Permita-se reviver a história no Museu do Videogame Itinerante

Sem dúvidas, uma das coisas mais legais de entrar em um museu é revisitar a História. Contudo, ao visitar o Museu do Videogame Itinerante, em exposição desde o último sábado (15) até o próximo domingo (23) em Aracaju, senti algo ainda mais positivo. Mais do que relembrar e conhecer o passado, tive a oportunidade também de reviver a minha história. Um filme passou-se na cabeça enquanto observava garotos, jovens e adultos com um sorriso no rosto enquanto jogavam Pac-Man, Mario, Sonic e tantos outros clássicos que marcaram a minha vida e de muitos outros lá presentes.

Entre eles, estava Cleidson Lima, jornalista, curador do museu e um apaixonado por todo este universo, com quem tive a satisfação de conversar. Simpático e com um sorriso largo no rosto durante todo o nosso bate-papo, falamos sobre o projeto, a coleção de relíquias exibidas e, claro, sobre jogos.

Pulo Duplo – Vocês estão viajando há algum tempo e a primeira pergunta é capciosa. Estão nessa história desde 2011, não é isso? Já viajaram por diversos lugares do Brasil, mas é a primeira vez que vocês estão vindo para Aracaju. Este ano, vocês resolveram “dar uma passeada” por todos os estados brasileiros, então como está sendo a receptividade aqui, no menor estado do país?

Cleidson Lima – Bom, o Museu do Videogame nasceu em 2011 e, por quatro anos, ele só ficou em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A gente fazia apenas uma vez por ano em um shopping de lá.

Playdia

Lançado em 1994 apenas no Japão, Playdia é uma das relíquias do museu

PD – Durante quinze dias, certo?

Cleidson – É, durante quinze dias. A gente só fazia uma vez por ano. Era muito fácil, era muito simples. Só que, a partir de 2015, resolvemos realmente torná-lo itinerante. Em 2014, a gente foi oficialmente registrado como o primeiro museu do videogame do país no IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), e a gente ganhou o prêmio Brasil Criativo do Ministério da Cultura como o museu mais criativo do país. Isso nos incentivou a começar a fazer um trabalho de itinerância. Não é fácil, pois você tem que criar a estrutura – esse museu vem em duas carretas -, então é uma logística diferente que possibilita a trabalhar como se fosse um ciclo; a gente viajar o Brasil inteiro. Agora em 2015, Aracaju é a sexta cidade a receber o museu. Nas cinco primeiras, nós já tivemos dois milhões e meio de visitantes e a gente espera, em Aracaju, superar 200 mil visitantes em nove dias. O primeiro dia já mostra que a receptividade tá muito boa, e a gente já esperava que iria ser bom, mas não tanto. Aracaju está superando as nossas expectativas em relação ao público.

PD – E como surgiu essa ideia de trazer um Museu do Videogame aqui no Brasil?

Cleidson – Na verdade, eu sempre fui colecionador. Coleciono videogames há mais de dez anos. Quando chegou em 2011, rolou uma DR [discussão de relacionamento] com a minha esposa, e ela disse: “ou você transforma isso num museu, num negócio, ou você e esses videogames vão tudo pra rua”. Eu mostrei quem manda em casa: ela. Então taí o Museu do Videogame e, depois que a gente fez todo o trabalho estrutural, resolvemos mostrar realmente como é a história do videogame. Muita gente me pergunta: “mas videogame já merece museu?”. Por incrível que pareça, ele tem 43 anos. Eu nasci no mesmo ano em que nasceu o primeiro videogame, que é o Odyssey 1972, e de lá pra cá foram oito gerações. Essas gerações fazem parte de muita gente que você tá vendo aqui, então você vai perceber aqui muita gente de cabelo branco, careca… então a gente tem crianças aqui de 3 a 50 anos ou mais. Pessoas que vão contar para os seus filhos a história que ela teve com o videogame na sua infância ou adolescência. Então isso é bacana… você unir gerações em um ambiente que provavelmente muita gente aqui jamais iria a um evento de videogame por si só. O gamer, ele vai para qualquer lugar, mas as pessoas que não entendem esse mercado precisam ser surpreendidas, então tem muita gente que está aqui no shopping [Riomar, local onde ocorre a exposição] andando, passeando, porque foi ao cinema ou comer, e ela se surpreende com a história do videogame. Então, a gente traz não só a história, mas também a possibilidade do entretenimento, reunindo todas as gerações de videogames até os tempos atuais.

Sony PSX

Para quem duvidava, o Sony PSX é real sim.

PD – Nesta questão de você levar a história do videogame para as pessoas, surgiu desde o princípio essa motivação de ser realmente itinerante?

Cleidson – Eu defendo que seria muito fácil deixar esse museu parado em uma cidade como São Paulo ou Rio, por exemplo. Você tem população suficiente para movimentar esse museu por anos. Mas não é isso que eu quero. Eu acho que o Brasil inteiro é muito maior que São Paulo, que qualquer outra cidade. Então, eu acho que as pessoas que estão em outros estados do país têm de ter a oportunidade de ver isso aqui. Eu venho de um estado em que a capital [Campo Grande] é do tamanho de Aracaju, tem 800 mil habitantes. Este ano, nós tivemos 195 mil visitantes em nove dias de evento. Em Recife, que a gente visitou recentemente, foram 800 mil visitantes. Em Salvador, 700 mil. Então, você vai juntando essas cidades e vê a cara das pessoas felizes de receber o nosso evento. A gente nota que é um evento relax, de gentilezas, porque o pessoal joga, gosta, já olha pra trás e “olha, você quer jogar?”, “vamos jogar?”, então isso que é muito legal. Você nota que, em todo o Brasil, até por não ter a tradição de receber grandes eventos de videogames, eles nos recebem muito bem, e isso nos encoraja, ainda mais pra gente que, depois que sai do Nordeste, vai pra região Norte, Centro-Oeste, Sul… nós vamos visitar São Paulo e Rio? Vamos, mas pela nossa história, a gente já mostra que queremos visitar grande parte do país primeiro antes de chegar nos grandes centros.

PD – Nós vemos aqui também que, além da história mais antiga, temos também uma história recente, com o PlayStation 4, Xbox One abertos para a galera jogar. Quão importante é ter este cenário atual junto?

Cleidson – Uma coisa muito legal é você quebrar paradigmas e preconceitos. Tem muito pai que hoje cria seus filhos, mas lá atrás ele jogou Atari ou um Nintendinho, e o filho dele que quer jogar hoje em dia, o pai começa a implicar com ele, mas esquece que já foi daquele jeito. Então, um evento como esse é a oportunidade de dar aquele estalo e falar “nossa, eu também já fui criança, também já joguei videogame, então meu filho pode jogar”. Não é para jogar videogame o dia inteiro e não fazer mais nada da vida; é para jogar videogame e se divertir com isso. As novas gerações têm um grande desafio atualmente pois já pegaram uma geração de gamers como eu, você, entre outros, que teve uma cultura de bons jogos nas últimas décadas, jogos que até hoje são cultuados – aqui você vai ver Sonic, Mario, Alex Kidd, Mortal Kombat, Street Fighter, entre muitos outros. Então, este público tornou-se mais exigente e, para fazer um jogo atual bombar, é muito difícil, pois já existem bons parâmetros. Essa gurizada de agora, o parâmetro dela é o que já está sendo produzido hoje, mas, quando ela vem aqui, começa a perceber qual foi a história de evolução gráfica, de enredo, de conteúdo para poder chegar nessas novas gerações, então o pequeno começa a respeitar o passado e o antigo começa a se inteirar novamente do mercado de games atual.

Mortal Kombat

Mil recordações ao rever Mortal Kombat

PD – A gente teve, por assim dizer, um “empecilho cultural”, especialmente na época em que Marta Suplicy disse que games não eram cultura. Recentemente, ela voltou atrás e disse que eram cultura, sim. Assim, qual a dificuldade que vocês encontraram durante esse tempo para essa questão cultural?

Cleidson – Bom, foi até uma supresa a gente ter ganhado o prêmio Brasil Criativo, um prêmio dado pelo Ministério da Cultura para uma iniciativa que envolve games. Porque, realmente, o Brasil adora games, é um mercado poderosíssimo, mas trata-os – pasmem – como jogo de azar. Nós estamos na categoria tributária de jogo de azar, pagamos mais imposto que arma de fogo e só perdemos para o cigarro. Então, é mais barato você comprar um revólver calibre 38; você vai pagar menos imposto do que comprar um jogo de videogame para seu filho. Isso é impossível! Mesmo assim, com todos estes percalços, o Brasil está em quarto lugar no mercado consumidor de games. Se a gente é igualado, se começa a ser tratado justo como se fosse livro, música e outros itens culturais, onde o imposto despencaria de 72% para uma faixa entre 15 a 20%, o Brasil se torna o primeiro mercado de videogame do mundo. Então, eu acho que a gente tem de repensar não só como ideologia, mas economicamente mesmo. Tem de haver uma cabeça racional para aproveitar este público daqui, que quer consumir games, mas só não consome mais porque é caro.

PD – Agora, deixe-me fazer uma perguntinha mais light. Como vocês já viajaram por vários lugares neste ano, geralmente a gente tem alguma historinha para compartilhar. Qual a história mais engraçada ou legal que você presenciou durante essas viagens?

Cleidson – Ah, tem muitas histórias legais, mas as mais legais são exatamente aquelas: geralmente, os filhos são reis de dar lições de tecnologia, de mostrar e falar para o pai “pô, pai, duhr, não é assim que se faz isso”, então o pai, quando pega um controle de quinze botões, ele apanha porque não está acostumado com isso. E eu vi um pai – foi até em Salvador – com um menino que pegou o controle do Atari de cabeça para baixo. Tentou jogar e realmente não dava certo. Aí, o pai, todo ao estilo “agora é comigo”, virou o controle e disse “esse eu entendo”. Então, essas historinhas são legais para você ver o choque de gerações. Em cada estado do Brasil, a gente nota que tem uma característica. No Sul, eles são mais fechados, não curtem tanto um palco de Just Dance, por exemplo. Já na região Nordeste, você abre o palco e já tem 50 pessoas em cima dele, porque a alegria está mais intrínseca. Em compensação, você tem uma presença dos gamers mais antigos em outros lugares e, em outros estados, às vezes não tem. Aqui em Aracaju, tem tudo isso, isso que notei. A presença dos antigos, dos atuais e no palco do Just Dance é equiparada. Isso que é legal; a gente estar trabalhando com um público diversificado, de todas as idades e que curte tudo. Isso que é bacana.

Just Dance

O palco de Just Dance não parou por um minuto

PD – Agora, uma última perguntinha, e essa vai ser difícil: qual o seu jogo favorito?

Cleidson – Nossa, agora você me pegou… Realmente, acho que é uma das perguntas mais difíceis mesmo. Eu tenho mais de 6000 jogos de todas as plataformas. Parece muito, mas não é, se você imaginar. Aqui tem 250 consoles… dá um pouco mais de 20 jogos por console, então não é tanto assim. Só que a conta não é bem assim, porque há consoles que eu tenho 3 ou 4, e outros que possuo 400. O Atari é um deles. Então, a história que eu tenho com o Atari é muito maior porque eu cresci com ele. O meu primeiro videogame foi um clone do Atari, que foi o SuperGame CCE. Então, se você perguntar: “Cleidson, qual o game que você mais gostou?”…

PD – Vamos facilitar um pouquinho: pode fazer um top 3.

Cleidson – Um top 3…  River Raid, H.E.R.O. e Beamrider. São três jogos do Atari, mas tiveram realmente um grande significado para mim. Agora, tecnicamente, porque depois que eu passei dessa etapa de gostar de games como pessoa física, eu me tornei um jornalista, escrevo sobre games e tecnologia há mais de 20 anos, e a minha profissão hoje é jogar videogame. Então, as publicações me pagam para testar um jogo. Então, se você me perguntar nesse sentido, aí eu vou além. Vou falar de Mario, Zelda, Castlevania, Resident Evil, dentre muitos outros. O leque amplia muito. Mas o importante é que tanto o meu lado profissional quanto o pessoal adora videogame e, mais importante, a gente adora compartilhar com as pessoas esse gosto e quer que, cada vez mais, as pessoas vejam o game como exatamente isso: um entretenimento sadio e que também traz história e informação.

PD – Obrigado, Cleidson, foi sensacional falar com você. Vocês pretendem voltar à cidade?

Cleidson – Ah, espero que sim. Adorei Aracaju e acredito que, se em 2016 chamarem, a gente vem de novo.

O Museu do Videogame Itinerante estará gratuitamente em exibição em Aracaju até o próximo dia 23 de agosto, no Shopping Riomar, das 10 às 22h. Em seguida, parte para Fortaleza, onde ficarão de 5 a 20 de setembro, no Shopping Riomar da cidade.

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.