Análise | South Park: A Fenda que Abunda Força

Assim como Sombras da Guerra, South Park: A Fenda que Abunda Força chegou na tentativa de superar um predecessor que surpreendeu positivamente os jogadores. Não apenas isso, o jogo tinha a tarefa de manter o tom irreverente e politicamente incorreto da série animada, trabalho esse facilitado por ter mais uma vez Trey Parker e Matt Stone envolvidos no projeto.

De fato, a obra começou a agradar antes mesmo de seu lançamento. Após a pegada de RPG medieval do jogo original, a Ubisoft e a Obsidian Entertainment acertaram na escolha da temática. Super-heróis sempre fizeram parte do imaginário dos jogadores do gênero e aproveitar a “guerra saudável” (às vezes, não tanto por parte dos fãs) das atuais produções cinematográficas de Marvel e DC.

A escolha traria inevitavelmente algumas alterações na mecânica, em especial pela forma como os novos poderes e itens deveriam ser mostrados ao público. Com isso, além de alguns efeitos de combate que se mantiveram, como Enojado e Fogo, outros surgiram para demonstrar as capacidade sobre-humanas dos heróis, como Congelado e Choque. [ERRATA: congelamento e choque já existiam no Stick of Truth, usando itens ou runas nas armas. Eu esqueci desse detalhe. Parabéns para mim.]

Fora essa novidade, o combate está pouco diferente. Existem algumas mecânicas a mais, a exemplo da Microagressão (que aparece após o surgimento do Diretor PC), e itens especiais que podem lhe dar um auxílio e tanto na hora do aperto, mas só podem ser utilizados uma vez por combate. No entanto, a jogabilidade permanece bem conhecida tanto por jogadores do Stick of Truth quanto por fãs de combates por turno.

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Como não poderia deixar de ser, alguns desses combates são épicos de tão divertidos. A Bootay, por exemplo, traz algo diferente para o jogo por ser um oponente tão “poderoso” que deve ser evitado a todo custo e fugir dele rapidamente. Caso seus aliados acabem no alcance do seu “popozão”, é morte instantânea. Vale destacar também a batalha contra os padres pedófilos, tão engraçada quanto politicamente incorreta.

Infelizmente, A Fenda que Abunda Força perde muito poder ao deixar de lado o uso da metalinguagem presente no game original. Graças aos poderes dos personagens, as armas foram deixadas de lado e, desse modo, não temos espadas como a Vibrolâmina e o Míssil da Lentidão. Enquanto o jogador vê um vibrador e uma bolinha de neve, no imaginário das crianças, eles viram poderosas armas na luta contra o mal.

O mesmo acontece com os consumíveis. Enquanto em Stick of Truth tínhamos poções de cura que eram, na verdade, biscoitos e batatinhas, temos agora burritos e enchiladas, que são mesmo burritos e enchiladas. Embora seja algo aparentemente banal, o jogo perdeu um pouco a personalidade para mim.

Itens de fabricação se acumulam no inventário e são um bom modo de conseguir dinheiro

A questão das comidas mexicanas levanta outro ponto: o de como A Fenda que Abunda Força tem pouca força em suas piadas. Sem dúvidas, temos momentos bem engraçados, porém as brincadeiras que envolvem peidos são frequentemente usadas e tornam-se ignoráveis. Outras piadas acabam repetidas à exaustão, como o aparecimento do primo do Kyle em diversas lutas, e mais irritam do que divertem. E ainda existem aquelas em que um conhecimento prévio da série é absolutamente necessário para que sejam engraçadam, como o caso dos caranguejos da D-Mobile ou de Jared, o cara do Subway.

Tudo isso, somado ao ritmo lento do início, pode afastar alguns apaixonados pelas brincadeiras de duplo sentido e críticas engraçadas do primeiro game. De fato, há poucos momentos que fazem você cair da cadeira de tanto rir, porém a felicidade de ver a manutenção da alma de South Park e suas piadas politicamente incorretas é o suficiente para agradar. Os personagens, sejam eles antigos ou recentes, continuam a respirar e trazer o que a série traz de melhor, o que implica em cenas bizarras e boas gargalhadas.

Muito disso é auxiliado pelo trabalho de som, atuação e visual. Mais uma vez, as vozes originais, incluindo os dubladores brasileiros (embora eu tenha minhas dúvidas sobre o do Stan), e o trabalho gráfico são os mesmos da série, então a fidelidade é totalmente mantida. Dá a sensação de participar de um dos episódios.

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Este mesmo sentimento auxilia na exploração dos cenários, também leais à animação. É divertido visitar as casas de South Park e encontrar inúmeras referências, como os colecionáveis yaoi do Tweek e Craig (episódio 6 da temporada 19) ou o Peixe Gay. Mesmo que não conheça muito, a exploração é incentivada pelos inúmeros itens que podem ser encontrados, sejam eles consumíveis, itens para fabricação ou novas peças de fantasia.

Existem ainda vários minigames espalhados por aí. Alguns são simples e divertidos como a roda da fortuna no banco, outros são frenéticos como a sequência de comandos das privadas – estes funcionam bem melhor no controle do que nos botões confusos do teclado -, mas há ainda diversos quebras-cabeça espalhados pelo mapa, que utilizam as habilidades de seus aliados para serem resolvidos. O último, por sua vez, é exageradamente utilizado na reta final do game, tornando uma mecânica interessante algo bem cansativo de fazer.

Porém, não foram apenas as coisas boas herdadas de seu predecessor. O novo título também possui muitos erros, especialmente depois da metade da campanha. Os combates sofrem de lentidão na transição de lutadores e, em algumas ocasiões, o jogo trava nessa passagem de um personagem para outro – as animações permanecem ativas, mas o turno seguinte nunca chega.

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Outro sério problema é a dessincronização das vozes – os personagens começam a falar sem mexer a boca e os diálogos acabam enquanto as animações ainda agem. Isso acaba com qualquer sentimento de imersão e tudo fica simplesmente esquisito por muito tempo. Além disso, o final termina de forma muito abrupta, uma decepção após tanto tempo investido – 20 horas, no meu caso.

Mesmo assim, South Park: A Fenda que Abunda Força é divertido e deve agradar especialmente aos fãs do desenho, com seu show de referências e fidelidade à série. Por outro lado, as piadas fracas e seu início lento podem afastar os menos pacientes, mas, uma vez dada a chance, o jogo recompensa com os conhecidos momentos politicamente incorretos da franquia. E o Mysterion ainda é o melhor herói de todos.

Author: Marco King

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.

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  • Jhennifer Mateus da Silva

    Eu particularmente estava muito animada para South Park 2, mesmo com os problemas que foi dito na análise, pretendo jogar!