Videogames e a representatividade dos LGBT+

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Dia 17 de maio foi o “Dia Internacional da Combate à Homofobia”, celebrado por vários LGBT+ em todo o mundo. O preconceito está longe de ser erradicado, porém, graças ao avanço comunicacional trazido pela internet e redes sociais, as minorias estão cada vez mais exigindo seus direitos e junto disto, maior representatividade nos meios audiovisuais.

Representatividade é importante ao possibilitar que se conheça o lado do outro, que se dê atenção ao outro. Os videogames, como a produção midiática cultural de grande alcance que é, têm um papel fundamental em auxiliar que outras pessoas fora da comunidade LGBT+ compreendam os problemas dessa minoria. Infelizmente, a realidade não é tão colorida assim.

O problema começa logo no primeiro retrato de um LGBT+ em um videogame, que foi apresentado no jogo de aventura em texto Moonmist de 1986. A história do game segue um detetive que foi convocado por sua amiga Tamara para investigar um fantasma que anda assombrando o castelo em que ela vive junto do noivo, o lord Jack. Em um dos finais do jogo, o detetive descobre que o fantasma é Vivian, uma antiga namorada de uma ex-noiva de Jack. Basicamente, na primeira representação LGBT+ que se tem notícia nos jogos, uma personagem lésbica é apresentada como uma vilã, como aquela pessoa má que deve ser combatida.

Moonmist pode não ter o melhor exemplar de uma personagem lésbica, porém foi um primeiro passo para os LGBT+ no mundo dos videogames. Em seguida vieram vários outros personagens, alguns que apenas insinuavam serem homossexuais ou que tinham tendências não-heteronormativas, como é o caso de Flea em Chrono Trigger. Alguns casos até mesmo ganharam popularidade por terem se tornado polêmicos, como aconteceu com o Birdo de Super Mario Bros. 2 ou a Poison de Final Fight. A história de Poison, aliás, tornou a personagem tão popular como representação de mulher trans nos videogames – ainda que com os problemas de ser pautada em estereótipos – que ganhou a aceitação dos fãs da Capcom a ponto de figurar nos jogos da franquia Street Fighter.

Em geral, jogos de luta como o próprio Street Fighter, Mortal Kombat, e Tekken, e a série de RPGs Fire Emblem, pela sua multiplicidade de personagens, costumam apresentar pelo menos um ou mais personagens LGBT+ em seu elenco. São poucos personagens, e que às vezes caem em problemas graves de representação (como ocorreu com Soleil de Fire Emblem Fates), mas é um esforço da indústria. Porém, deve-se ressaltar que nenhum desses personagens são apresentados como protagonistas, sendo apenas coadjuvantes (ainda que coadjuvantes jogáveis). Este é um dos pontos que mais falta em relação a representatividade nos games: protagonistas que sejam de fato LGBT+.

Em parte, os videogames têm tentado resolver esse problema possibilitando que os jogadores escolham se querem fazer com que seus personagens sejam héteros ou homossexuais, como acontece em Skyrim, Mass Effect e Dragon Age: Origins. Acontece que apesar de esta abertura dos games ser realmente muito bem-vinda, faltam histórias que de fato se pautem nos problemas que os LGBT+ passam em suas vidas. Para que esses problemas sejam trabalhados de forma satisfatória, é necessário um protagonista LGBT+ ou um personagem do tipo que tenha grande importância para a trama, como a Sam de Gone Home.

Há, claro, alguns protagonistas homossexuais de jogos bastante populares. O melhor exemplo, para mim, é a personagem Ellie, que foi co-protagonista de The Last of Us, protagonizou The Last of Us: Left Behind e será a estrela da sequência do primeiro jogo. Ellie é uma menina que está descobrindo sua sexualidade e ela encontra em sua amiga Riley aquela por quem ela pode expressar sua afeição em um ambiente hostil. É um amor muito puro, capaz de quebrar preconceitos. Além disso, ela passa por diversos problemas na trama no primeiro jogo relacionados ao fato de ser mulher, o que também é algo muito importante.

Devo ainda ressaltar que os desenvolvedores da Naughty Dog parecem trabalhar a homossexualidade de seus personagens com bastante naturalidade, pois além de Ellie, outro personagem homossexual que surge na narrativa é Bill, o amigo de Joel. Ao contrário de Ellie, que beija uma garota e escancara para o mundo sua homossexualidade, o tratamento com Bill é diferente, e o jogo dá dicas (algumas bastante óbvias) de que ele é um homem gay, como a tristeza do personagem em perder seu parceiro/amigo Frank, ou a revista que Ellie encontra na casa de Bill e leva com ela na viagem de carro, que é explicitamente uma revista pornô gay com um homem seminu na capa.

A indústria dos games parece estar crescendo em representatividade e buscando cada vez mais incluir personagens LGBT+ e outras minorias em suas narrativas. Recentemente, Tracer de Overwatch foi confirmada como uma personagem lésbica através de uma HQ; Jacob, um dos protagonistas de Assassin’s Creed: Syndicate, é um homem bissexual; e Life is Strange pauta toda a sua narrativa em torno do relacionamento de duas garotas lésbicas. É de fato muito bom ver personagens como estes em jogos de grande visibilidade, mas a indústria precisa de mais.

O número de personagens LGBT+ em jogos de videogame (protagonistas e coadjuvantes) é muito menor do que o de protagonistas homens brancos, cis e héteros, não condizendo com a realidade. Têm se dado atenção para essas minorias? Sim, mas de forma muito limitada. É preciso crescer, ousar e criar personagens LGBT+ com tanta humanidade quanto a Ellie de The Last of Us. Assim se combate o preconceito, se possibilita que um jovem homossexual se identifique com um personagem em meio a tantas representações cis e héteros, e abre-se a mente dos jogadores para essas minorias.

Nerd, gamer e cinéfilo. Apaixonado por Zelda, acredita ser a reencarnação do herói do tempo.