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Análise | Tales of Arise – a promessa de ser o melhor de todos

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8

Ótimo

Confesso que sou um fã de longa data da franquia Tales of da Namco (agora Bandai Namco). Comecei no saudoso PlayStation com Tales of Eternia (chamado erroneamente de Destiny 2 no Ocidente) e não parei mais. Então imagine a minha expectativa com Arise, o título que nasceu com a promessa de revolucionar a série e conduzir o rumo dos próximos Tales of.

Demorou bastante, com alguns adiamentos e uma pandemia que, segundo os produtores, readaptou toda a logística de produção do título. Eis que, finalmente, o jogo chegou e trouxe parte do que prometeu. Ênfase aqui na palavra “parte”.

Tales of Arise é um ambicioso projeto trazido por uma equipe veterana em JRPG. Alguns trabalharam em outros jogos da série, outros vinham de outras franquias da Bandai Namco. Mas a palavra que imperava no desenvolvimento do título era “Inovar, mas mantendo o espírito de um Tales of”.

O designer de personagens ficou a cargo de Minoru Wataru, que trabalhou em sucessos como Tales of Vesperia e Tales of Berseria. Já a direção ficou com Hirozaku Kagawa, que sempre trabalhou na série como programador de batalhas e é um dos responsáveis por outro sucesso: Tales of Xillia. Já a produção fica a cargo de Yusuke Tomizawa, que já trabalhou na mesma função em todos os jogos da série God Eater e no recente Code Vein.

Estes três profissionais conduziram a equipe de desenvolvimento de Arise ao lado do veterano Motoi Sakuraba, responsável pela trilha sonora. Basta dizer que o músico trabalhou em praticamente todos os jogos da série Tales of e outras séries de sucesso como Star Ocean, Bravely Default e Dark Souls.

Conhecendo a equipe principal de desenvolvimento, vamos analisar o jogo.

A guerra entre Mundos

Arise narra a história de Dahna, um planeta que sofre ao ser regida de maneira autoritária por Rena, o planeta dito como “superior e divino”. Nos últimos 300 anos, os dahanianos sofreram pela pilhagem dos renianos, que sugam todos os recursos do mundo. Mas o que é mais cobiçado é a energia Astral, que confere poderes aos seus usuários, que as usam para utilizar as Astral Arts, a “magia” do jogo.

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Os protagonistas Alphen e Shione

Após a conquista por Rena, o planeta Dahna foi dividido em cinco grande reinos, cada um governado por um Lorde que representa os elementos astrais: Luz, Fogo, Terra, Ar e Água. O elemento da Luz é uma energia exclusiva de Dahna. Já as trevas são controladas por Rena.

Durante anos, Rena realiza a “Disputa pela Coroa”, um concurso onde o lorde que absorve mais energia astral é proclamado o senhor de ambos os planetas. Em meio a competição, um trem de carga reniano é atacado por um grupo rebelde dahaniano. Na batalha, a misteriosa reniana Shione liberta-se de seu cativeiro e encontra um escravo reniano desmemoriado com uma máscara de ferro. Em meio as batalhas, a máscara é quebrada e o desconhecido lembra seu nome: Alphen.

Junto com o nome, Alphen desperta a espada flamejante, um artefato que sai do corpo de Shione e que só ele pode usar. Assim, a dupla utiliza o poder recém adquirido para combater os lordes renianos ao lado de outros descontentes e acabar de vez com o sistema escravagista secular.

Além da dupla, existem quatro outros personagens. Rinwell é a última maga de Rena que luta para vingar a morte dos pais. Law é um artista marcial que luta para redimir erros passados. Kisara é uma guarda de elite dahaniana que acredita na coexistencia entre os planetas. Por fim, o último personagem a entrar na equipe é Dohalim, o lorde reniano descontente com a forma que seu mundo lida com os habitantes de Dahna.

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O designer Minoru Wataru caprichou nos personagens principais

Sobre os personagens, temos um bom desenvolvimento de todos eles. Apesar do foco maior no casal Alphen e Shione, todos no seu grupo possuem personalidades que podem (ou não) agradar aos jogadores.

As tradicionais “cenas paralelas” da série Tales of foram reformuladas aqui. Em diversas ocasiões, surgem pequenos diálogos onde os personagens conversam entre si. O que antes era pequenos quadrados com as faces dos personagens deram lugar a cenas que lembram mangá ou hqs. Graças ao novo formato, vemos cada membro do grupo de maneira mais clara, com diálogos bem escritos que apresentam seus sentimentos e descrevem as mudanças de cada um ao longo da jornada. Um recurso simples nos outros jogos da série que ganhou um espaço gigantesco em Arise.

Sistema de batalha: o que era bom ficou melhor

Tales of Arise utiliza o Liberation Linear Motion Battle System introduzido em Tales of Zestiria e melhorado em Berseria. Todas os golpes especiais (chamados aqui de Arts) utilizam os pontos da Soul Gauge (SG). A diferença aqui é que os pontos SG são importantes, mas de fácil recuperação. Em resumo, o jogador simplesmente precisa ficar atento aos pontos (que aumentam com a evolução dos personagens), que são recuperados durante a batalha com pequenas pausas. Algumas habilidades especiais de cada personagem permitem ao jogador recuperar os pontos BG ao esquivar, matar inimigos menores e outras ações. 

Mas os ataques normais continuam importantes, permitindo ao jogador continuar uma sequência de golpes, ampliando o combo total ao emendar com uma ou mais Arts. Tais golpes também permitem ganhar tempo enquanto recupera os pontos SG. Em resumo, o jogador realiza sequências de golpes normais e Arts contra os inimigos, enquanto esquivasse.

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Ataques combinados acontecem com frequência ao usar Break Soul

Como todo bom JRPG, os jogadores precisam ficar atentos aos pontos de vida dos personagens. Para isso, o jogo implantou os Pontos de Cura (PC) ao game. Diferente dos SG, os PC são escassos, sendo recuperados apenas com descanso ou itens de cura, que em Tales of Arise são fundamentais. O jogo mantém o limite de 15 tipos de itens. Nada de comprar 99 gomas de pêssego e recuperar todos os pontos sempre que precisar. Você estará limitado à 15 itens de mesmo nome. Por isso, durante longas masmorras, administrar bem seu inventário é fundamental para poder curar, ressuscitar ou anular status negativos dos personagens quando precisar.

Com o total de seis personagens jogáveis, cada um com seu próprio estilo de batalha, o jogador pode customizar seu time de diversas maneiras. Quer um tanque de guerra com personagens curando ou atacando à distância? Basta selecionar a defensora Kisara, a sniper Shione, a maga Rinswell e o lorde Dohalim. Que porrada desenfreada, tire a galera do ataque a distância e coloque o espadachim Alphen e o pugilista Law. Com a possibilidade de trocar o time no meio da batalha, o jogador possui uma tranquilidade maior no combate. E tal formato também incentiva experimentar e usar várias combinações de times.

Mas em meio ao combate, uma certa barra irá encher: a Break Soul (BS). Com ela cheia, o jogador poderá invocar um modo especial onde poderá utilizar Arts de maneira ilimitada durante um pequeno período, que será encerrado com um golpe especial poderoso. Tal barra enche ao esquivar e é bastante influenciado pelas habilidades adquiridas durante a evolução dos personagens, que falaremos mais adiante.

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Serão dezenas de horas em batalhas para “grindar”

Por fim, os inimigos possuem habilidades diferentes como: Voar, Armadura, Esquiva Ágil, Atropelo e Magia. Cada um dos personagens jogáveis de Arise possui uma ação especial chamada Soul Blast. Cada um pode carregar uma barra especial, que quando cheia por invocar um ataque especial súbito que cancela uma habilidade do inimigo. Os voadores vão ao chão com tiros de Shione. Já as armaduras são quebradas pelos punhos de Law. Os esquivos inimigos são parados pela magia de vinhas de Dohalim. Os inimigos que correm para atropelar são parados pelo escudo de Kisara. Por fim, as magias dos inimigos são absorvidas pela maga Rinswell. O protagonista Alphen funciona com um intermediário, causando dano quando precisa e completando combos.

As várias atividades paralelas de Tales of Arise

Jogos da série Tales of são conhecidos por terem muitas atividades além das batalhas na história principal. Em Arise não seria diferente. Os diálogos paralelos estão lá, ativados quando o grupo passa por uma região dou decide acampar. Para os fãs de histórias e dublagem em um JRPG, o jogo não decepciona. São longos e divertidos diálogos onde conhecemos a fundo cada personagem. Isso incentiva a continuar ouvindo o que cada personagem tem a dizer, conhecendo suas motivações e sentimentos. Tudo isso numa narrativa que foge ao já batido estilo de visual novel dos RPGs japoneses.

Tales of Arise também possui atividades dignas de qualquer jogo Harvest Moon ou Story of Seasons. Podemos criar belas hortas ou criar animais em uma fazenda. Com isso, recolhemos ingredientes para preparar os mais variados pratos, o que nos leva a outra atividade: cozinhar!

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Você se empenhará ao máximo para comprar todas as habilidades

O ato de cozinhar é realizado apenas em estalagens ou em acampamentos. Cada prato adiciona uma vantagem especial ao grupo de aventureiros, o que é muito útil para “grindar” durante o game. Um cozido pode aumentar em 10% o total de experiência adquirido ou podemos comer uma salada que recupera um pouco de PC após as batalhas. Cada personagem possui uma familiaridade com um tipo especifico de prato, que ao cozinhar aumenta as vantagens da refeição.

Outra divertida atividade paralela é a pesca. Em lagos específicos do jogo, podemos experimentar o minigame onde usamos uma vara e iscas especiais para pescar vários peixes. Após uma batalha ferrenha de apertar botões, conseguimos (ou não, depende do seu desempenho), belos peixes que vão para panela ou são vendidos por ótimas quantias.

A evolução do jogo também pode ser considerada uma divertida atividade paralela. Ao upar, ganhamos pontos de habilidades para comprar espaços em constelações de títulos. Cada constelação traz até 8 habilidades especiais, que ao completar os espaços, maximizam o título e adiciona uma vantagem bastante útil ao jogador.

As atividades extras de Tales of Arise podem estender o game por dezenas de horas. Em especial, se você decidir caçar as famigeradas “Corujas de Dahna”. Cada uma das simpáticas criaturinhas estão escondidas em vários pontos do planeta. Ao encontrá-las, você receberá itens cosméticos e pequenas recompensas do Rei das Corujas, que ostenta seu belo bigode e coroa no poleiro mágico.

Mas nem tudo são flores

Arise é de fato um dos maiores Tales of que já existiu. Prometeu trazer a série para outro nível, revolucionando para sempre a franquia de JRPGs da Bandai Namco. Infelizmente, alguns problemas prejudicam bastante o resultado final do game.

Vamos começar com um velho problema da maioria dos RPGs japoneses: a repetição de inimigos. Passaremos dezenas de horas vagando por Dahna para derrotar os Lordes Rehanos e acabar com a escravidão. Enfrentaremos monstros e vilões pelo cinco reinos. E eles são praticamente iguais em cada reino! Sempre teremos um javali, um lobo, um golem, um pássaro gigante ou uma rocha mágica em cada local que você visitar. Os mesmos inimigos com as mesmas habilidades e ações, mudando apenas as cores de cada um. Em alguns casos, temos até a repetição de chefes, em especial durante as missões extras.

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Kisara vai botar seu escudo para trabalhar na repetitivas batalhas

Segundo a história do jogo, Dahna foi uma região única no passado. Foi a ação dos Rehanos que modificou a fauna e a flora, fazendo mudanças estruturais nas criaturas. Já o diretor Hirozaku Kagawa alega que a “familiaridade” entre os inimigos ajuda os jogadores nas estratégias de combate e pensamento rápido. Bem, ele pode defender as “decisões criativas”. Mas a verdade é que os JRPGs precisam repensar o designer de monstros e diversificá-los.

Evoluir os personagens durante o jogo também é algo extremamente complicado. Apesar de utilizarmos magias como habilidades, abandonando os escassos MPs, temos agora que nos preocupar com os Pontos de Cura. Eles são fundamentais para manter a saúde do seu time, que possui valentes que resolvem bater de frente com os piores adversários. Se não tomar cuidado, a CPU que controla seu aliado vai jogá-lo direto na cara do inimigo, e o curandeiro do time precisa agir rápido. Algumas vezes, ele age tão rápido que gasta mais pontos do que devia. Para recuperar, precisa gastar itens. Eis que surge um novo problema.

Os itens são caros! Alguns muito caros. Além de gastar muita grana para adquiri-los, são limitados ao máximo de 15 itens. Ou seja, é preciso comprar variações dele e gastar mais. Claro, sempre podemos matar inimigos e conseguir seu dinheirinho… Só que não! Em Arise, os inimigos “dropam” pouca grana. Por sorte, você pode vender matéria prima e itens para levantar um dinheiro extra.

Claro que vivemos em uma sociedade que visa o lucro. Por isso, diversos pacotes de galds (moeda de Tales of) são vendidas por “módicos valores” nas lojas digitais. Muito esperta, Bandai Namco. Mas você não é obrigado a gastar neles, basta passar suas muitas horas “grindando”. Simples, não?

O problema é quando temos a mesma dezena de inimigos se repetindo em cada um dos reinos, com as mesmas ações e movimentos. E de novo… E mais uma vez… É algo que cansa bastante, com missões extras que pedem para você matar novas versões dos MESMOS monstros por dezenas de vezes. Nessa hora, tudo o que penso é no meme do Pica-Pau: “E lá vamos nós”!

Tales of Arise e seu “Plot Twist”… Ohhhh, que surpresa!

Cá estou eu nas minhas pouco mais de 80 horas de missões extras, “grinding”, pescarias, confecção de itens e caça a corujas e decido derrotar o último Lorde Reniano. E lá vamos para mais uma masmorra complexa, com inimigos (os mesmos guardinhas e monstros de sempre) mais fortes que o normal, caso você não tenha upado bastante. Beleza, derrotamos o chefe! Agora vai acabar…

TOMA UM PLOT TWIST NA SUA CARA!

Não vou soltar nenhum spoiler, mas temos uma mudança brusca na história que faz o jogo continuar por várias horas. Temos uma nova abertura, nova atitude dos personagens principais, um novo inimigo e ambientes. Poderia ser muito interessante, mas mergulhamos em uma sequência de clichês e repetições da “jornada do herói desmemoriado que descobre seu passado e vai salvar o(s) mundo(s).

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Eu contei pelo menos 12 variações deste lobo

O enredo do conflito entre dois mundos e um plot twist que muda tudo é um clichê da série Tales of que segue por títulos como Xillia, Symphonia, Innocence, Tempest e vários outros. Alguns podem considerar uma “tradição” da série. Mas a partir do momento em que é Arise prometeu revolucionar a série, os fãs de longa data esperavam mais. Pode ser perfeito para novos jogadores não familiarizados com JRPGs.

Porém, para os veteranos do gênero resta apenas a celebre frase do Pica-Pau:

“E lá vamos nós”.

É um excelente Tales of

Recentemente, fizemos uma lista com os melhores jogos da série “Tales of. A minha grande esperança é que Arise superaria todos desta lista. Infelizmente, não posso concorda em dizer que ele é o melhor dos melhores. Os gráficos são maravilhosos, com o desempenho maximizado nas plataformas da nova geração. Acredite, os 60 fps fazem muita diferença nas batalhas. As músicas também são um show a parte, graças ao excelente trabalho do veterano Motoi Sakuraba.

Porém, a repetição de clichês tanto da série quanto do gênero, somada a falta de criatividade na história do jogo decepcionam bastante, especialmente nos momentos finais do jogo. Após dezenas de horas, o sentimento de “mais do mesmo” preenche o fã de JRPGs, que se limita a imaginar o que Tales of Arise poderia ter sido.

Pelo menos, o título mostra o potência que a série da Bandai Namco poderá alcançar no futuro. Basta ter criatividade e vontade de inovar!

*Análise realizada nas versões para PlayStation 4 e PlayStation 5.
** Testes de desempenho realizados nas versões de PlayStation 4, PS5, Xbox One Fat e Xbox Series S.

Positivo

  • Belos gráficos / Sistema de Batalha divertido / Ótimo desempenho na nova geração de consoles

Negativo

  • Repetições / Plot Twist fraco e sem criatividade / Extensa necessidade de "grindar"

Resumo

Tales of Arise é uma nova entrada no vasto universo da série de JRPGs da Bandai Namco. Com bons gráficos, sistema de batalha e personagens cativantes, o título sofre com vários clichês e repetições comuns aos RPGs japoneses.
8

Ótimo

Jornalista, analista de mídias e sergipano com orgulho. Apaixonado por "quase" tudo que vem do Japão, em especial animes e jogos. Um eterno sonhador que sempre busca novos desafios!