas de acompanhar por esse tratamento diferenciado, bem-humorado e até um pouco mais honesto – visto que, nas ocasiões, a empresa sempre deu primazia à demonstração de gameplays.

Diante dessa perspectiva, nosso mundo fica um pouco mais chato sem Satoru Iwata. Carismático, inovador e corajoso – legitimamente apaixonado por seu trabalho. Pode-se concordar ou discordar de algumas decisões tomadas sob sua gestão, mas não se pode nunca negar sua importância para o jogo eletrônico e para a empresa que encabeçou até o fim de sua vida – fim este que, no fechar das cortinas, merece aplausos em pé.

Satoru Iwata Corpo

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.