Hellblade: Senua’s Sacrifice – A jornada distorcida de uma mente angustiada

O crescimento colossal da indústria dos games acaba aprofundando o abismo entre os chamados jogos “AAA”, as mega produções do entretenimento eletrônico, e os jogos independentes. Com altíssimos custos de produção e expectativa de lucros, os AAA se veem muitas vezes repetindo fórmulas seguras e passando longe de inovar. Os indies, por outro lado, têm toda a liberdade criativa que quiserem, mas, em geral, não chegam nem perto da qualidade técnica que as grandes produtoras podem pagar.

Em meio a esse cenário, a Ninja Theory (Heavenly Sword, Enslaved, DMC) traz Hellblade: Senua’s Sacrifice, um game ousado que pretende permear as fronteiras entre esses dois mundos. O Pulo Duplo já acompanha o game há um tempo e agora tem mais detalhes conforme o lançamento se aproxima.

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A Ninja Theory fala do jogo como uma “terceira via” para a oposição indies vs AAA. Para eles, as super produções fazem concessões demais com sua visão criativa para agradar o máximo possível de pessoas e compensar os grandes custos de desenvolvimento. Por outro lado, os games indie se amparam quase exclusivamente na visão criativa e raramente buscam o tipo de grandiosidade e escala que os grandes games conseguem com seus orçamentos milionários.

O esforço em Hellblade é, então, criar um “AAA independente”. Uma experiência com uma proposta criativa e narrativa específica, mas com valores de produção altos. A empresa explica a abordagem em seu site:

O que é um jogo AAA independente? É poder criar, financiar e deter a posse de propriedades intelectuais de qualidade AAA mas com o design mais focado, menor margem de preço e desenvolvimento aberto que definem os indie games. É assumir riscos criativos e criar experiências de jogo espetaculares, excitantes e únicas que possam competir com títulos AAA e engajar diretamente os fãs.

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Profundamente baseado em mitologia viking e celta, Hellblade conta a história de Senua, uma guerreira celta (dos pictos para ser mais exato, nomeados assim pelos romanos por causa de suas pinturas de pele) que perde tudo depois de um brutal ataque viking à sua vila. Senua luta contra sua mente doente a vida toda, a relação com seu companheiro Dillion era seu maior apoio em se manter consciente e controlar seus episódios psicóticos.

Quando os vikings chacinam seu povo e sacrificam Dillion em nome da deusa da morte Hela, Senua se vê afundada na dor e em suas próprias percepções distorcidas. Em um saco ela traz a cabeça de Dillion, onde acredita estar sua alma, e colocará todos seus esforços para salvá-lo do inferno.

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O diretor criativo, Tameem Antoniades,  ressalta como Hellblade deve ser visto em primeiro lugar como uma história. O esforço maior é dar aos jogadores a oportunidade de viver através de Senua, uma guerreira traumatizada e perturbada mentalmente. A Ninja Theory trabalhou com a ajuda de Paul Fletcher, psiquiatra e neurocientista da universidade de Cambridge, e com a Wellcome Trust, ONG ligada à pesquisa médica e de saúde mental.

Trabalhando em contato até mesmo com pacientes que sofrem de psicose e depressão, o objetivo era criar uma representação sensível e complexa da mente de alguém com esses problemas. Senua ouve vozes e tem alucinações que a guiam ou confundem por sua jornada, são suas caóticas impressões do mundo que chegam a nós, jogadores. O que provavelmente são vilarejos e guerreiros vikings se transforma em um inferno povoado por seres grotescos, tudo alimentado pelas lentes da guerreira atormentada e marcada pela dor da perda.

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O game é primariamente uma experiência narrativa, mas o caminho de Senua está longe de ser fácil ou pacífico. Combate é parte intrínseca de Hellblade e, por todas as demonstrações divulgadas, parece ser brutal e tático. Em um dos vídeos de desenvolvimento, os criadores falam como quase optaram por um sistema de combate direcional – similar a For Honor -, mas acabaram desistindo por acharem o resultado mecânico demais.

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A ideia era um sistema que fosse desafiador, mas não exigisse decorar sequências de botões e combos como em outros títulos da empresa. O sistema acabou evoluindo para algo simples e direto, focado em duelos com poucos inimigos por vez em que o jogador terá um botão de ataque leve e rápido e outro pesado e mais lento. Combinando apenas esses dois comandos com bloqueio e esquiva, a Ninja Theory parece ter chegado a um sistema tático, tenso e visualmente incrível.

Tanto o combate quanto a força narrativa de Hellblade passam pelas impressionantes animações e estilo visual que a Ninja Theory conseguiu criar. Com uma sala de captura de movimento “caseira” criada dentro dos escritórios da empresa, a equipe pôde criar as animações de Senua e de todos os inimigos usando dois dublês e muita criatividade.

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Para se ter idéia do quão único tem sido o desenvolvimento do game, a atriz responsável por trazer Senua à vida era originalmente encarregada da criação e edição de vídeos do desenvolvimento do game.

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Melina Juergens foi convidada a encarnar de vez a personagem depois de ser cobaia de maquiagens, captura de movimentos e de ler alguns textos para “tapar buraco” enquanto uma atriz era contratada. No entanto, Antoniades gostou tanto da performance da moça que ela acabou sendo escalada para o papel – e o vivendo de forma incrível, como ela mesma relata em um dos diários de desevolvimento.

Basta uma olhada nos vídeos e artes conceituais do game para saber que Hellblade vai contar uma história perturbadora e significativa. O jogo pode ser mais um reforço de temas e abordagens maduras no mundo do videogame, como foram Last of us, Gone home e outros. A indústria e os fãs só tem a ganhar com mais criações desse tipo.

Hellblade será lançado para Playstation 4 e PC ainda em 2017.

 

Author: Daniel Soares

Historiador cultural. Geek de games, quadrinhos, filmes, RPG, manga e outros. Levemente dissociado da realidade. Viciado em abacaxi.

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