Este homem quer parar uma guerra com videogames

Sessenta e quatro tribos. Sessenta e quatro línguas. Uma guerra civil. Desde 2014, o Sudão do Sul vive um conflito armado que já deixou mais de 300 mil mortos e 3,6 milhões de refugiados — um terço de sua população. Oficialmente, o país conquistou sua independência em 2011, o que significa que a maior parte de sua história foi escrita em sangue.

Nesse caldeirão de tensão étnica e jogo político, fios de esperança resistem. Um deles se chama Lual Mayen, um jovem programador de 24 anos que busca uma resposta em nome da conciliação em sua terra e que aceitou contar sua história em exclusiva para o Pulo Duplo.

Fonte: acervo pessoal

Mayen é fundador da Junub (“Sul”) Games, um coletivo de desenvolvedores de jogos que visam promover a união e respeito ao próximo. Desde sua criação, em 2016, a equipe lançou duas obras: Salaam (“Paz”), disponível nos celulares Android, e seu board game derivativo, Wahda (“União”). A ideia reflete a história de vida de Lual.

Tentei educar meu país tecnologicamente

“Meus pais são sul-sudaneses. Em 1991, uma guerra civil irrompeu e eles tiveram que se refugiar em Uganda para sobreviver. Eu nasci durante essa fuga.

Eu cresci num campo de refugiados ugandense. Desde pequeno, tive essa paixão por computadores e tecnologia. Minha mãe trabalhou muito duro para comprar meu primeiro PC e isso abriu a minha mente. Eu era a única pessoa em meu vilarejo que conhecia games, visto que era o único que tinha acesso a um computador”.

Essa não foi a última vez em que a mãe de Lual batalhou para dar todo o apoio necessário ao seu sonho. Anos mais tarde, ela também bancou seus estudos de engenharia da computação numa universidade ugandense. Mayen, no entanto, não chegou a obter um diploma: o escopo do curso lhe frustrou por não abordar linguagens de programação com muita profundidade. A solução foi estudar por conta própria.

Lual Mayen joga seu board game, Wahda, com refugiados. Fonte: acervo pessoal

“Eu passei a usar tutoriais online a fim de aprender linguagens simples de programação. Então, voltei de Uganda para o Sudão do Sul em 2014 e comecei a fazer pequenos aplicativos. Tentei introduzir apps bancários no meu país para educar as pessoas tecnologicamente, mostrá-las que usar construtivamente esses programas e dispositivos pode facilitar suas vidas. Não consegui. Os líderes locais não estavam nem um pouco interessados no que eu estava fazendo.

O dinheiro que eu consegui ganhar trabalhando com isso foi usado para comprar mais cursos online, meu foco era aprender mais sobre desenvolvimento de apps e me concentrar em entrar na indústria de games”.

Sobre isso, ele menciona que trabalhou em um estúdio na África do Sul, onde aprendeu a manejar a engine Unity. Segundo Mayen, o país é um polo promissor de desenvolvimento de jogos, reminiscente, inclusive, ao Brasil.

Fonte: acervo pessoal

“A indústria de games vai bem na África do Sul. Há muitos desenvolvedores independentes por lá. Eu tenho um amigo, por exemplo, que está mediando conversas entre profissionais sul-africanos e o governo para conseguir incentivos e investimento público na área.

A coisa é diferente por lá. Nos outros países africanos em desenvolvimento, como Quênia, Uganda e Tanzânia, o investimento em tecnologia não é interessante, então, há muitas empresas que surgem, chegam a crescer, mas vão à falência eventualmente”.

Nossas crianças nascem com uma mente beligerante

Em 2016, após um período intermitente de paz, a guerra civil voltou a irromper no Sudão do Sul. Mayen forçosamente retornou a Uganda. Foi quando tudo veio à tona.

“Muita gente morreu no Sudão do Sul nessa época e, quando eu digo ‘muita’, me refiro a uma quantidade realmente devastadora, terrível. Fugi para Uganda para pensar numa estratégia: o que posso fazer pelo meu país?

Como alguém da área de tecnologia, eu conhecia meu público. Sei que quase 70% da população do Sudão do Sul tem entre 0 e 24 anos. São essas pessoas, essas crianças, que estão sendo usadas como ferramentas de guerra, gente como eu e você.

O problema é que essas pessoas vão para a guerra, vão para matar e serem mortos. Muitas delas nascem e crescem em meio ao conflito, então suas mentes são totalmente beligerantes. O que me faz um pouco diferentes delas é o fato de eu ter crescido no campo de refugiados.

A minha ideia, então, era de criar um produto acessível e que conscientizasse a juventude. A tecnologia está em todos os lugares, essas pessoas vivem jogando games em seu celular. Você pode comprar um ótimo celular Android na África por 100 dólares. Foi assim que Salaam nasceu”.

Arte conceitual de Salaam, criada por Lual Mayen. Fonte: acervo pessoal

Em Salaam, o jogador assume um caráter quase onipotente, podendo tanto destruir prédios e construções civis quanto direcionar suas forças contra instrumentos de guerra. Apenas uma dessas alternativas premia o jogador com uma pontuação satisfatória.

Desde então, a Junub cresceu. Atualmente, a equipe conta com dez membros, incluindo pesquisadores que recebem respaldo de seus games em campos de refugiados e focos de guerra, além de constatar tendências socioculturais nessas localidades.

Aglomeração em volta de Salaam em campo de refugiados. Fonte: acervo pessoal

“Ouvir os jogadores é a parte mais importante de ser um desenvolvedor de jogos. Como a internet no Sudão do Sul é ruim, prefiro ir aos campos de refugiados para distribuir os games localmente. Esse contato, junto com o feedback que recebo dos pesquisadores da Junub, é fundamental. Nossos títulos estão abertos a mudanças, sempre ouço o que as pessoas gostariam de ver nos jogos para, no futuro, atualizá-los”.

O discurso de ódio está em todos os lugares

Se engana quem pensa que o alcance do estúdio se restringe ao território africano. A Amazon fechou uma parceria com a equipe após saber de seu trabalho, fornecendo-lhes ferramentas de controle de qualidade, computação em nuvem e publicação de seus jogos. No Instituto dos Estados Unidos para a Paz, com sede em Washington, Mayen recebeu aconselhamento e recursos para distribuir suas criações em campos de refugiados no norte de Uganda e em bases das Nações Unidas no Sudão do Sul.

O trabalho de Mayen e da Junub não se restringe tão somente ao desenvolvimento de jogos, mas busca promover a integração de profissionais de tecnologia em sua região. No ano passado, o estúdio foi responsável por sediar a primeira edição da Global Game Jam no país, fato que o credenciou a visitar a GDC em 2017, ainda que não o tenha feito naquela oportunidade.

Fonte: acervo pessoal

Mesmo assim, a agenda de Lual Mayen está lotada. Nos Estados Unidos, ele deve palestrar na GDC e no South by Southwest. Em junho, viaja à Europa para falar de seus projetos na Games for Change — ONG que promove o uso de jogos digitais como uma ferramenta de desenvolvimento social. Ainda este ano, regressa à África para apresentar uma comunicação em uma conferência.

Entre um evento e outro, Mayen aproveita o tempo para visitar grandes estúdios norte-americanos a fim de aprender sobre o ramo e firmar parcerias. Recentemente, ele esteve na Epic Games e na USAopoly, uma das maiores manufatureiras de jogos de tabuleiro dos Estados Unidos.

Sobre isso, pergunto-lhe se a grande indústria de games, que desenvolveu tantas obras com mecânicas baseadas em combate e violência, pode trazer mensagens de paz a seus jogadores. Ele responde que “tudo depende do escopo do seu trabalho. O panorama dos AAA games pode ter sido esse por muito tempo, mas creio que a iniciativa da Games for Change, por exemplo, pode render bons frutos nos próximos anos”.

Dentre os títulos de grande orçamento que se encaixam no escopo da GfC, destacam-se Valiant Hearts, da Ubisoft, e Life is Strange, publicado pela Square Enix.

Atualmente, a Junub trabalha em seu terceiro game, Hate Cop, um título que tratará do delicado tema dos discursos de ódio.

“O discurso de ódio está em todos os lugares. Está no Sudão do Sul, mas também está nos Estados Unidos, na Síria, no Brasil.

Hoje, por exemplo, as mídias sociais desempenham um papel negativo na guerra civil de meu país. Quando qualquer coisa ruim acontece no Sudão do Sul, as pessoas começam a compartilhar fotos de eventos de dez, vinte anos atrás, como se fosse algo relacionado àquela notícia. Então, cada lado do conflito recorre ao discurso de ódio para alimentar a discórdia, disseminada online.

Eu estou trabalhando em uma pesquisa ao lado do PeaceTech Lab — empresa que busca reduzir os índices de violência por meio de tecnologia e comunicação — para mapear o léxico do discurso de ódio no Sudão do Sul. São 64 tribos, 64 línguas, e cada grupo tende a desenvolver palavras odiosas para designar cada uma das outras nações.

A partir disso, quero desenvolver um game, seja ele de tabuleiro ou de cartas, que será baseado em penalidades. A cada vez que o jogador recorre a uma palavra de ódio, sua pontuação decresce.

Eu ainda estou na fase de brainstorming, mas quero lutar contra o discurso de ódio ao redor do mundo. O caminho para isso é entender o contexto de cada país, compreender questões educacionais e formação familiar média, por exemplo, para então adaptar o gameplay de acordo com cada situação”.

Lual Mayen (esq.) em viagem aos Estados Unidos. Fonte: LinkedIn pessoal

Poucos dias após a entrevista, o presidente-apedeuta dos Estados Unidos, Donald Trump, foi acusado de se referir a países centro-americanos e africanos como shitholes, apenas confirmando o argumento de Lual Mayen sobre esse tipo de retórica raivosa.

Em sua mensagem final, o alegre sul-sudanês agradeceu aos leitores. “Desde que eu comecei nesse ramo, muitas pessoas vêm falar comigo e a minha resposta é sempre a mesma: vamos trabalhar juntos, nós somos um só. Somos do mesmo povo, do mesmo sangue. Nós choramos. Somos iguais, somos um”.

É fácil dizer que a batalha de Lual, assim como de todos os sul-sudaneses, está longe do fim. Nessas horas, me vem uma frase do saudoso Eduardo Galeano e, assim, tomo de empréstimo seu talento, muito maior do que o meu, para fechar este texto.

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

Author: Luiz Roveran

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.

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