Crítica: Papers, Please – The Short Film

Há um momento em Papers, Please – The Short Film em que o inspetor de fronteira (Ivan Savochkin) é capturado pela câmera em ângulo frontal. Seus olhos não conseguem focar em um ponto específico e a desolação invade-lhe a expressão. De imediato, lembrei-me das tantas vezes em que a obra original me fez reagir exatamente da mesma forma.

Adaptações cinematográficas de jogos digitais carregam consigo um estigma — merecidamente, diga-se de passagem. É muito mais fácil pensar em filmes medíocres e ruins do gênero, contaminados pela grandiloquência hollywoodiana, do que enumerar peças bem construídas que tanto captaram a essência de seus respectivos originais quanto fizeram-se valer de seu próprio meio.

Nesse sentido, a opção (ou necessidade, afinal, trata-se de uma produção independente) por transformar Papers, Please em um curta-metragem fez bem à própria obra. A forma escolhida incentiva a apresentação de seus pontos e argumentos de forma sucinta: a mecânica de decisões binárias, o zelo pela família e os dilemas morais estão todos ali. Não há espaço para invencionices.

O filme segue a premissa do jogo de Lucas Pope, em que o protagonista decide quem entra e quem é retido nas fronteiras do fictício país de Arstotzka, recém-saído de uma guerra com a vizinha nação de Kolechia. A tarefa é penosa: famílias são separadas, destinos pessoais são decididos pelo martelar de um mero carimbo.

Aqui, faço questão de reiterar a atuação de Ivan Savochkin e companhia. Tal qual no game, quase não há deslocamento espacial das personagens: todas os conflitos dramáticos são enfatizados por olhares, gestos e entonações sutis.

Curta conta com esmerada composição horizontal. Na imagem, note a fina parede de vidro que separa destinos inteiros.

Cenografia e figurino impecáveis contribuem para criar um senso de fidedignidade à coisa: os tons esverdeados e escuros escolhidos carregam consigo um quê de confinamento e realçam o peso que a burocracia impõe sobre todas as partes envolvidas.

Entre um diálogo e outro, a montagem, frequentemente bem decupada, contribui para enfatizar o aspecto mecânico do trabalho do inspetor, ilustrando a dicotomia entre seu desumanizador ofício e a sobrepujante carga emocional de seus efeitos — por bem ou por mal. É interessante o uso do efeito de foco/desfoco sobre as informações contidas nos passaportes e vistos, quase como se nós mesmos fôssemos incumbidos da tarefa do protagonista.

Acima de tudo, o curta, dirigido por Nikita Ordynskiy e produzido por Liliya Tkach, capta o cerne da genial obra de Pope: como é intricada a tarefa de mediar coração e mente, especialmente em um ambiente hostil, onde o próximo se torna um mero objeto, destituído de sua identidade por causa de linhas desenhadas sobre um mapa.

Em tempos de muros e abusos truculentos, Papers, Please nunca me pareceu tão poderoso quanto agora. Seu curta-metragem pode ser assistido no YouTube, disponível acima.

Author: Luiz Roveran

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.

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