Análise | Bridge Constructor Portal

Uma empilhadeira desce de ré uma rampa em alta velocidade e aterrissa em uma ponte suspensa sobre uma piscina de ácido sulfúrico. Como se não bastasse, o simpaticamente frágil veículo ainda passa por portais de teletransporte, mais algumas quedas livres e outras ladeiras nauseantes até chegar ao seu objetivo. Vibro com minha namorada como se fosse um gol, o videogame é uma coisa edificante.

Essa foi uma das muitas experiências absurdas que vivi enquanto jogava Bridge Constructor Portal, um game que confesso: ri com incredulidade quando soube de sua existência. Sua proposta é unir o desafio da franquia Bridge Constructor, que incita o jogador a construir pontes para que veículos atravessem seguramente os mais diferentes trajetos, com as mecânicas de Portal.

Sendo o jogo da Valve um dos meus games preferidos, além de um marco na história dos quebra-cabeças digitais, vi a reinvenção de seu conceito como um sacrilégio. Contudo, há a iconoclastia que vem para o bem.

É um jogo sobre construir pontes…

Desenvolver um crossover significa saber dosar os elementos de suas partes componentes. BCP — vamos chamar assim por praticidade, tudo bem? — não fraqueja quanto à sua proposta em nenhum momento: trata-se de um puzzle sobre construir pontes. As ferramentas disponíveis ao jogador são alicerces e cabos e pistas e nada mais.

Os princípios de Portal, por sua vez, não se limitam a conferir identidade visual e narrativa ao jogo, mas servem como base para quase todas as 60 fases da obra. O caminho a ser percorrido pelos veículos é constantemente permeado por lasers, torretas emotivas, géis que fazem o carro acelerar ou quicar e, logicamente, portais.

A amálgama é feliz. Tudo bem, ambas franquias se valem da física e do deslocamento espacial para entreter o jogador, mas o uso dos elementos descritos acima traz mais opções ao desafio de se pensar o espaço bidimensional como um ambiente jogável.

Cada fase lida com conceitos dominantes para a resolução de seus problemas. Trajetórias que se cruzam, múltiplos portais, cálculo de angulações, entre outras mecânicas precisam ser levadas em conta ao erigir cada pilastra de sua ponte. A variedade é benéfica ao game e evita a repetição.

Penso que a curva de dificuldade da obra poderia ser um pouco menos íngreme. Tive a impressão de que uma mecânica básica era-me apresentada para logo depois se desenvolver em algo muito mais complexo. Alguns quebra-cabeças adicionais para acostumar o jogador poderiam conferir tanto mais tempo de experiência quanto naturalidade ao aprender.

Da mesma forma, sinto que a construção das pontes poderia ser mais eficiente. Algumas vezes, testar uma determinada construção reagindo a um elemento do ambiente é demorado, assim como deletar vários alicerces pode ser trabalhoso. Uma ferramenta de seleção múltipla, nesse último caso, seria mais do que bem-vinda.

…mas a Aperture vai bem, obrigado.

Se BCP é um jogo sobre construir pontes em sua essência, é notável o bom trabalho da ClockStone em trazer Bridge Constructor para o universo de Portal. O humor irônico e as premissas absurdas continuam lá, embora um tanto diluídos. Novamente, Ellen McLain foi ótima como a dubladora da carismática GLaDOS, fato que melhora qualquer fala escrita que tenha ficado aquém do esperado.

Pode não ser um ponto crucial à obra, todavia, é notável como este game conseguiu entender bem a Aperture Laboratories — a empresa fictícia de Portal para a qual você trabalha — como uma alegoria para o lugar do trabalhador médio na sociedade contemporânea. De forma bem-humorada, somos constantemente lembrados de nossa pequenez enquanto realizamos as tarefas propostas, ao passo que não há saída senão menear a cabeça e celebrar nervosamente quando conseguimos construir aquela ponte firme.

Tal qual no jogo da Valve, a atenção aos detalhes também é digna de nota. Não são apenas os portais e companion cubes que marcam presença em BCP, porém também as dicas sutis que, vez ou outra, nos ajudavam a sair daquela sala antes intransponível dos laboratórios da Aperture. Aqui, por exemplo, há placas que indicam a direção necessária à queda ou trajeto de uma empilhadeira. O fato pode até passar em branco a incautos e muito compenetrados, mas é uma feliz adição ao jogo.

Respeitar o próprio ritmo

Dado o aspecto multifacetado dos quebra-cabeças de Bridge Constructor Portal, é válido notar que o título pode ser usufruído de diferentes maneiras. Eu mesmo, por exemplo, sendo um tanto burro contemplativo, sinto que resolver um enigma seu por dia me é suficiente — alguns desses chegaram a me custar uma hora inteira, note-se. Entretanto, cada um de nós tem sua personalidade, e o videogame é uma ótima maneira de se evidenciar isso.

Tive a oportunidade de jogar o título ao lado de minha namorada, uma pessoa que não se importava muito com games até pouco tempo atrás. Sendo ela mais inclinada do que eu a resolver problemas complexos, constatei que o título pode agradar àqueles que fazem as coisas com mais prontidão e avidez — e valorizo muito isso. Propor uma experiência democrática, que respeita o ritmo de cada um, serve como porta de entrada a um meio então improvável para pessoas avessas aos jogos digitais.

Nesse sentido, uma mecânica muito interessante de BCP é o modo comboio. O desafio mínimo do game é fazer um veículo percorrer a sala completa. Por sua vez, aqueles mais obstinados podem tentar fazer vários carrinhos chegarem ao seu objetivo de forma segura. Não é fácil. As construções se comportam de maneiras diferentes quando têm o peso do automóvel imposto sobre si e, parafraseando a sabedoria popular, o que serve para uma empilhadeira desgovernada em chamas pode não servir para doze de uma vez só.

Por outro lado, sinto que a ClockStone perdeu uma ótima oportunidade de incluir uma velha obsessão minha no game: um editor de mapas. Ora, se a obra exige tanto de nossa criatividade e raciocínio, por que não colocá-los diante de uma provação final? Conferiria maior longevidade ao game e poderia integrar a sua comunidade. Basta ver o exemplo de Mario Maker.

Fã de Portal, não se engane. Bridge Constructor Portal não é o que você espera, mas é um puzzle com autonomia e que pode ser uma experiência muito frutífera. Basta encarar seus desafios a seu modo para ver sua beleza aflorar.

Bridge Constructor Portal está disponível nas plataformas Android, iOS, PC (Win/macOs/Linux), PlayStation 4, Xbox One e Switch. Testei o game em um MacBook 2012.

Author: Luiz Roveran

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.

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