Análise | Dragon Age: Inquisition – RPG cinco estrelas

Esperei ansiosamente por Dragon Age: Inquisition. Muito mesmo. Não lembro a última vez que me senti tão impelido de jogar algo. O mais surpreendente é que, mesmo com meu hype a níveis bastante perigosos, o game atendeu a todas as minhas expectativas e me fez perder horas de sono, mesmo com trabalho cedinho no dia seguinte.

Criação de personagem
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Contemplem o esplendor de Kellamyin, o elfo feio

A começar pelas minúcias: o jogo está repleto delas. Já na criação de personagem, o apego da equipe da BioWare aos mínimos detalhes me fez passar um tempo considerável no processo de montagem do meu novo toddynho companheiro de aventuras. Senti falta de também poder mudar seu corpo e de mais opções de vozes, mas o fato de eu querer criar o elfo repleto de particularidades e feio que eu costumo fazer em RPGs fantásticos me deixou bastante feliz. A cicatriz de Kellamyin (meu personagem) finalmente estava no lugar certo e tinha profundidade; não era mais somente um arranhão no rosto.

Essa atenção se estendeu a todo o mundo de Thedas. Os cenários estão lindíssimos, com texturas extremamente bem definidas e uma iluminação que realçava o que devia ser destacado: a beleza dos ambientes. Desertos eram desertos e florestas tinham vida, com vilarejos que pareciam saídos da minha própria imaginação. Havia musgo entre as frestas das pedras dos muros. O couro das botas tinha os pequenos sulcos e o metal brilhava (talvez até demais) perto da tocha. As poças de água agitavam quando o dragão pisava no solo e ficavam eletrificadas quando ele lançava bolas elétricas em minha direção. Era lindo demais, pelamordedeus!

Iluminação
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A iluminação é um dos fantásticos detalhes gráficos do jogo

Contudo, a história, embora divertida, não é nada sensacional, e é quase um processo natural que você a deixe de lado um pouco para fazer as diversas missões secundárias que há aqui. Embora você tenha que fazer algumas delas para evoluir na trama, visto que é necessário ganhar pontos de Poder para habilitar certas áreas, o grande vilão não é alguém que impõe muito respeito e se torna mais legal ajudar os outros (especialmente seus companheiros) do que correr para derrotar o tratante. O velho esquema “ir em diversos lugares para recrutar aliados contra o mal supremo” é comum (até demais) nos títulos de RPG, especialmente os da empresa, e podia ser um pouco mais trabalhado.

Conforme o enredo evoluía, no entanto, o bagulho ficava louco. Em determinados momentos, as decisões que Kellamyin teve que tomar eram pesadas demais e a dúvida era cruel. Sempre que isso acontecia, eu demorava e demorava, realmente sem saber pra onde ir? “Caramba, e agora?” era o que passava na cabeça e eu demorei um tempo razoável para selecionar a resposta final. Além disso, alguns acontecimentos marcantes rolaram tão rápido e de forma tão espontânea que eu era pego de surpresa e reagia mais ou menos da seguinte forma (dica de segurança: abaixe um pouco seu volume):

Assim como a trama, seus parceiros da Inquisição também parecem evoluir com o tempo. Os personagens foram muito bem construídos, com personalidades fortes e bastante definidas. Eles crescem emocionalmente junto com seu herói e, embora estejam todos unidos para salvar Thedas, não necessariamente concordam com tudo que ele fala ou faz. Isso significa que será difícil você ser amigo de todos que juntou e, tão importante quanto, pode facilmente não gostar de alguns deles. Cole é um ótimo exemplo: quando aparece, aparenta ser um mano badass que, quando se conhece melhor, parece uma criança perdida que só quer ajudar os outros. À medida que as conversas avançam e das escolhas feitas, é perceptível seu amadurecimento. Até os companheiros citam isso durante as conversas que eles têm durante as viagens (uma coisa que eu adoro na série).

Mas três coisas me chamaram demais a atenção no game. A primeira é Orlais e, principalmente, Val Royeaux, finalmente retratada aqui e ainda melhor do que eu imaginava. O Jogo, como os membros da sociedade orlesiana chamam o cenário falso e ardiloso comum da nobreza, é maravilhosamente explorado e a missão em que mistura o Jogo com seu objetivo de encontrar pistas sobre uma possível trama de assassinato da Imperatriz Celene é ótima, por fugir do padrão “vamos matar todo mundo” e recolocar um toque político nesse RPG, algo inserido em Dragon Age II e trabalhado muito bem aqui.

Trono do Inquisidor
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Hall do trono do inquisidor

A segunda é o julgamento. Pode parecer algo simplório, mas que eu gostei demais pela representação do papel do Inquisidor, que beira ao de um rei. Ser o Inquisidor fodão não é somente sair por aí e matar seus inimigos, mas também ter de lidar com a “burocracia”. Não só isso, é decidir o destino de outros. É ter o poder de inimigos (e de aliados) em suas mãos. Prender, recrutar ou executar alguém pode não interferir na jogatina, mas influencia seu governo e em como você é encarado pelos companheiros. Melhor, exerceu um peso grande sobre mim, pois eu era o líder da Inquisição, e eu queria ser justo.

Por fim, a música. Quando cursei Crítica de Videogames com a Flávia Gasi, uma frase dita na aula sobre áudio fez todo o sentido na minha cabeça: “a música de um jogo é boa quando você para pra escutar”. Toda vez que eu entrava na taverna em SkyHold, eu realmente prestava atenção na música, mesmo que estivesse de passagem. Sempre. Várias vezes tocava a canção de Sera, que, não por acaso, era o local em que ela ficava (“Sera was never quite the wealthiest girl / Some say she lives in a tavern“). A melodia alegre e a letra brincalhona eram a marca registrada da garota, e eu logo lembrava que sairia um monte de maluquices da sua boca.

Claro que nem tudo é perfeito em DA:I. Mesmo que eu não tenha pego muitos deles, os bugs roubaram um pouco a cena pra vários outros jogadores e atrapalharam o andamento e a imersão. Corpos e livros flutuavam acima de nossas cabeças, itens que não podiam ser pegos e alguns teleportes bizarros quando uma ou outra habilidade era usada são exemplos de problemas que tive. Isso e o dragão que ficou louco e “dançava” feliz enquanto eu o massacrava com flechas. Por sorte (ou azar), ele voltou ao normal pouco tempo depois e a surra que ele nos dava recomeçou. Mas nosso amigo Tulkas, aqui do Pulo Duplo, sofreu um pouco mais. O jogo bugou na fase final duas vezes, a ponto de ele ter que fechar e reabrir pra ver se conseguia avançar novamente.

Além disso, o fato de o vilão não ter lá aquele jeito de adversário brutal superpoderoso não me motivava tanto a continuar a história, como eu disse, e acarretou em um detalhe que não pensei que iria sofrer com a obra: o sentimento de “estou fazendo coisas demais sem motivação para isso”. Não estranhe: boa parte das missões secundárias são boas e têm uma correspondência com o enredo e/ou com seus companheiros, mas talvez DA:I tenha side quests demais, e isso te desvirtua muito das principais. Quando eu cheguei na última fase, não queria finalizar o jogo, mas também estava um pouco farto de fechar fissuras e coletar fragmentos. A boa notícia é que, em meio a isso, sempre aparecia algo foda – tipo dragões – que trazia minha empolgação de volta, como reivindicar fortes (pqp, como isso é ótimo!) e lutar contra dragões, e me fazia voltar a explorar, mesmo sabendo que poderia ter um período chato até encontrar a próxima coisa foda (já mencionei dragões?).

Dragões
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Dragões extremamente detalhados (e difíceis) são um dos pontos altos do jogo

Quando finalmente zeramos, o desejo de voltar a Thedas persiste, mas, caso não queira perder tanto tempo da sua vida criar outro jogador de imediato, há também um modo multiplayer, pela primeira vez na franquia. Este, por sinal, foi uma boa sacada da BioWare, por não ser algo tão hardcore (não há troféus para esse modo, por exemplo), mas que diverte. Ele é um cooperativo de até quatro jogadores que exploram um cenário (inicialmente, apenas três estão disponíveis) e cumprem determinados objetivos. O legal é que os objetivos variam à medida que você progride na fase, como defender alguém, pegar relíquias ou matar todos os inimigos da área. Você começa com três opções de personagens, mas pode desbloquear outros nove ao achar itens para isso e, assim como no single player, você também pode fabricar e aprimorar armas e armaduras, ou comprar na loja com o ouro que acumula das missões. Há, inclusive, uma opção de transação com dinheiro real, em que você adquire platina. Não há, no entanto, produtos premium: a platina funciona apenas para “economizar tempo”, segundo a desenvolvedora.

Mas não, o coop não supre a vontade de liderar a Inquisição. Os bugs não afetam nossa alegria de tomar fortes. O fraco vilão não diminui as conversas engraçadas entre os companheiros. Quero voltar a enfrentar dragões, ver o oásis do deserto e ter pequenas alegrias ao me deparar com personagens menores dos jogos anteriores (lembra de Dagna?). Se essa é sua primeira vez em Thedas, você pode não se entusiasmar tanto, mas deve curtir bastante. Contudo, se é seu retorno a esse mundo, tenha certeza de que vai adorar. Eu, Kellamyin e meus outros dois personagens garantem: Dragon Age: Inquisition é cinco estrelas.

Author: Marco King

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.

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