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Análise | Fallout 76

Análises PC PS4 Xbox One
3

Negativo

Em meados das minhas quase 200 horas (segundo a Steam) de Fallout 4, eu tive uma decisão: recomeçar o game, do zero, no modo Sobrevivência. A modalidade, entre outras características, engloba a falta de opção da viagem rápida e ser obrigado a comer e beber para não sofrer com penalidades.

Quisera eu saber que isso me ajudaria a sobreviver por mais de 10 horas em Fallout 76.

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Solidão, que nada…

Fallout 4 tem vários defeitos, como cito na análise feita há pouco mais de três anos. Um deles é que, para um jogo tão focado na exploração, ultrapassar o limite de peso era uma constante. Muitas vezes, terminava abarrotado de coisas banais, como comidas ou munições que não utilizava. Porém, em várias dessas ocasiões, eu escolhia carregar todo o peso e sofrer com o caminhar sofrido do meu personagem para vender ou reciclar as coisas na cidade mais próxima. Na minha visão, todo aquele lixo era precioso demais.

Fallout 76 não me permite o mesmo pensamento. O limite de inventário e de armazenamento na base são pequenos o suficiente para não me dar esse luxo. Latas são lixo, bules de café são lixo, pratos de festa são lixo. Até mesmo a fita adesiva e a cola mágica, artigos que tanto valorizei no título predecessor, agora eram reciclados sem piedade.

Por outro lado, andar abaixo do limite de carga (com exceção da viagem rápida) não fazia diferença pois correr gasta meus pontos de ação no triplo da velocidade do que “trotar” quando pesado. Na maioria do tempo, você vai andar normalmente do mesmo jeito e, a julgar que o fast travel pode ficar bem caro em um mundo onde a economia é desvantajosa para o jogador, é o que mais fará – especialmente para uma pessoa que suporta andar feito uma tartaruga até uma cidade por 40 minutos (em tempo real).

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É isso que chamam de sandbox?

Uma das diversas características semelhantes a ambas as obras é o quão horrível pode ser o inventário. Encontrar um item específico é um trabalho hercúleo em uma abrangente lista de artigos. Para trocar ou vender esquemas de construção, por exemplo, é preciso um conhecimento prévio do que já foi aprendido, visto que não há nenhum tipo de ícone ou indicação ao jogador, a menos que ele vá até o inventário, procure o esquema e clique para estudar. Se ele não desaparecer, é porque é repetido.

A inteligência artificial falha também pode ser comparada, embora consiga ser ainda pior que a obra predecessora. Chamuscados se escondem no nada (provavelmente achando que deveria ter uma árvore na frente deles), supermutantes ficam parados sem qualquer cobertura apenas para mirar em mim, toupeiras que cavam buracos em concreto sem importar em que andar do prédio está. A diferença é que Fallout 4 possui níveis de dificuldade para aumentar a vida e o dano causado por esses oponentes e dar alguma emoção na sua jornada.

Outra similaridade encontra-se no “padrão Bethesda” de garantia de qualidade – vide bugs. Saliento aqui o termo “similaridade” porque, ouso dizer, o nível de defeitos gráficos, técnicos e seilámaisoquê de Fallout 76 extrapola os limites do aceitável até mesmo de títulos em beta (ou B.E.T.A., não é?). Paredes invisíveis, texturas mal processadas, péssima renderização, animações congeladas… Eu poderia passar muito tempo falando sobre elas, mas, como diz o ditado, imagens valem mais do que mil palavras.

O vídeo, criado pelo usuário TerakJK e reupado por outros canais como o acima, estourou na internet como reflexo do que é este game. Os fãs da série reconhecem facilmente vários bugs de títulos anteriores. Porque são. Fallout 76 usa os mesmos recursos e motor gráfico de Fallout 4. Por isso o inventário é a mesma porcaria. Por isso os bugs são reconhecíveis.

Fallout 76 é uma cacofonia dos piores momentos da série, protagonizadas por uma engine ultrapassada e um desleixo nunca antes visto por uma empresa dita “triple A”. É uma cópia – no sentido mais literal da palavra – oca feita por uma desenvolvedora que demonstra preguiça ao reciclar uma obra de qualquer maneira e ganância ao usar o nome de uma franquia renomada para ganhar dinheiro com catação de lixo virtual.

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Fallout 76 é uma cópia oca porque o V.A.T.S., na tentativa de adaptá-lo para tempo real, foi reduzido a um tiro (quase) certeiro com bônus de dano, já que não há tempo de escolher sua abordagem preferida de onde mirar.

Cópia oca porque o sistema de construção de acampamentos foi minimizado e retalhado. Não posso mais guardar livros e revistas em estantes. Monstros aparecem do nada no acampamento e não são raras as ocasiões em que, ao surgirem, ficam presos no terreno ou piso. Se alguém constrói um C.A.M.P. no mesmo lugar, meu acampamento desaparece e eu preciso construí-lo em outro – e encontrar outro ponto tão perfeito que coube a construção como uma luva pode trazer ainda mais raiva.

Oca porque os NPCs, com seus tantos dramas e sentimentos, foram reduzidos literalmente a robôs. As missões para entender o que acontece ao mundo e aos personagens foram rebaixados a “mate 10 chamuscados”, “colete 10 garrafas de cerveja” e “interaja com aparelho X” que, no fim, também pode estar bugado e você não pode completar a quest até que uma atualização de 15GB corrija o problema.

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Oca porque esses NPCs foram substituídos por pessoas reais. E elas não substituem NPCs. Pessoas te irritam ao falar aleatoriedades no microfone porque o jogo não tem um simples push-to-talk. Elas interagem com você por meio de emotes bonitinhos. Elas somam apenas um total de 24 jogadores por servidor, em um mapa gigantesco que, por esse motivo, parece sempre vazio, abandonado e chato.

Elas dificilmente fazem os eventos públicos juntas contigo, seja o evento cooperativo,  competitivo ou ambos. Elas são praticamente imortais quando você atira em seus corpos e cabeças porque o PvP (jogador contra jogador) só é iniciado quando revidam. Elas equipam suas melhores armas e uma power armor do nada e te matam com um tiro quando finalmente você cansa, vira as costas e se prepara para ir embora. Elas nunca entram na rádio que habilita uma missão de PvP para quatro pessoas. Resumindo, pessoas reais são um pé no saco.

Mesmo quando há a chance de um PvP rolar de verdade, não há qualquer motivação para acontecer. Não é possível ver as coisas legais do outro jogador porque só ficam as sucatas lá para pegar. O jogo não te premia por sobreviver enquanto procurado. Basicamente, enfrentar pessoas resume-se a gastar balas desnecessariamente.

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Alguém?

Oca porque não passa de um patch de multiplayer colocado em um jogo já lançado e, ainda assim, nem isso funciona. Eu e minha namorada passamos quase uma hora tentando formar uma equipe, sem sucesso. Os servidores no lançamento eram tão instáveis que era impossível jogar por mais de duas horas sem cair. Ainda hoje, se eu tento trocar de personagem, o jogo demora absurdos para me colocar em um servidor, sendo mais fácil eu fechar e reabrir o game para achar um mundo em questão de segundos.

E quando nós resolvemos jogar juntos (sem equipe formada mesmo), as missões eram tão chatas e o jogo tão vazio que, em menos de duas horas, ela pediu pra parar porque estava ficando com sono. Ela ficava desesperada com cada horda de chamuscados que aparecia para atacá-la (o que me rendeu várias risadas) e, ainda assim, ficou com sono.

Oca porque a Bethesda resolveu preencher esse vazio com microtransações. Afinal, pagar 200 reais por um jogo que, na realidade, já tenho há anos (no caso, Fallout 4) não é suficiente para a empresa. Usar todos os argumentos possíveis para convencer alguém a gastar o mesmo valor ou comprar de presente pra namorada porque você não aguenta mais perambular por Virgínia Ocidental sozinho também não. É preciso cobrar 20 reais para comprar uma pose pra foto.

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500 átomos = 20 reais = 1 pose. Não dá pra falar de monetizações.

É um conjunto de mentiras e decepções contadas maior que No Man’s Sky, sendo que este último é um título original, ambicioso e feito por apenas seis pessoas. E eu não acredito que 76 sequer venha a melhorar em dois anos, ao contrário do estado atual da obra da Hello Games.

Minha maior raiva, no entanto, é que mesmo com isso tudo, eu consegui me divertir um pouco. Afinal, gosto de jogar sozinho, de explorar ambientes e construir coisas. Contudo, o fato de eu ter me divertido aqui está no fato de ter curtido fazer exatamente as mesmas coisas no 4. Eu simplesmente não gastaria meu dinheiro se soubesse que não faria nada diferente e ainda teria um nível rudimentar de diversão, com todas as restrições e problemas do título.

Pelo jeito, o melhor jeito de experimentar um Fallout online ainda é o mod multiplayer do New Vegas.

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P.S.: Bethesda, eu ainda quero pilotar motos em Fallout e esse jogo é a melhor oportunidade de você arrancar meu dinheiro com uma. Porém, dificilmente vou aguentar até essa ideia ser implementada.

Positivo

  • Explorar o mundo pós-apocalíptico ainda pode ser divertido para os fãs
  • Vasculhar holos e computadores ajudam a contar minimamente a história do game

Negativo

  • Todo tipo de bugs imagináveis
  • Microtransações
  • Preço absurdo para um jogo claramente inacabado
  • Poucas pessoas por servidor tornam o mundo vazio e chato
  • Um dos piores modelos de PvP em um game multiplayer
  • Inventário diminuto
  • Inteligência artificial risível

Resumo

Um mundo vazio e inacabado que necessita da mais poderosa força de vontade para tornar-se minimamente atraente para o fã da série.
3

Negativo

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.