Análise | Wulverblade

Antigas lendas se mesclam com História em um beat em up de mecânicas clássicas. A Bretanha celta ganha vida numa história cheia de sangue e coragem em um jogo que só precisava balancear um pouco mais informação e contexto.



Caledônia, uma terra resistente.
Em 43 d.C. Tibério Claudio Cesár Augusto Germânico (agora respira…), então imperador de Roma, resolveu firmar sua supremacia ao estender os domínios do seu império por meio da conquista da Bretanha. Apesar do seu sucesso no domínio dessa região, os 350 anos de domínio romano nunca foram tranquilos.

Havia ali uma região chamada Caledônia, onde um grupo de “bárbaros” oferecia feroz resistência ao avanço da guarda pretoriana. Este povo formado principalmente por fazendeiros e construtores deram muita dor de cabeça às forças romanas.

Não é à toa que aquele lugar tenha virado a Escócia depois…

É nesse cenário que Caradoc, Brennus e Guinevere, decendentes dos Wulver, lutam ferozmente para impedir que as sanguinárias forças da 9ª Legião invadam suas terras sagradas. Entre sangrentas batalhas e poderes lendários, os guardiões do norte irão descobrir uma força que nem mesmo eles imaginavam possuir.

Um brawler quase “às antigas”.
Wulverblade deixa bem clara a sua intenção em ser um brawler clássico. As mecânicas base estão todas ali: um set de personagens com características distintas, chuva de inimigos variados que não te deixarão descansar e um gameplay frenético típico de um jogo do estilo.



Como jogador nostálgico de beat’em ups, foi quase como voltar a andar de bicicleta após muitos anos. Sempre tive dificuldades ao tentar jogar títulos mais novos desse estilo pois as atualizações na jogabilidade constantemente me deixavam com a sensação de um jogo não muito fluido (talvez só seja velhaquice minha mesmo.) Aqui, esse trabalho de atualização em mecânicas é feito de forma equilibrada, com pequenas mudanças pontuais que não influenciam a experiência de forma drástica.

Ataques fortes e fracos, saltos, esquivas e bloqueios. Poderes especiais… frango e maçã no meio do caminho para recuperar HP! É possível manter a carnificina da batalha ao encaixar sequências de ataques e inimigos consecutivos em um kill streak desenfreado.

O sistema de ataques fortes se baseia no uso de armas específicas encontradas durante as fases, cada uma com sua própria história e habilidades especiais. O combate é combustível para um dos poderes especiais do jogo: um modo berserker onde você praticamente vira uma máquina de batalha invulnerável. Não está satisfeito? Invoque uma matilha de lobos que dilacera qualquer inimigo no campo de batalha.

Detalhe que aqui o estúdio não economizou na sanguinolência. Em Wulverblade, desmembrar legiões e usar suas cabeças como arma é “apenas mais um dia” na vida de um guerreiro. Bem como estraçalhar seus inimigos com uma pá (um dos melhores sound effects do jogo).



Ainda assim o sistema de combate não é redondo, pequenos problemas em comandos de esquivas e rolamentos podem travar a resposta do jogador. Há um delay ao mudar de orientação durante o combate que, se não planejado, pode facilmente deixar as costas do seu personagem à mercê das legiões pretorianas. É preciso calcular bem suas opções ao combater um número muito grande de inimigos.

Mas o que tira Wulverblade da categoria de mecânicas clássicas de um brawler (e isso sem ser um demérito) é exatamente a forma como o estúdio uniu gameplay e história.

Um trabalho de Pesquisa Histórica
A atmosfera de Wulverblade bebe de uma infindável e rica fonte. Para contar a história de Caradoc e da invasão romana à Bretanha, Micheal Head, Lead Designer do jogo, mergulhou fundo no mundo dos Bretões, usando toda essa base não só para o enredo em si, mas em toda a narrativa visual, sonora e game design do jogo.

Cada item, som, modo de agir dos personagens e cenários possuem base em material detalhadamente pesquisado para referência. Da reprodução fiel de cenários históricos ao uso de som diegético extraídos de locações reais, Wulverblade cria um portal entre ficção e realidade ao contar sua história, trazendo sempre informações adicionais sobre tudo aquilo que é encontrado durante o gameplay.

O combate segue fielmente estilos de luta da época (com aquela dose adicional épica.) É perceptível a diferença entre cada legião enfrentada, com um comportamento muitas vezes estratégico.
O jogo oferece uma tonelada de informações adicionais que podem ser coletadas durante o gameplay. Seja na forma de textos, imagens, vídeos e esquemáticos. Foram anos de trabalho de pesquisa para montar todo o pano de fundo.

O embasamento histórico de Wulverblade enriquece a obra como um todo, mas muita coisa é apresentada de forma não contextual, o que pode acabar afetando um pouco a imersão. Considerei várias vezes o material demasiadamente enfadonho (quem já não parava pra ler livro em Skyrim não vai fazê-lo agora jogando um brawler).

Desenvolvimento Visual
A arte de Wulverblade é por si só algo tão interessante quanto seu embasamento histórico. Foram muitas técnicas envolvidas para tornar a estilização do jogo  algo conciso. A identidade visual é homogênea em todas as fases do game, onde o estilo cartunizado faz parte do próprio elemento narrativo. Wulverblade usa essa estilização intencionalmente, criando um aspecto visceral para cada ponto de emoção e ao mesmo tempo suavizando onde a violência pudesse se tornar algo “exagerado demais”.

O uso do cel-shading por quem soube o que estava fazendo permitiu uma harmonia entre arte e composição de cena que favoreceu muito a implementação de uma sensação 3D num ambiente 2D. Da mesma forma, a técnica de animação bem aplicada permitiu dinamismo tanto na ação quanto em cutscenes.

Ainda há uma leve e sensação de dureza em algumas animações, perceptível principalmente nos personagens mais pesados. Algumas vezes por questões de sobreposição entre planos, certas informações podem se perder na tela, mas nada que estrague a experiência como um todo.

Dois pesos, duas medidas.
É na balança entre história e gameplay que Wulverblade falhou e acertou. Todo o aspecto visual está fortemente ligado à referências pesquisadas com dedicação e paixão, mas nem todo o enxerto da história se baseia num contexto aplicado no ambiente do jogo e muitas vezes o jogador vai sentir essa transição brusca.

Alguns vão achar a campanha curta, embora o autor deste texto a ache “na medida”. O jogo ainda conta com modos de gameplay adicionais para balancear o conteúdo. É exatamente no excesso de conteúdo histórico que Wulverblade ficou com um “sobrepeso”. E não é pela questão deste material estar ali e sim até onde não teria sido válido expandir mais um pouco a experiência de jogo na mesma medida.

O legado dos Wulver
Wulverblade honra duas coisas de forma satisfatória: o legado dos brawlers e a interessante história da Bretanha. Faltou pouco para uma melhor simbiose entre estes dois fatores. Um jogo bem lapidado e repleto de camadas a descobrir.

Wulverblade está disponível para STEAM, PS4, Xbox One e Switch.
wulverblade.com

Author: Adelson Tavares

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