Análise | Mortal Kombat 11

Análises PC PS4 Xbox One
8

Ótimo

Uma grande história não faz um grande jogo de luta; treinamentos e combos, sim. Mas e quanto a microtransações e grinding?

Sinto que a primeira coisa que preciso fazer nessa análise de Mortal Kombat 11 é dar meus parabéns à NetherRealm. Afinal, poucas empresas conseguem se sobressair a cada novo jogo lançado. Ao mesmo tempo, ela parece se esforçar continuamente para não ganhar aquele selo de qualidade incontestável, a aprovação plena, o 10 na prova (ou, nesse caso, na crítica). Talvez seja para manter a humildade.

Não é de hoje que sigo a franquia. Na verdade, desde as jogatinas pesadas no jogo original, nas horas de treinos para fazer fatalities e babalities em MK2 e 3, até mesmo a pancadaria de diferente formato de Shaolin Monks, vi a série crescer ao meu lado. Quem diria, nunca arranquei uma coluna com minhas próprias mãos.

E nesses 27 anos eu vi uma história se moldar a um ponto que não pensaria chegar. Romances inesperados, choques de realidade temporal, novos reinados e divindades… fui positivamente surpreendido sim. Admito que vejo o recurso de viagem no tempo como desculpa esfarrapada para mudarem enredos ao deus-dará, então não seria tão difícil me provar o contrário.

E, de fato, o final pode ter sido lugar comum, mas a jornada é realmente boa, tanto por trazer os personagens do passado para o presente – e não o oposto – quanto por dar emoção e personalidade a cada personagem inserido no game (ou os principais, pelo menos). Mesmo os pouco aproveitados, como Erron Black ou Skarlet, tinham justificativas próprias para suas atitudes e até o sanguinário Baraka tomou um novo rumo aos meus olhos.

Além deles, o encontro dos lutadores do Mortal Kombat (9) de 2011 com os novos acontecimentos, embora tenha sido bem menos inquietante para eles do que pensaria, traz conflitos e evoluções de narrativa à tona. O exemplo mais notório é o de Johnny Cage, em choque tanto pelos acontecimentos recentes quanto ter de aguentar e dar lições de moral para seu eu do passado. O próximo Mortal Kombat tem agora um enorme leque de caminhos a seguir com a tal viagem no tempo, mas definitivamente não terá um amarradinho capenga e forçado em sua base.

Sabemos, contudo, que falar da franquia não é propriamente uma viagem a narrativas poéticas. Mortal Kombat, na verdade, é uma fonte de lutas sangrentas no imaginário coletivo, algo também retratado nesta iteração – talvez de forma até exacerbada. E, ainda que MK11 seja um autêntico rio vermelho de vísceras, duas coisas valem ser destacadas: animações e combos.

Sem entrar no mérito de expressões faciais durante as cinemáticas (30 segundos pra piscar o olho é atormentador… ok, parei), as animações de combate estão maravilhosamente fluidas. Os comandos, quando sujeitos às minhas vontades (não tive grande sucesso em minha experiência no Xbox One, mas nada de muito grave) e encaixavam no adversário, proporcionaram um belo e mórbido espetáculo visual.

Os combos causam um impacto ainda maior nessa sensação. Enquanto o velho truque da voadora e rasteira possa ser útil no desespero, efetuar aquela sequência de sete golpes precedidos de um x-ray pode ser deslumbrante (e bastante recompensador quando você é o autor da façanha).

Ao falar dos combos, não posso deixar de elogiar o ótimo sistema de treinamento do jogo. O tutorial é bastante intuitivo e bem construído, possibilitando até o jogador de primeira viagem a conhecer todo o básico do jogo. O treinamento mais avançado e por personagem também auxilia bastante o aprendizado de novos combos e a pegar os macetes daquele seu combatente favorito, especialmente pela grata surpresa de customizar algumas de suas habilidades.

Aliás, não apenas as habilidades, mas também os equipamentos podem ser customizados pelo jogador, algo que já fez sucesso no Injustice 2, por exemplo. Certamente, é maravilhoso poder jogar com um lutador com a aparência e os golpes desejados. No entanto, é justamente aqui que começam os problemas do título.

A começar, o custo para desbloquear os itens e seus respectivos aprimoramentos é altíssimo. Para cada item habilitado, é preciso galgar “pontos de experiência” para poder finalmente destravar espaços de melhoramentos. Não apenas isso, mas essa experiência é específica do item. Assim, conseguir aquele visual incrível significa ter que evolui-lo do zero, independente de quantos outros do mesmo personagem e do mesmo tipo já foram melhorados.

Outro problema é o número de recursos a serem coletados para obter mais itens. Mortal Kombat 11 conta com a “bagatela” de três tipos distintos de moedas (ouro, almas e corações), cada qual com sua própria dificuldade de obtenção e possibilidade de obter desbloqueáveis melhores.

Isso gerou uma necessidade exaustiva de grinding (quando o jogador passa muito tempo fazendo coisas repetitivas para pegar ou evoluir um item) e, mesmo com ajustes pontuais na última atualização, a penúria continua

Para piorar, o retorno da Kripta deveria ser um auxílio na busca pelos desbloqueáveis, mas tornou-se símbolo de desapontamento. Embora tenha me divertido bastante na visita à ilha de Shang Tsung, com memórias trazidas à tona (“The Pit”, melhor fase) e acesso a segredos escondidos, os baús lá presentes são uma ode à randomização. Que me perdoem as artes conceituais, mas achar itens realmente interessantes como skins e fatalities pode demorar horas. Abrir um baú de 250 corações para receber uma imagem de cenário, um modificador de batalha e algumas moedas está longe de ser empolgante

Essas mesmas horas poderiam ser dispendidas nos outros modos de jogo, porém este caminho também é tortuoso. Além da campanha, a Torre ajuda a contar histórias individuais, a Torre do Tempo insere desafios a partir de modificadores (que também podem ser adquiridos e utilizados pelo jogador) e mesmo o modo online proporciona bons momentos – com boa conexão, diga-se de passagem.

Uma grande história não faz um grande jogo de luta; treinamentos e combos, sim. E quanto a  microtransações e grinding?

Infelizmente, os prêmios dados por sua dedicação ainda estão aquém do esperado. A Torre do Tempo, que poderia ser um grande adendo, exige um esforço tremendo graças a seus modificadores e recompensa bem pouco pelo infortúnio, além do uso de moedas ou uma chave para chegar a níveis (e recompensas) maiores. Ainda é possível utilizar seus próprios modificadores adquiridos, porém eles aparecem em uma taxa menor do que é consumido.

É uma pena ver Mortal Kombat 11, que poderia ser lembrado por sua jogabilidade e história, acabar com uma marca tão negativa por escolhas, no mínimo, estranhas. Afinal, ver jogadores esquecerem das boas novidades do game em detrimento da dificuldade das Torres do Tempo e dos itens aleatórios é, de certa forma, preocupante, a ponto de a própria NetherRealm admitir o erro. Certamente Mortal Kombat é uma franquia que não precisa apelar para essas atitudes do mercado e o próprio MK11 é uma prova disso.

Positivo

  • Campanha surpreendentemente boa
  • Animações de combate belas e fluidas
  • Ótima curva de aprendizado e combos acessíveis
  • A Kripta traz sentiimentos nostálgicos para o fã da série
  • Excelente construção de personagens

Negativo

  • Grinding excessivo
  • Itens são aleatórios, frustrando após tanto tempo de grind
  • Sistema de microtransações desapontador

Resumo

Um jogo de luta empolgante e divertido, manchado por decisões de monetização desnecessárias para uma franquia do porte.
8

Ótimo

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.