Análise | Radiant Historia: Perfect Cronology

Anos atrás, o Nintendo DS dominava o mundo dos portáteis. Durante sua vida útil, foram lançados dezenas de J-RPGs. Opções não faltavam, porém eram poucos os que se destacavam.  Em 2010, a Atlus lançou o game Radiant Historia, que muitos apontaram como o “sucessor espirital de Chrono Trigger”.  Na época, o jogo não teve um destaque tão grande, mesmo para os fãs do gênero. Eis que oito anos depois do lançamento original, Radiant está de volta, desta vez em uma versão remasterizada para o Nintendo 3DS.

Primeiramente, é bom avisar. Radiant Historia: Perfect Chronology não é um remake. Ele é uma versão melhorada em vários pontos. Os gráficos não estão exageradamente serrilhados como era comum pela limitação de hardware do DS. Houve uma melhoria significativa na qualidade do som e das poucas animações. O tempo de loading praticamente foi anulado. Alguns elementos a mais foram adicionados ao enredo. Existem novos itens, armamentos e magias.

O título continua excelente e narra uma aventura épica, com novidades em comparação à versão original de 2010. Acompanhamos a história de Stocke, um agente da inteligência do Reinado de Alistel, que se encontra em uma acirrada disputa territorial com o Reino de Granould. Durante uma missão, ele recebe o White Chronicle, um livro que o leva a Historia, um mundo mágico além do tempo e espaço. Lá, ele pode navegar entre linhas temporais alternativas e influenciar os acontecimentos do passado, presente e futuro em momentos específicos da história – chamados de Node Times.

Ao iniciar, somos questionados a seguir por dois modos de jogo, que já falamos anteriormente. O Append Mode, para aqueles que nunca jogaram o original, e o Perfect Mode, para os familiarizados com o jogo, são as primeiras novidades de Perfect Chronology.

Nunca joguei RADIANT HISTORIA

À primeira vista, Radiant Historia parece ser apenas um caça-níqueis, tentando tirar uns trocados dos amantes de J-RPG. Graficamente, ele é muito inferior a títulos como Pokémon Ultra Sun ou Fire Emblem Conquest, que usam bastante as capacidades do Nintendo 3DS. O visual é bonito, mas nada para se glorificar de pé.

Quanto ao enredo, é uma obra-prima. Um conto de guerra onde temos o protagonista Stocke atormentado por escolhas difíceis. Por ter o controle de certos momentos na linha do tempo, graças ao White Chronicle, ele vive entre duas realidades completamente distintas, como acontecimentos que divergem bastante um do outro.

Com o White Cronicle, Stocke pode impedir futuros trágicos.

Na primeira realidade, Stocke é e sempre será um agente secreto da inteligência do Reino de Alistel. Ele segue as ordens do general Heiss, que claramente possui uma agenda secreta e sabe sobre a real história por trás do White Chronicle. Este é um mundo de intrigas e espionagens, onde os personagens do game lidam com pequenas quests e tarefas que irão influenciar o rumo da guerra.

Em outra realidade, ele acompanha o seu amigo Rosh, um dedicado capitão do exército de Alistel. Nesse mundo, Stocke e seus companheiros seguem um caminho mais voltado para as batalhas e o militarismo. Suas ações influenciam na guerra entre os dois reinos e deixam marcas profundas em todos os personagens da trama.

Mas se engana quem pensa que o jogador terá que escolher uma das linhas temporais e seguir até o final. Stocke deve navegar pelas duas realidades distintas e realizar ações que irão influenciar ambas. Por exemplo, em uma realidade, um importante mercador foi morto por assassinos. Utilizando informações sobre o crime, ele poderá impedi-lo na outra realidade, fazendo com que o mercador viva e consiga um importante item para o exército de Alistel. Essas ações são corriqueiras e frequentes na trama do jogo.

Rayne e Marco são companheiros fieis nas duas linhas do tempo.

Mas não podemos falar de J-RPG sem mencionar as batalhas. Aqui temos um sistema de turnos com um leve toque de tático. Os inimigos e seus personagens são colocados em um campo de batalha com vários espaços, onde cada personagem ou inimigo é alocado em um deles.  Através de um simples sistema de skills e ataques, você pode realocar os inimigos e aglomerá-los em um único ponto. Assim, os ataques seguintes dos aliados poderão “combar” e causar muito mais dano. Mas não pense que é uma tarefa fácil, pois os inimigos estão em constante movimento durante a batalha e também podem realizar combos.

Estratégia e pensar em cada movimento é essencial para as batalhas

As batalhas contra os chefes são complexas e exigem estratégias. Mesmo se os personagens estiverem com níveis acima do boss, a movimentação dele e dos inimigos é um elemento crucial. Não basta focar no líder, é preciso derrotar inimigos menores e se defender sempre que possível. É como se você jogasse um complexo quebra-cabeças misturado com batalhas em turnos e cenários de J-RPG táticos.

Embora tenha explorações e elementos de RPG tático, Radiant Historia pode muito bem ser considerado em partes um Visual Novel. Você passará horas acompanhando os acontecimentos do jogo apertando botão para passar as conversas. E é muita conversa. Joguei mais de 40 horas até a conclusão do jogo e acredito que um terço desse tempo foi acompanhando as conversas entre os personagens. Alguns podem se impacientar, mas acredite, vale a pena. O enredo do jogo é envolvente e possui reviravoltas de cair o queixo.

 Joguei RADIANT HISTORIA do DS. Devo comprar o Perfect Cronology?

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Arte original do DS. Qualidade superior a atual versão.

Respondendo à pergunta: SIM! O jogo é uma repaginada no original. Esqueça aqueles gráficos serrilhados característicos do Nintendo DS. Nada contra, mas a comparação é desigual. Infelizmente, em nome da modernidade, a arte original dos personagens que em muito lembravam pinturas foram substituídas por imagens genéricas de anime. Não são feias, mas também não são nada demais. Quanto ao enredo, não perca tempo escolhendo o modo Append. Você pode não lembrar por inteiro do enredo da versão de DS (afinal são quase dez anos), mas a versão Perfect é ideal. O protagonista Stocke continuará usando o White Chronicle para navegar pelo tempo e espaço, mas desta vez ao invés de duas linhas temporais, é possível interagir com uma terceira. Mas não é algo tão rebuscado, apenas alguns conteúdos adicionais ao enredo que podem soar como spoiler para aqueles que nunca jogaram Radiant.

As batalhas continuam as mesmas, mas a grande novidade é a falta de longos loading. E isso é maravilhoso. As lutas são rápidas e fluídas, mesmo naquela navegação em quadrados do campo de batalha. E a dificuldade está excelente, com três níveis diferentes. De antemão, é bom avisar: o modo HARD é caprichado na dificuldade. Upar é um mal necessário, e nesse nível o jogador terá que gastar HORAS para ganhar alguns levels.

Novas magias e inimigos são alguns incrementos da versão do 3DS

E devemos agradecer a Atlus, pois agora podemos acelerar e pular as longas conversas do enredo. Continua excelente, mas quem já jogou sabe o quanto alguns momentos da história são maçantes. Infelizmente, não houve acréscimo de animações. O enredo continua se limitando a conversas, imagens estáticas e balões de texto. Muito texto. Bola fora, mas nada que estrague o jogo.

Por fim, temos a dublagem. Ela está caprichada, com uma quantidade muito maior de diálogos. Sejam as falas em inglês ou original em japonês, os dubladores capricharam na dedicação e na emoção. Algo que ajuda a encarar as horas de diálogos dos momentos Visual Novel. Infelizmente, apenas os personagens principais possuem diálogos falados. Os NPCs são mudos, o que pode causar estranheza em certos momentos do jogo.

Vale a pena (re)viver essa aventura épica

A Atlus caprichou muito em Perfect Chronology. São várias horas adicionais de conteúdo em comparação a versão original. O enredo e as batalhas possuem elementos novos que adicionam um gosto de “quero mais” ao título. Ao jogar, você pode imaginar formas diferentes de se derrotar um chefe ou atravessar um cenário, devido aos novos elementos nos combates e nos acontecimentos da trama.

Eventos como a dança de Aht são algumas das novidades de Perfect Chronology.

Mesmo que esteja em seus “momentos finais”, Radiant Historia Perfect mostra que o 3DS ainda é uma ótima plataforma para RPGs. Viagens no tempo, combates táticos em turnos e uma trama espetacular tornam o game uma jóia rara na biblioteca de títulos do pequeno notável da Nintendo. Recomendadíssimo.

Author: otaviorx

Apaixonado por tudo que vem do Japão, em especial os jogos. Trabalha com política, mas sonha em salvar o mundo com o poder da amizade. Um eterno sonhador que espera encontrar a Waifu perfeita ( ͡° ͜ʖ ͡°)

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