Análise | Metro Exodus

Análises PC PS4 Xbox One
8.5

Ótimo

Trazer Metro Exodus para a superfície foi um risco, mas bem recompensado.

Para mim e muitos outros, a série Metro sempre foi sobre claustrofobia. Túneis escuros e apertados, repletos de monstros que precisamos rastrear por seus sons (ou vê-los já em cima de nós) são lugar comum, mas empolgante. Dessa forma, assim que subia à superfície, minha expectativa por um mundo completamente novo – diferente da angústia de perambular por baixo da terra – me era compartilhada com Artyom, protagonista da franquia.

Metro Exodus – Trailer de lançamento

Eis que Metro Exodus é lançado e minha esperança é contaminada. Embora os jogos anteriores nem de perto tenham apaziguado meu nervosismo enquanto caminhava por luz natural, o único momento em que me sentia seguro era quando estava próximo ao trem. Mesmo que o mundo exterior seja aberto o suficiente (um risco da 4A Games que certamente se pagou), as ameaças continuaram diversas.

Claro, existem fases que trazem novamente à tona a excruciante sensação de paranoia e medo, mas os ambientes semi-abertos de Exodus são o suficiente para causar aflição mesmo com o inimigo completamente visto à sua frente.

A sensação agora é de que nós somos os invasores. Os monstros das áreas abertas parecem não se importar muito com sua existência (ao menos, até o som do primeiro tiro). Nesse ponto, o que era antes uma contemplação ao incrível visual do jogo torna-se uma carnificina, pois são raros os inimigos com pouca ou nenhuma companhia.

Cenários sombrios para pessoas sombrias

Porém, a série realmente foca no lado sombrio do ser humano. A repugnante fauna transformada pela radiação é exatamente isso: fauna. Como animais comuns, eles estão lá para caçar os despreparados e defender a si mesmos e seus convívios.

Os humanos, ao contrário, mesmo protegidos por blindagens de chumbo e aço, são os que realmente parecem contaminados. Religiosos fanáticos, chefes de gangue gananciosos que ostentam recursos para si mesmos, canibais… a cada parada, um novo e revoltante grupo surge – e, como contraparte, pequenas esperanças também.

Enquanto isso, suas ações têm consequências no resultado final da história. Quem merece compaixão e quem merece morrer acarreta em um determinado caminho, que pode ser bom ou ruim no final.

Não são os carros de Mad Max, mas tá valendo

Para isso, você continua a seguir as abordagens agressiva e furtiva. Infelizmente, ainda que esgueirar-se por bases repletas de inimigos possa proporcionar grandes momentos (como matar todos sem ser visto), determinados cenários dão um perceptível caminho onde se pode avançar sem ser importunado, tirando toda a tensão e dificuldade desse tipo de estratégia.

As batalhas, por sua vez, são frenéticas e excitantes, especialmente nos modos mais difíceis. A inteligência artificial faz um ótimo trabalho de se comunicar ao menor barulho feito e se rende quando percebe o fracasso iminente. Isso torna a vida de andar pelas sombras mais tensa e a necessidade de se defender imediata. Uma faca arremessada em alguém prestes a avisar sua localização pode ser algo duplamente recompensador.

Mude as armas para o seu estilo de jogo

Para minha tristeza, não havia como manter em Metro Exodus o antigo sistema de comércio com o uso de balas como moeda de troca. Afinal, não havia lojas na superfície para sequer comprar algo. Foi necessário então mudar o foco.

A solução natural, claro, é construir ou encontrar os itens necessários para sobreviver. Dessa forma, sucatas e materiais orgânicos podem ser encontrados em todos os lugares, mas itens como kits médicos e munição exigem vários desses recursos. Assim, a exploração e o crafting são sistemas necessários e complementares.

Além de natural, a escolha foi bem construída. Perambular pelos cenários permite conhecer seu passado e presente – e pensar como será o seu futuro – a partir de colecionáveis como fitas cassete e diários espalhados pelos lugares, assim como transmissões via rádio. Ao mesmo tempo, as bancadas de construção possibilitam carregar armas pertinentes ao seu modo de jogar e permitem coisas como transformar um revólver em uma sniper com silenciador – nada mal, não?

Os novos cenários, por sinal, são dignos de destaque. Todos eles são lindos e muito bem construídos, de modo a dar relevância tanto aos gráficos quanto à trama do game. Cada viagem de trem parece um portal para um novo mundo, da constante neve do início às casas e carros abandonados de Fallout e as tempestades de areia de Mad Max.

Infelizmente, o enredo deixa um pouco a desejar conforme se avança em Exodus. A premissa segue a “utopia” de Artyom de encontrar um lugar tranquilo na superfície, sem problemas com radiação e bandidos. A partir daí, as histórias se penduram à trama principal, de modo a formar mini-capítulos que começam e terminam na mesma fase, a fim de montar uma estrutura suficiente para aguentar sua linearidade, semelhante a uma ponte férrea para sustentar e empurrar o trem.

Metro Exodus – Trailer de História

Em meio a essas histórias secundárias, personagens são apresentados ou desenvolvidos, contudo não fui capaz de me envolver com a maioria deles. Todos eles possuem personalidades distintas, mas suas conversas eram sempre exageradas, com uma atuação de voz quase caricata.

Esse é um problema que segue a série desde o jogo original, contudo parece que houve uma extrapolação. Talvez pelos gráficos melhores e menos escuridão para notar todos os trejeitos, mas eu me senti vendo aquelas novelas mexicanas do SBT em certos momentos, exceto que o idioma era um inglês igual ao dos primeiros filmes do Schwarzenegger.

O protagonista também falha em vários momentos em emocionar e envolver o jogador. Não são raras as ocasiões em que sua mulher se mostra aliviada, feliz, triste ou emocionada, sem qualquer esboço de reação de Artyom. Metro Exodus desperdiçou uma ótima oportunidade de realmente dar vida a essa personagem.

Kumbaya, Senhor… Kumbaya!

Mesmo assim, Metro Exodus obtém êxito em questões difíceis para a própria franquia. Sair do subterrâneo e entregar um mundo vivo e deslumbrante foi uma exímia tarefa da desenvolvedora, assim como dar um desfecho digno para a série. O capítulo de Artyom finalmente se encerra, enquanto as luzes do metrô continuam acesas.

Positivo

  • Belos cenários que contam a própria história
  • Exploração dos cenários é incentivada pelo crafting
  • Combates continuam tensos, mesmo em espaços abertos
  • Tramas secundárias dos capítulos ajudam a segurar a história principal
  • Algumas ações afetam o resultado final do jogo
  • Série continua a retratar o melhor e o pior do ser humano

Negativo

  • História decai com o tempo
  • Personagens interessantes, mas com atuações caricatas
  • Artyom ainda parece um robô sem vida controlado pelo jogador

Resumo

Trazer Metro Exodus para a superfície foi um risco, mas bem recompensado.
8.5

Ótimo

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.