O que está acontecendo na Konami?

Hideo Kojima e Konami são dois nomes que têm aparecido frequentemente em manchetes do jornalismo especializado pelos piores motivos, infelizmente. Embora minha vontade fosse de que o caso fosse simples e pífio como a coluna de primeiro de abril que escrevi aqui, o buraco parece ser muito mais embaixo.

UMA RECAPITULAÇÃO

mgs metal gear corpo

A descida da colina iniciou no dia 19 de março, quando a Konami removeu o nome de seu desenvolvedor-estrela do título de Metal Gear Solid V: The Phantom Pain. O burburinho começou a se alastrar sobre um possível afastamento de Kojima da gigante japonesa. Mais tarde, contas oficiais da franquia de espionagem em redes sociais avisavam a todos que Hideo participaria do game até o fim de sua produção.

Desde então, mais lenha foi para a fogueira. Rumores de cisma entre a Konami e a Kojima Productions afloraram nas redes. Em artigo do Gamespot, por exemplo, uma fonte anônima passou ao site especializado que o contrato de Hideo Kojima com a desenvolvedora havia sido alterado para assumir caráter de prestação de serviços – terceirizados. O acordo, supostamente, deve findar em dezembro deste ano. Além disso, o acesso a meios de comunicação pela equipe de Kojima teria sido restringido pela alta cúpula da Konami.

SILENT HILLS OFICIALMENTE CANCELADO

P.T. PT Silent Hills

Silent Hills tornou-se um dos jogos mais aguardados do PlayStation 4 graças ao lançamento de seu aclamado teaser jogável, intitulado ‘P.T.’. Desenvolvido por Kojima e equipe em parceria com o diretor de cinema Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno), o game daria continuidade à famosa série de terror da Konami e contaria com Norman Reedus, o Daryl da série The Walking Dead, como ator.

Com as reviravoltas anteriormente citadas acerca de MGS V, gerou-se certo medo sobre um possível cancelamento do outro grande projeto de Kojima. Temor este que se concretizaria.

Em 25 de abril, uma nota foi publicada no site oficial de P.T., avisando jogadores que o teaser seria retirado da prateleira virtual da PSN no dia 29 de abril. 

Ontem, 26 de abril, publicou-se por aqui a afirmação de Del Toro em que diz que o game de terror não seria mais lançado. Hoje, em resposta ao Kotaku, a Konami confirmou o cancelamento do aguardado título:

A Konami está comprometida com o lançamento de novos títulos da série Silent Hill, entretanto, o projeto embrionário ‘Silent Hills’, desenvolvido em parceria com Guillermo del Toro e com a participação especial de Norman Reedus, não terá continuidade.

Em termos da relação de Kojima com Del Toro, discussões acerca de futuros jogos de Silent Hill estão atualmente em progresso, favor manter-se atentos a anúncios futuros. 

Outra notícia que tomou as redes especializadas hoje foi a retirada voluntária da Konami do mercado de ações de Nova Iorque. Segundo a companhia, quase toda movimentação de ações da empresa ocorreu nas bolsas de Tóquio e Londres no último ano. Retirar-se da Big Apple seria uma manobra de corte de gastos. O custo de manutenção da Konami no mercado americano, segundo o artigo do Polygon colocado antes, giraria em torno de cinco milhões de dólares.

AFINAL DE CONTAS, O QUE ACONTECE POR TRÁS DAS CORTINAS DA KONAMI?

Konami corpo

Não é possível saber com absoluta certeza, afinal, ainda preza-se pelo jornalismo neste portal. No entanto, uma análise é perfeitamente cabível.

O mercado de videogames tem dado sinais de mudanças. Grandes empresas como Square Enix, Capcom, Sega e, mais recentemente, a Nintendo, demonstraram recentemente investimentos e interesse em plataformas mobile. As razões, economicamente, são claras. O custo de produção é mais barato e o retorno financeiro é enorme, basicamente.

Hideo Kojima tem um histórico de ser um desenvolvedor caro. O custo de produção de um título da série Metal Gear Solid é facilmente visível ao jogá-lo. A Konami optou pelo silêncio ao ser questionada sobre o gasto com MGS IV. Estimava-se à época que o game teria demandado 60 milhões de dólares à empresa para ser elaborado. George Weidman aponta em vídeo que as vendas de Snake e companhia têm declinado a cada novo jogo:

É válido atentar que Metal Gear Solid é uma série com uma história em estado avançado de desenvolvimento, coisa que se agrava com a enxurrada de informação escolhida por Kojima como forma narrativa do game. Neste momento, Metal Gear é atraente ao nicho composto por seus fãs – grande, sem dúvidas, mas mercadologicamente menos significativo do que públicos-alvos mais amplos. Além disso, sabe-se que a saga de Snake, pela vontade de Hideo Kojima, deveria ter findado no segundo título da série. O fim da linha para Metal Gear Solid, pelo menos nas mãos de seu criador, parece inevitável.

Dado o panorama de cortes de gastos na Konami, o alto preço de Kojima e a alternativa rentável do mercado mobile, pode-se considerar que uma grande mudança nas decisões da empresa está em vias de ocorrer. Algo que não afetará somente Hideo e equipe, mas todo quadro de funcionários da desenvolvedora japonesa. De forma geral, o caso pode servir como aviso de que o modo de produção para consoles de videogame possivelmente venha a sofrer enormes alterações também – lembremo-nos da década de 1980, da Atari, da crise dos jogos eletrônicos e de sua ressurreição com Sega e Nintendo encabeçando vendas e desenvolvimento de aparelhos e games. Reconfigurações acontecem.

Author: Luiz Roveran

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.

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