Análise | Tom Clancy’s The Division

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Como uma Black Friday pode dizimar uma cidade? Não, não estamos a falar sobre o incansável consumismo da humanidade, mas sim como tal acontecimento abriu as portas para um golpe terrorista, que espalhou rapidamente um patógeno transformado em arma. Ao menos, no mais novo “shooter/RPG” da Ubisoft, The Division.

O vírus conhecido como Green Poison (do inglês livre, veneno verde) transforma Nova Iorque em um cenário de guerra em apenas cinco dias. Cabe a você e outros membros da Strategic Homeland Division (SHD, ou simplesmente “The Division“), uma organização governamental adormecida, a restauração da ordem e busca por fatos sobre os reais motivos desta tragédia.

Ao responder o chamado e passar por um bairro introdutório, você será levado a uma Manhattan open-world que necessita desesperadamente de ajuda. Além de estar tomada pelo caos, e como se não bastasse todo o terror gerado pelo novo vírus que não para de dizimar a cidade, diversas gangues acreditam ser as novas donas da cidade.

Como toda boa obra do incrível Tom Clancy, o que não falta em The Division são bons ganchos para histórias, intrigas, conspirações e revelações a serem feitas. Todas sempre bem amarradas, o que torna a experiência de navegar pela bela reconstrução de NY em algo realmente empolgante. E antes que esqueça, essa é, sem sombra de dúvidas, uma das melhores reconstruções de uma cidade que já pude ver em um game (pra game da Rockstar nenhum botar defeito). Juntos, esses elementos entregam um enredo sólido e uma experiência empolgante, com cenas cinematográficas e áudios empolgantes em momentos cruciais de sua exploração.

Outro ponto de destaque é a Base de Operações. Ela será o novo coração da cidade que você quer (re)construir, e não serve somente como uma base principal, mas o marco da resistência, com a ajuda de médicos, engenheiros e ex-policiais. Para tanto, diversas missões ajudarão a angariar recursos para levantar as estruturas das três partes principais da Base – Médica, Tecnológica e Segurança.

Em termos de jogabilidade, o game tem um pouco de tudo: é jogo de tiro, RPG e MMO. O que testei nas versões no alpha e beta do jogo deixou-me com dúvidas quanto ao lado tiro em terceira pessoa. É compreensível ver um chefão ou inimigo mais poderoso resistir a muitos tiros, mas no beta praticamente todos pareciam grandes esponjas de balas.

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Menos mal que na versão final, com o equipamento certo, você poderá encarnar o Justiceiro e sua filosofia, “one shot, one kill” (em tradução livre, “um tiro, uma morte”). Ah… e como é bom transformar sua arma em algo único. Basicamente, todas elas – e até mesmo algumas boas peças do equipamento – podem ser editadas, personalizadas e melhoradas. Silenciadores, melhores cartuchos de balas, miras de todos os tipos e alcances, skins, tudo para que nenhuma arma seja igual a outra e adapte-se ao estilo de quem a tem em mãos. Seu agente também é totalmente personalizável. Desde seu estilo do jogo (mais focado em dano, cura ou habilidades), até seu visual – apesar das pouquíssimas opções de criação do agente (DAMN YOU UBISOFT!), há muitas roupas e equipamentos para um visual único.

Os controles são simples e respondem bem, assim como todo o ambiente. É impressionante como o cenário interage com você e suas batalhas. Marcas de balas ficam marcadas em placas de carros, veículos e demais elementos, barris, canos e elementos explosivos podem ser utilizados para criar criativas armadilhas aos seus oponentes. Durante o tiroteio, veículos no meio da rua servem como ótimas coberturas, além de serem atração extra, já que tiros no capô disparam o alarme, vidros são estilhaçados, pneus furam e secam. Enquanto isso, mudanças climáticas afetam a visibilidade, obrigando você a ter combates mais próximos a inimigo nas ruas ou áreas abertas, ou fugir. Caso contrário, será muito difícil ver seus adversários. Tudo isso contrasta perfeitamente com os ecos de balas pelas ruas. Afinal, em uma cidade praticamente deserta fica fácil perceber quando um disparo é efetuado, o que é uma vantagem tanto para você como para adversários.

No tocante a elementos de RPG e MMO, The Division tem tudo. Do dano contabilizado ao acertar ou ser acertado, a elementos como pontos de experiência, loot, árvore de skills, níveis de desafio de zonas e inimigos, interações com outros jogadores, respawns, PvP e muito mais. O título facilmente mostra que foi muito bem trabalhado e tudo foi pensado na combinação ambiente + jogabilidade. Todavia, há muito pecado em Nova Iorque.

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As quatro facções inimigas tem elementos distintos, fato. Porém, todas sempre contam com o mesmo estilo de inimigos: sempre há um corredor, um sniper, um tanque e um granadeiro, aparecendo juntos ou não. Quem também bebe desta fonte são as side missions. A grande maioria delas repete-se a cada bairro, e ver novos elementos da história do jogo são um incrível alívio em meio àquelas que insistem em aparecer. Para não ser injusto, existem missões dentre as sides que trazem novidades e batalhas memoráveis. Pena que elas não aparecem em maior quantidade. Ao menos, as missões principais são um prato cheio de aventura, batalhas e história que alimenta a vontade de continuar jogando.

Contudo, ainda há momentos onde faz-se necessário percorrer grandes distâncias, mesmo com fast travels, nos mais diversos pontos de cada distrito (ok, isso não foi tão incômodo para mim, entretanto não é agradável para todos). Combine-os aos problemas anteriormente citados e voilá: a tão bem feita imersão que o jogo propõe cai em (desnecessária) re-repetição.

E os bugs… Santa mãe dos agentes, os bugs!

Fui atingido por poucos, mas frustrantes bugs. Porém, já ouvi de outros, através de jogadores com quem partilhei missões online. Cito dois que mais chamaram atenção: um rolamento que dei próximo a uma parede, para fugir de uma chuva de balas, e meu personagem simplesmente ficou preso até a dolorosa morte por execução, e como os inimigos – tão inteligentes em alguns momentos – às vezes ficam totalmente focados em sua última posição, ignorando sua presença após uma manobra em suas costas, pedindo para serem facilmente executados. E como faz falta poder pular, deitar ou até ajoelhar-se para mirar melhor.

Gosto de acreditar que esses e tanto outros deslizes possam ser corrigidos em atualizações, assim como outros erros que poderia citar, mas que já foram resolvidos.

Eis que, após 30 – 50 horas de jogo (levei aproximadamente 45), você chega ao endgame, mais uma prova de que o lado MMO do título quer que você fique ainda mais envolvido ao universo nova-iorquino da desordem. Aqui, os fãs de missões mais complicadas e melhor equipamento terão prato cheio com as missões diárias e a futura Última Fortaleza – a raid do jogo, que virá no primeiro (e gratuito) dos cinco DLCs previstos para esse ano. Um detalhe: jogadores mais experientes em games de tiro ou MMOs podem achar o nível difícil dessas missões diárias algo não tão difícil assim quando jogadas em grupos, como é proposto pelo jogo. Para tanto, fiz uma dessas sozinho e não me arrependi, a antes tranquila missão tornou-se algo bem exigente. Porém, isso não é recomendado para o nível desafiante.

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Jogar em grupo não é algo obrigatório. É recomendável para algumas missões, especialmente as principais do enredo, jogar com mais três amigos ou pessoas encontradas pelo sistema, porém o jogo não vai puni-lo se resolver jogar sozinho. Eu mesmo tenho momento que quero enfrentar a cidade sozinho, como se tivesse que me separar de companheiros agentes para resolver questões, até nos reencontramos novamente. Mais uma vez, The Division deixa ao seu critério.

O elemento motivador para todo o conteúdo pós-final são as moedas fénix, tipo de dinheiro exclusivo para equipamentos do mais alto nível. Existem três moedas no jogo: a comum, as moedas fênix, (conquistadas nas missões diárias e na futura raid, como também com inimigos-chave que derrubam poucas desta moeda ao serem derrotados) e a moeda da Dark Zone, o modo PvPvE do game (que seria uma moeda intermediária entre a comum e a mais rara, fênix).

Zona Cega (tradução livre para Dark ZoneDZ para os íntimos) é um ambiente que, de acordo com o enredo, foi cercado por um muro especial para conter zonas de alto risco, tanto do vírus como de pessoas-chave das gangues. Porém, você já sabe como são as pessoas: corruptíveis! Realmente achava que agentes não seriam? A DZ é uma área massiva de PvE e PvP ao mesmo tempo, tão divertida que horas podem passar e você ainda estará lá dentro. Basicamente, você tem seu nível de jogador (que por enquanto vai até o nível 30) e o nível de DZ (que vai até o 99). Ao eliminar inimigos controlados pelo jogo, você pode conquistar itens que ainda não poderão ser utilizados, graças à forte contaminação do vírus no local. Com isso, você precisa enviá-los para a área de descontaminação da Base de Operações utilizando helicópteros, que podem ser chamados em áreas de escape espalhadas pela DZ. Não obstante, ao chamar um transporte aéreo com seu sinalizador, todo o tipo de inimigo verá seu sinal, e poderá ir ao seu encontro. Todo tipo mesmo!

Até que se prove o contrário, todo agente é inocente, certo? Assim, você não deve (mas pode) atirar em outro. Se um atacar o outro, será considerado um Rogue Agent, um traidor, que poderá ser abatido por qualquer agente, sem penalidade alguma. Já um Rogue terá que sobreviver até uma contagem – mostrada em sua cabeça para todos – se esgotar, caso contrário perderá XP e moedas da Dark Zone. Se conseguir, será perdoado. Enquanto isso, todos poderão vê-lo no mapa e uma vez abatido, um agente derrotado – Rogue ou não – derruba seus equipamentos ainda não enviados, para serem tomados por qualquer um.  Essa é a viciante interessante mecânica de sobrevivência da DZ, que, de quebra, também tem inimigos únicos, com melhores equipamentos e moedas fênix.

Você acreditaria que ele vem em paz?

Você acreditaria que ele vem em paz?

Tom Clancy’s The Division traz uma combinação de diversos elementos, em sua maioria bem executados. Apesar de (irritantes) probleminhas, o jogo entrega uma experiência empolgante e que pode render ainda mais horas do que se imagina. Não é à toa que o game bateu recorde de vendas em seu dia, e suas expansões para o ano um estão sendo tão esperadas. Disponível para PC, Xbox One e PlayStation 4, The Division precisa de agentes dispostos a salvar um povo. Preparado?

Games Editor, geek multi-classe e fã de esportes que acredita que bom mesmo é jogar games, pouco importa a plataforma.