Análise | Yakuza 6: The Song of Life

Além de ser um famoso conjunto de organizações criminosas, a Yakuza é uma das fontes de inspiração mais encantadoras do audiovisual no século XX. Cineastas japoneses dos anos 1960, como Masahiro Shinoda (Flor Seca) e o recém-finado Seijun Suzuki (A Vida de um Tatuado, A Marca do Assassino), deram vida a inúmeros melodramas baseados nesse submundo paternalista.

“A Vida de um Tatuado” (1965), de Seijun Suzuki. Fonte: Row Three

Foi com esse repertório em mente que comecei a jogar o último título da série YakuzaThe Song of Life. De antemão, confesso que essa foi minha introdução à franquia, embora conhecesse bastante de sua natureza (valeu, King!), fato que não me impediu de me conectar com a trama e todo seu contexto.

Diorama japonês

Para um navegante de primeira viagem como eu, Yakuza 6 me proporcionou um retrato cativante de dois lados do Japão contemporâneo. O game se passa em dois locais do país: Kamurocho, um fictício distrito da luz vermelha de Tóquio, baseado na região de Kabukicho; e Onomichi, uma pequena cidade portuária próxima de Hiroshima — esta, real.

Kamurocho é estimulante. A vida noturna do bairro proporciona uma esbórnia audiovisual com o pulsar de suas luzes, as vozes na rua e os sons dos mais variados estabelecimentos: você pode escolher jogar clássicos da Sega nos fliperamas, provar da variada culinária oferecida para recuperar o HP perdido em uma briga de rua — eita alimento sagrado! — ou buscar companhia nos peculiares hostess clubs.

Tem até quem faça pose para as fotos em Yakuza 6.

Onomichi, por sua vez, atende às expectativas de quem procura por pacatez e contato com a ancestralidade. Em diversos de seus pontos, pode-se encontrar pedras inscritas com haiku de grandes nomes da poesia japonesa, como Bashō (1644-1694) e Natsume Sōseki (1867-1916). Suas ruas são vazias, tomadas por residências e pequeno comércio.

Nesse aspecto, tive uma incomum satisfação, para um jogo de ação, em explorar cada canto dessas cidades e prestar atenção à sua arquitetura e características: a opção por caminhar em primeira pessoa é especialmente feliz aqui. Reconheci estilos que havia visto nos filmes, consegui ler um ou outro letreiro e pude ter um lampejo de como a sociedade japonesa, pelos olhos dos desenvolvedores do game, encara temas como entretenimento, idade, globalização e sexualidade. Um diorama digital.

As construções são reproduzidas com fidedignidade às suas inspirações. Pessoalmente, um aspecto que me impressionou muito foi o capricho na ambientação sonora de cada lugar. Ao me aproximar de pontos-chave em Kamurocho, como os fliperamas, camadas de sons característicos são adicionadas ao rumor urbano. O cuidado permite ao jogo oferecer um ambiente com mais possibilidades de imersão do jogador.

Pais e masculinidade

A morte é um velho conto, mas é sempre novo para cada pessoa. — Ivan Turgueniev, “Pais e Filhos”

Como abordei no início do texto, histórias de Yakuza são comumente permeadas por um aspecto dramático intenso: mortes, contendas familiares, discórdias e amores se reúnem sob o mesmo teto. Nesse sentido, os filmes de crime ocidentais, como os de Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, bebem de uma fonte parecida.

Yakuza 6 segue essa fórmula. Aqui, encontramos o protagonista Kazuma Kiryu, o Dragão de Dojima, disposto a se sacrificar a qualquer custo para deixar seu passado criminoso para trás e trazer paz a seus entes amados — embora um sem-fim de fatores se coloquem entre ele e seu objetivo.

Kiryu é um personagem intenso, multifacetado e fiquei curioso para conhecer seu passado nos outros games da série. Em The Song of Life, ele assume a figura de um pai protetor, carregando consigo todos os sentimentos relacionados ao cuidar de um filho.

BIRL!

Por ter passado um bom tempo na cadeia, como é mostrado logo no começo do game, o protagonista perde o contato com o mundo. Seu reaprendizado e ressocialização nos proporcionam momentos tanto cômicos — sua dificuldade com tecnologia vai lembrar a muitos jogadores de seus próprios pais —quanto amáveis. Essas características tornam Kiryu em um bruto enternecido e carismático.

Ainda nesse sentido, o título se presta claramente a mostrar diferentes lados da paternidade: há o pai ausente, o pai rejeitado, o pai que nunca amou, o pai severo, mas piedoso. Suas qualidades determinam suas ações no game e, subsequentemente, seu próprio destino. Yakuza 6 é um jogo extremamente masculino, tal qual a sociedade em que se situa.

Contudo, um aspecto que não contribui para a transmissão de todo o sentimentalismo que envolve a trama são as animações faciais de seus personagens. Seguindo uma linha influenciada pela cinematografia — usando-se de muitos planos frontais e em close-up —, diversas cenas de Yakuza 6 perdem força dada a inépcia de seus personagens em transmitirem suas emoções com seus rostos quase como engessados.

Há momentos de vazão à tensão dramática, claro. O game possibilita ao jogador realizar muitas side quests — algumas mais sérias, outras, hilárias. Nos momentos cômicos, o título se rende muitas vezes ao absurdo, geralmente colocando Kiryu em situações desconfortáveis e que, costumeiramente, acabam em resoluções violentas. Aqui, o game cumpre seu papel com mais destreza.

E mais masculinidade

Não à toa, The Song of Life recorre tanto ao combate como sua mecânica principal de avanço na história. Suas lutas, sempre corpo-a-corpo, representam a instância máxima da masculinidade exacerbada do game.

Não há uma preocupação do jogo em se levar a sério nesses momentos, o que é saudável. Kiryu recorre a objetos em cena, como bicicletas, tijolos e cones de trânsito, para acertar seus oponentes. Suas acrobacias são estonteantes. Um paralelo óbvio pode ser feito com Sleeping Dogs, publicado pela Square Enix, embora a aventura de Wei Chen seja um pouco mais comedida e seu sistema de combate seja mais diversificado.

Embora o aprendizado de suas mecânicas de enfrentamento não seja difícil, é válido notar que não consegui fazer desabrochar todo seu potencial. No sistema de crescimento do personagem, vi que há muitos golpes que nunca consegui ativar — ora pelo uso dos quick-time events, ora pela falta de situações que possibilitassem seu uso.

Fim de um ciclo

The Song of Life representa o fim de Kazuma Kiryu como protagonista de Yakuza. Embora, como fiz questão de reiterar, não tenha acompanhado essa trajetória desde o início, pude sentir a falta que o Dragão de Dojima fará à franquia.

O melancólico e melodramático Yakuza 6, no entanto, abre portas para iterações futuras. O game serve como uma introdução acima da média a novos jogadores e, imagino, deve agradar aos entusiastas. Há um balanceamento saudável da ação frenética da trama principal com as inúmeras interações e divertimentos que suas cidades proporcionam, levando-me a crer que a obra pode ser apreciada democraticamente por todos os gostos.

Author: Luiz Roveran

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.

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