Análise | World of Warcraft: Legion

Análises PC

“King, não vejo você jogar WoW assim desde o Lich King“, disse meu amigo de longa data e companheiro de World of Warcraft desde os primórdios do game. Nesse momento, eu percebi que, se não fosse a minha viagem para São Paulo (para, entre outras coisas, cobrir a Brasil Game Show), eu teria jogado freneticamente o Legion, a nova expansão do MMORPG, todos os dias desde o lançamento.

O motivo é simples demais para ignorar e posso resumi-lo em uma palavra: resgate. A Blizzard, sem a menor dúvida, pensou em trazer de volta os exércitos da Legião Ardente para Azeroth desde os acontecimentos de Burning Crusade. Era como uma carta na manga: “se tudo estiver mal, vamos apostar nela”. Após duas expansões (Mists of Pandaria e Warlords of Draenor) pouco entusiasmantes para os fãs e o número de assinaturas, que já chegou a quase 15 milhões, cair para quase um terço disso (e, como consequência, a empresa resolveu não divulgar mais esses números), era chegada a hora. Azeroth precisava queimar.

wowlegion_demoneye

Essa busca por algo tão conhecido pelos amantes do lore de Warcraft, embora soe clichê, é quase uma apoteose. A Legião sempre foi o grande antagonista da série, o mal supremo a ser vencido. Ao mesmo tempo, é o caos incessante; ele não pode ser destruído, apenas adiado. Podemos encontrar semelhanças disso em outro jogo da empresa: Diablo. O Senhor do Terror não morre, é contido apenas quando selado em alguma pedra.

Todo esse “charme” de compelir algo invencível, de atingir o inatingível, causa ao jogador um amplo desejo pela vitória e, por isso, o respeito por essa atual trajetória, bem como a história contada desde o início, deve existir. Se a Legião Ardente é o grande vilão de série; se ela foi responsável por tantas reviravoltas, seja com a chegada dos orcs a Azeroth ou a corrupção de Arthas e Illidan, deve ser tratada como a força impiedosa que é. Por isso, Legion traz de volta ao jogador de longa data a sensação de ser realmente um agente de mudança, assim como o lembra por diversas vezes de que nunca será forte o suficiente para derrotar sozinho esse exército. Os exemplos mais cabíveis dessa recordação podem ser resumidos nos salões de classe e nas armas lendárias.

Embora os primeiros sejam pouco diferentes das Guarnições de Warlords of Draenor (WoD), eles causam um impacto consideravelmente maior, tanto no aspecto social quanto a relevância. Em WoD, os jogadores podiam restringir suas interações a NPCs e realizar missões com recursos valiosos sem sair de sua base. Ninguém precisava aventurar-se e, sem grandes atualizações nos últimos meses (claro, a nova expensão deveria ser a prioridade deles), não havia sequer motivação para fazê-lo. Além disso, as Guarnições eram praticamente iguais para todos, com liberdade apenas para a seleção das construções – muitas delas, baseadas nas profissões.

Em Legion, pelo contrário, você encontra diversos aventureiros de sua classe, onde é possível pedir dicas ou auxílios sobre determinada missão ou build, em qual masmorra pegar receitas ou peças de armadura ou simplesmente jogar conversa fora com aquele pessoal que sempre está por lá. E algumas bases são realmente incríveis: as “guarnições” dos bruxos e dos caçadores de demônios são, para mim, bem empolgantes de estar.

Estes últimos, por sinal, são mais que uma classe recém-introduzida. São um povo com motivações simples, mas com memórias distintas. Mais do que marcas demoníacas, eles carregam dor e sofrimento, e a maior arma deles não é suas glaives gigantescas, e sim vingança e lealdade a Illidan. Ao mesmo tempo, são personagens ágeis e ferozes, divertidíssimos de jogar e provavelmente são tudo o que os ladinos poderiam ter sido se a desenvolvedora não tivesse se segurado tanto.

Claro, suas glaives ajudam no serviço, especialmente quando são artefatos únicos. As armas lendárias como um todo são um excelente adendo, afinal, você continua “upando” mesmo após já ter alcançado o nível máximo. Todas elas possuem uma história específica, intrinsecamente ligadas ao riquíssimo lore da série. Meu caçador, por exemplo, empunha em suas mãos Thas’dorah, o arco de Alleria Correventos. Embora eu ache estranho alguém da Horda usar um artefato dela (vide sua participação na Segunda Guerra), ainda é a arma de uma Correventos – um momento oportuno para Sylvanas ser a Chefe Guerreira da Horda, provavelmente.

Obviamente, nada disso daria certo sem um conteúdo que funciona, e isso Legion tem de sobra. O nível máximo é rapidamente alcançado com todas as missões disponíveis para fazer e sempre há outras à espera ao passar por um caminho aleatório. Há novamente capítulos por região e boa parte delas são muito boas, como a do rei fantasma de Azsuna. É legal demais ver como cada um desses arcos está envolvido com acontecimentos ou nomes clássicos do mundo de Warcraft. Ver de perto lendas como Magni Bronzebeard e Rainha Azshara (como uma elfa noturna) ou enfrentar um Cenarius corrompido foi demais para assimilar: minha cabeça explodiu várias vezes. Tudo isso seguido por algumas das melhores quests introdutórias já trazidas em WoW – a queda de Vol’jin literalmente trouxe lágrimas aos meus olhos (e um texto para o Pulo Duplo).

Toda essa trama é complementada por um visual minuciosamente trabalhado e belo, mesmo em um motor gráfico de 12 anos atrás. A arquitetura representa diretamente o enredo encontrada nas missões, como as estátuas dos Valajares em Trommheim ou as ruínas élficas da Corte de Farondis. Em especial, Suramar conta com uma das cidades mais exuberantes do jogo (e, ao meu ver, a melhor trama da expansão).

wowlegion_odyn

Legion é um exemplo claro do que a Blizzard ainda pode fazer com seu MMO. Novos contos entram em comunhão com histórias clássicas e personagens lendários, tragédias e redenções trazidas somente por um evento cataclísmico. Dessa vez, a grande dúvida em minha mente é: qual grande futuro WoW terá, agora que a grande carta na manga foi utilizada? No momento, não desejo a resposta. Quero só aproveitar o agora.

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.