O que é “Metroidvania”?

Ultimamente a cena indie tem lançado um título seguido do outro com o rótulo de metroidvania. Eu conheço e amo esse subgênero há anos e inclusive já pude até escrever aqui no Pulo Duplo sobre Sundered e Dead Cells, recentes exemplos do estilo. No entanto, o que estava me incomodando, é que talvez o pessoal mais jovem estivesse pelo menos um pouco perdido nessa história.

A começar pelo nome – que um seguidor do site perguntou o que era algum tempo atrás, motivando este artigo. Metroidvania é mistura do estilo de jogo de dois games clássicos: Metroid, da Nintendo e Castlevania, da Konami. Para os mais velhos e/ou mais viciados em games essas séries são canonizadas, mas para muita gente a revelação na E3 deste ano de um novo Metroid para 3DS não traz os mesmos sentimentos. Castlevania, com poucos títulos de sucesso já há alguns anos, pode muito bem ficar mais conhecido entre os mais jovens pela nova série no Netflix do que pelo legado dos jogos.

Mas o que faz esses dois jogos serem tão significativos que Deus e o mundo fazem questão de emular seu estilo até hoje? As palavras-chave aqui são: “exploração não-linear” e “progressão baseada em upgrades”.

Origens

O Metroid original nasceu no NES em 1986 e sua inspiração foi o também clássico Legend of Zelda original, em que o jogador podia explorar o mapa conforme desejasse e o acesso a novas áreas dependia do jogador descobri-las e ter as habilidades certas do personagem.

Samus, a protagonista da série Metroid, explora um ambiente 2D que se expande em todas as direções num estilo de tiro e plataforma. Novos tipos de armas e poderes trazem sempre novas formas de interação com o cenário e exporação. A mais famosa e clássica das habilidades de Samus é provavelmente a Morph Ball, que permite que a caçadora de recompensas se transforme numa bolinha e role por passagens estreitas.

Os diversos upgrades, unidos a um level design de altíssimo nível fazem da série Metroid uma das mais respeitadas e amadas da história dos games. Super Metroid, para o SNES – talvez o título mais elogiado da série – é figura carimbada em listas de “melhores jogos de todos os tempos”, além de cativar fãs até hoje.

Castlevania, por sua vez, se estabeleceu no NES como um game de ação e plataforma inclementemente difícil. A geração que cresceu jogando NES provavelmente não ficou assim tão abalada quando ouviu falar de Bloodborne e Dark Souls, pois games como Castlevania, Ninja Gaiden e Battletoads já haviam dado traumas o suficiente para a molecada.

Castlevania era baseado em fases contidas em si mesmas, só tendo experimentado com não-linearidade em Castlevania 2: Simon’s Quest. Somente em 1997, com Castlevania: Symphony of The Night para PSONE, que Koji Igarashi e sua equipe abraçaram conceitos também inspirados pela série Zelda.

Symphony of the Night trazia não só um mapa imenso como a possiibilidade de explorá-lo uma segunda vez de cabeça para baixo, numa versão mais desafiadora e grotesca. Além disso, armas e equipamentos podiam ser pilhados dos inimigos ou comprados, adicionando outra camada de profunidade ao gameplay. O bom e velho grinding (sabe quando você mata mil monstros para ganhar XP num RPG? Isso é Grinding) por níveis de experiência também foi adicionado e, francamente, equipar e evoluir para causar cada vez mais dano aos inimigos é divertido pra caramba.

Da união dessas duas maravilhas é que vem o termo Metroidvania. O gênero também é chamado às vezes de Igvania, em homenagem a Koji Igarashi, criador de Castlevania. Por ser um gênero baseado no side-scrolling 2D, muitos desenvolvedores indie aproveitam para criar experiências focadas em gameplay e level design, que não necessitem de tão grandes investimentos em gráficos avançados.

 A grande família

Vários exemplos maravilhosos de Metroidvania existem em todos os consoles, vamos agora a alguns deles para saciar sua vontade:

Cave Story

Cave Story foi criado inteirinho por Daisuke Amaya como homenagem a Metroid e outros games clássicos. O game foi amplamente bem recebido e foi um dos marcos da chamada revolução Indie do começo dos anos 2000. Os gráficos retrô são lindos, os controles são ágeis e divertidos e a exploraçao de cada buraco do mapa incentiva alto replay.

Metroid Prime

Muitos fãs da série ficaram com a pulga atrás da orelha quando a Nintendo anunciou uma versão 3D em primeira pessoa de Metroid. Parecia absurdo traduzir uma jogabilidade 2D para um ambiente tão diferente. Uau…nós estávamos errados! Metroid Prime e suas duas sequências são alguns dos jogos mais bem feitos e respeitados da história dos videogames e com o anúncio de Metroid Prime 4 em desenvolvimento para o Nintendo Switch, vale muito a pena conferir onde a série começou.

Rogue Legacy

Caso você seja fã de rogue-likes (um subgênero que talvez mereça um artigo como este aqui) e também queira sentir a experiência Metroidvania, Rogue Legacy é perfeito para você. O game é abertamente inspirado em Castlevania, mas usa um cenário aleatoriamente gerado para mudar a experiência a cada sessão de jogo. A morte é frequente e o progresso a conta-gotas, mas a fluidez dos controles e o bom humor geral do game tornam a experiência viciante.

Hollow Knight

O nível de qualidade da ambientação e estilo de Hollow Knight impressionam à primeira vista. O game usa gráficos 2D que dão a sensação de controlar um longa desenhado à mão e a trilha sonora de altíssima qualidade só reforça a imersão na exploração do mapa gigantesco. Um dos melhores metroidvanias (e um dos melhores jogos em geral) que já vi, sem dúvida.

Dead Cells

Assim como Rogue Legacy, Dead Cells usa elementos dos rogue-likes para modificar o estilo metroidvania. Prepare-se para morrer e muito enquanto destrava novas armas e habilidades para desbravar cenários que são gerados a cada tentativa e recheados de inimigos mortíferos. Pense em Metroid+Dark Souls e você vai começar a se preparar para o desafio de Dead Cells.

Sundered

Atualmente em pré-venda no Steam, Sundered é um metroidvania dos mesmos criadores do famoso indie Jotun. Com lindíssimos gráficos desenhados à mão e um roteiro sombrio, o game parece ser brutal e difícil, contando com as batalhas contra chefes colossais que destacaram a desenvolvedora Thunder Lotus. Leia mais sobre Sundered em nossa prévia aqui.

Ori and the Blind Forest

Com gráficos, trilha sonora e história de chorar de emoção, Ori é outro exemplo lindíssimo de como o subgênero metroidvania tem bons frutos. Com a sequência, Ori and the Will of the Wisps, chegando em breve para Xbox One e PC, é um ótimo momento para se juntar ao hype e jogar o game original.

 

 

 

Author: Daniel Soares

Historiador cultural. Geek de games, quadrinhos, filmes, RPG, manga e outros. Levemente dissociado da realidade. Viciado em abacaxi.

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