Seja em sua versão clássica ou na geração X, Mega Man encantou multidões, isso é fato. Muitos sentem falta do herói azul e têm raiva até hoje da Capcom ter colocado o simpático reploid – trocadilho com as palavras replicaandroid – na geladeira, orando para que os deuses trouxessem as aventuras futurísticas de volta.

Eis que o criador dele, Keiji Inafune, abriu um financiamento colaborativo no website Kickstarter com a promessa de trazer um novo herói cibernético para praticamente todas as plataformas. Após inúmeros atrasosMighty No. 9 estava pronto para ser lançado. Finalmente os fãs teriam um novo ícone azul.

Pois bem, se você sente a necessidade de suprir nostalgia dos tempos de NES ou dos velozes momentos repletos de adrenalina de Mega Man X, adianto-lhe:  Mighty No. 9 não é o sucessor espiritual de Mega Man.

Tinha tudo para ser incrível! Tinha...

Tinha tudo para ser incrível! Tinha…

Enfim, deixe-me falar mais desse protótipo de Mega Man sem vida…

Ele pode parecer com o velho paladino robótico, porém mal passa perto de qualquer versão do clássico. Não quero soar ingrato, entretanto, por mais que a equipe tenha colocado muito esforço para trazer o espírito do velho game para uma nova versão, o que é perceptível, não há praticamente novidade alguma. Tudo passa uma sensação de reciclagem, mais do mesmo, com uma nova roupagem que nem sequer consegue agradar.

Os gráficos são simplesmente feios, infelizmente. Não consigo tirar da cabeça o porquê que eles não fizeram o jogo completamente igual às belas artes cartunescas dos avatares dos personagens que aparecem em falas de texto (também dubladas, que falo mais logo a seguir) do jogo. Ao invés disso, uma tentativa frustrada de cel shading – arte renderizada em 3D, com contornos visíveis – desagrada o olhar. Nem mesmo a boca de qualquer personagem move-se enquanto eles falam, mais lembrando uma visão bizarra de algum suspense tipo B.

Lembra da dublagem? Sejamos justos, é boa, mas mal aproveitada. A impressão é que Inafune se empolgou com estas, colocando-as nos momentos mais desagradáveis possíveis. Um forte exemplo é ao enfrentar Mighty No.1, o robô de fogo, que seria um desafio interessante com a arma comum do No. 9, já que ele cita com palavras simples – crush, quando corre e depois salta para cima de você, e dash quando passa correndo e explode – , exigindo reflexos e habilidades de quem joga. Porém, ao tirar metade da energia vital dele, a dublagem sobrepõe a fala do adversário, o que transforma sua batalha em um jogo aleatório sem sentido algum.

Os estágios, que inicialmente passam uma sensação de empolgação, acabam mostrando-se longos demais, com mecânicas complicadas, o que transforma o game em algo desnecessariamente difícil. Sei que os jogos do verdadeiro Mega Man sempre foram desafiadores, mas aleatoriedade e recompensa zero não justificam. Basta dizer que os tanques de energia, aqueles que você pode pausar para recuperar seu life, vêm de formas tão randômicas quanto qualquer outra coisa nesse jogo.

Há dois estágios que chegam a ser divertidos no jogo, todavia é uma lástima que venham tão tarde. Mais uma vez (assim como disse na minha análise de Schrodinger’s Cat), um game quase fica bom em seu final. E isso, meus amigos, não é suficiente para qualquer redenção. A outra grande diversão é o Boss Mode, depois do jogo principal, e não sei se todos terão sequer paciência para quer jogá-lo.

Para não dizer que não há nada inovador ou bom, o sistema de dash é incrível. Não é apenas a corrida dos tempos da série X do coração azul Capconiano, é uma combinação de tal talento com um perfeito tempo de tiros no seu inimigo. Explico: você pode matar um adversário de duas formas, atirando até ele sumir ou disparando o suficiente para que ele fique atordoado. Se você souber aproveitar o exato início desse momento, e der um dash no oponente, você será recompensado com bônus relacionado ao tipo de inimigo.

Dentre os bônus, você pode ganhar mais poder de fogo, velocidade ou resistência. Isso e a clássica – e, novamente, ideia reciclada – habilidade de tomar os poderes dos chefões derrotados é o que salva permite tolerar o jogo.

Poderes dos adversários. Uma das poucas coisas boas.

Poderes dos adversários. Uma das poucas coisas boas.

Mighty No. 9 deveria ser o jogo para saciar a sede por aventuras de plataforma de deslocamento lateral mais incríveis que os games já trouxeram a uma geração de jogadores (também conhecido como MEGA MAN). É o avesso. É um clone barato feito de lata.

Não é uma questão de ter criado expectativas em cima de uma antiga franquia, o Sr. Inafune fez isso para vender o projeto. Ah, o título está disponível para PlayStation 3, PlayStation 4, PlayStation Vita, Xbox 360, Xbox One, Nintendo 3DS, Nintendo WiiU, Pc e Mac OS (minha nossa! Quantos lugares para viver essa triste história…).

Games Editor, geek multi-classe e fã de esportes que acredita que bom mesmo é jogar games, pouco importa a plataforma.