Lançanegra nunca morre

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O texto possui spoilers sobre a expansão World of Warcraft: Legion. Leia por sua conta e risco.

Para quem não está familiarizado com a Legião Ardente, um exército incontável de seres corrompidos e malignos, basta dizer que ela foi responsável pelos acontecimentos mais catastróficos do mundo de Azeroth. Enquanto era apenas Warcraft: Orcs and Humans, o RTS (estratégia em tempo real), a Legião já era personagem de destaque do cenário destrutivo da história, e provocara a chamada Primeira Guerra – no caso, o primeiro grande conflito entre orcs e humanos. Embora o filme homônimo seja uma adaptação desta trama – ou seja, omite algumas coisas, distorce outras, inventa umas terceiras, etc -, ele é capaz de mostrar razoavelmente bem os conflitos deste período tenebroso.

Hearthstone Sargeras

A Legião e seu líder Sargeras, retratados em Hearthstone

Vale lembrar que Warcraft 1 data de 1994, há longínquos 22 anos atrás. No entanto, foi em Warcraft III (2002) que a Legião virou real protagonista nos games com a invasão dos diabões e outras raças corrompidas em Azeroth, na chamada Terceira Guerra (como você deve concluir, a Segunda Guerra foi durante o Warcraft II). É em Warcraft III também que Arthas, um dos personagens mais amados da franquia, torna-se o Rei Lich. No mesmo título, as figuras de Sen’jin e seu filho Vol’jin são introduzidas, assim como a amizade entre o líder Thrall e eles e, consequentemente, o clã Lançanegra.

Agora, o mais recente patch de World of Warcraft introduziu sua nova classe, a de Caçador de Demônios, bem como a estreia da nova fase do lore da expansão Legion. A Legião Ardente está de volta e, com ela, demônios e caos passam a ser parte da visão massiva nos combatentes do clássico MMORPG lançado em 2004. Mais do que fúria e batalhas ferrenhas, essa atualização trouxe lágrimas aos olhos de seus jogadores, inclusive aos meus. A morte de Vol’jin simboliza não apenas a queda do Chefe Guerreiro da Horda, mas uma história construída por mais de dez anos.

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Todos os meus personagens principais foram trolls – mais especificamente, trolls caçadores. Eu não apenas vi Sen’jin morrer, como ajudei a vinga-lo, matando a bruxa do mar Zar’jira. Auxiliei na batalha contra o traidor e seu antigo amigo Zalazane e reconquistei as Ilhas do Eco. Vi-o desafiar o poderoso Garrosh Grito Infernal, quando poucos ousaram fazê-lo, quase debandar da Horda por duas vezes (uma durante a tal conversa e outra antes de ouvir os conselhos de Thrall) e lutar pela integridade da facção quando esta estava quase quebrada. Estava lá quando uniu Horda e Aliança contra a tirania de Garrosh e tornou-se – ao contrário das ladainhas repetidas por alguns, com todos os méritos – o Chefe Guerreiro.

Eu sei exatamente o que farei sobre isso, filho de Grito Infernal. Ficarei observando enquanto seu povo lentamente percebe sua ineptidão. Rirei quando eles começarem a desprezar você como eu. E quando a hora chegar, quando sua falha for completa e seu “poder” for insignificante, estarei lá para encerrar o seu domínio, rápida e silenciosamente. Você terminará seu reinado olhando por seu ombro e temendo as sombras, pois quando a hora chegar e seu sangue estiver escorrendo devagar, saberá exatamente quem atirou a flecha que trespassou o seu coração.

Vol’jin foi o líder que me passou o cargo de comandante durante as campanhas de Warlords of Draenor. Lembro de ter imediatamente parado nessa hora e dito para mim mesmo: “eu não sou digno”. Eu achava isso e continuo com a mesma opinião. Sou apenas um dos milhares de trolls a povoar Azeroth e além, com as mesmas contribuições de todos eles. O Chefe Guerreiro viveu por uma facção ideal, pela Horda que ele e eu acreditávamos, e deixa nas mãos de Sylvanas a possibilidade ínfima de isso ocorrer, caso sobrevivam à Legião.

Vol'jin

Por tudo isso, vê-lo fechar os olhos pela última vez foi pesado para mim. Lágrimas caíram lentamente, até ouvir Sylvannas chamar os dispostos a vingá-lo e ouvir os brados “POR VOL’JIN! PELA HORDA! PELA HORDA!”. Ali, eu chorei de verdade. Chorei como se tivesse perdido um colega de exército, um mentor, um amigo.

Minha noite foi de luto. Em certo momento, sentei no sofá da sala, ainda atônito pela visão. E lá, nesse momento de contemplação, percebi que, por onze longos anos, ele foi tudo isso. Algumas de minhas amizades têm ou duraram menos que isso, e poucas delas foram tão emocionantes. Em fóruns, vi pessoas que declararam também ter chorado bastante e me fizeram pensar se esse é o impacto causado por um verdadeiro líder. Um “simples” jogo me ensinava mais sobre a vida do que ela própria.

Vol'jin Chefe Guerreiro

E assim, em prantos, fomos uma nação distante e unida. Tristes, erguemos nossas cabeças e seguimos em frente, uníssonos ao coro da Horda. No entanto, apenas uma frase ecoou em minha mente, como se fizesse todo o sentido do mundo naquele momento:

Lançanegra nunca morre.

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.