Análise | Crossing Souls

Os anos 80 estão com tudo e, atualmente, já viraram um produto para indústria cultural. Seja na música, no cinema, nas séries e, não diferentemente, nos videogames. Quando coloquei as mãos em Crossing Souls, senti um misto de empolgação e receio. A primeira é óbvia, já a segunda se deve à dúvida de que esse novo “gênero” decenário produza apenas imitações pouco criativas. Então vamos lá!

Crossing Souls foi desenvolvido pela espanhola Fourattic, formada por apenas três pessoas. A equipe conseguiu uma parceria com a Devolver (sempre ela!), e em 2014 lançou sua campanha no Kickstarter. Em menos de dois meses o jogo bateu a meta e na E3 de 2015 sua primeira demo foi apresentada.

No melhor estilo Sessão da Tarde, o título se passa numa saudosa cidade no interior da Califórnia e o jogador controla um grupo de cinco amigos, Chris, Matt, Charlie, Big Joe e Kevin, que passarão por altas confusões depois de descobrirem uma misteriosa pedra rosada que os permite acessar a dimensão dos mortos, sobreposta em seu mundo.

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O game é um RPG isométrico em pixel art com combate em tempo real, desafios em plataforma e cinemáticas no melhor estilo Tartarugas Ninja, no qual cada um dos cinco personagens possui diferentes habilidades para serem usadas em combate e solução de quebra-cabeças. O título possui diversos colecionáveis que fazem paródia a produtos reais, como filmes, séries, jogo e músicas. Destaque para a Radical Mix, uma mixtape com versões alternativas de grandes sucessos oitentistas.

Do mesmo modo, o jogo não faz apenas referências textuais, como também apresenta sequências completas de gameplay baseadas em clássicos como Streets of Rage e os famosos “jogos de navinha”. Crossing Souls é uma miríade de referências, sendo difícil entender todas de primeira, o que nos leva a uma questão – será que esse foco na homenagem atrapalhou sua qualidade final?

Mecanicamente, o título da Fourattic é simples, o protagonista Chris é o mais equilibrado no combate e pode escalar, Matt atira a distância com sua arma de raio e tem sapatos a jato, Charlie é a mais rápida e possui um chicote, Big Joe é o brutamontes do grupo e Kevin é o mais novo que ajuda nos quebra-cabeças e não entra em combate. Em posse da pedra Duat, o jogador deve avançar pelos cenários mesclando o mundo dos vivos e dos mortos para resolver os diversos puzzles. Esses cinco personagens permitem uma boa variação nos combates e posso dizer que os desafios me fizeram alternar de personagem constantemente.

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Infelizmente, Crossing Souls falha nas demais mecânicas pois, enquanto as lutas com chefes são, em sua maioria, sem criatividade, consistindo em desviar de ataques até que seja possível dar um ou dois golpes, as sequências que fazem alusão a clássicos são, por vezes, mais simples que suas referências, e trazem pouca ou nenhuma inovação, servindo apenas para nos sentirmos como aquele meme do Capitão América.

Em questões narrativas, o jogo apresenta a aventura padrão daquela década. Com tropos de Goonies, Conta Comigo e De Volta Para o Futuro, o grupo de amigos precisa derrotar o vilanesco de traços russos, Major Oh Rus, que deseja usar a rosada pedra Duat para dominar o mundo. Porém, foi com surpresa que vi uma narrativa corajosa, pois ainda que genérica, ela foi capaz de, aos poucos, retirar cada membro do meu grupo, me deixando, no final, sozinho para lutar contra Oh Rus. Novamente, é uma narrativa simples e que sabe quando não se levar a sério e, mesmo assim, ela consegue trazer a inovação que as mecânicas não foram capazes de realizar.

Por fim, Crossing Souls é um ótimo game para os amantes e saudosistas do gênero, sendo muito divertido relembrar e redescobrir características de uma época que já se foi há 40 anos. Seja com piadas, arcades, lojas de quadrinhos ou batendo em punks numa rua estranha, o título consegue recriar o clima oitentista sem cair, apesar dos defeitos, naquele temor que mencionei no início do texto, apresentando uma boa experiência para quem está em busca de viver altas aventuras.

Crossing Souls já está disponível para PC, PlayStation 4, PlayStation Vita, Linux e Mac.

Author: Fernando Cardoso

Designer, jogador e leitor ávido, a lista de coisas diferentes que faço é longa demais, porém minha curiosidade e busca por entender tudo a minha volta é maior ainda. Mas e o futuro? Bem, Game Designer e escritor são meus objetivos, conseguir um desses já é uma conquista desbloqueada.

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