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Análise | Vampyr

Análises PC PS4 Xbox One
7.5

Bom

Ser humano ou não ser? Eis a questão.

De vez em quando, uma nova obra vampiresca celebra a mística lenda desses monstros sugadores de sangue. Embora nem todas se mostrem interessantes, o tema costuma revelar muitas surpresas (nem todas boas, é verdade) e nomes a exemplo de Drácula de Bram Stoker e Garotos Perdidos persistem na memória dos fãs de longas presas.

Vampyr é outra dessas surpresas – agradáveis, no caso. Com nuances de simples, mas primorosas decisões de game design, o título trata com primazia o conflito moral de um recém-chegado à imortalidade.

Ao incorporar o protagonista Jonathan Emmet Reid, você assume também um complexo dilema: o de matar para “sobreviver”. Agrava-se aí o ponto de ele ser um médico, responsável por salvar vidas, e ter feito parte da Primeira Grande Guerra, em que a morte era a principal rival de seu cotidiano.

Em meio a esse turbilhão mental, está uma Londres à beira do colapso. Além das ruas e pontos turísticos da cidade, a gripe espanhola é o principal cenário de Vampyr. Corpos podres, casas pintadas com X em suas portas e avisos de quarentena dão o tom sombrio, moribundo e, muitas vezes, repetitivo que ambienta o game.

Aliado a este cenário, existe a problemática dos Skals (vampiros irracionais que atacam humanos e espalham sua própria doença, adicionando uma nova pandemia à já existente) e dos caçadores da Guarda de Priwen, cujo objetivo é – claro – acabar com os sanguessugas. Tudo bem arrumadinho em um roteiro que até cumpre seu papel, mas peca razoavelmente no final.

O início, por outro lado, quase me fez parar de jogar. Maçante, com personagens (em especial, John Reid) que demoram pra evoluir e um combate pouco desafiador, o prólogo não faz jus à experiência final e sobreviver a ele é, por si só, algo sobrenatural.

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Uma vez alcançado o hospital de Pembroke, no entanto, Vampyr mostra sua verdadeira face. Repleto de NPCs a conhecer e desvendar seus mistérios, a obra utiliza-se de pequenas investigações a fim de dar vida a eles. Temas como suicídio, traumas pós-guerra e ética médica me fizeram mergulhar no jogo e não permitem que John Reid seja o único a ter conflitos.

Na verdade, essa individualidade dos personagens só aumenta o embate moral do protagonista, graças à curiosa mecânica de obtenção de experiência do título.

Além do xp ganho ao vencer inimigos e completar missões, há a possibilidade de sugar o sangue de boa parte dos personagens (com exceção dos vilões que você enfrenta). Estranho a princípio, os pontos de experiência adquiridos desse modo tornam a progressão do jogador mais rápida. Cada segredo revelado dá “potência” ao recurso e, consequentemente, maior a quantidade de experiência disponível.

De modo a deixar a brincadeira bem “divertida”, a mitologia do jogo afirma que os vampiros não precisam do sangue para sobreviver. Pode-se passar séculos sem uma gota do rubro vital em seus lábios com pouco ou nenhum risco ao morto-vivo. A chamada vitae é tão somente um vício inebriante – com benefícios e tanto.

Desse modo, a justificativa de que a alimentação é primordial cai por terra e, caso necessário, a Londres da praga está cheia de ratos suculentos. Cada assassinato cometido não tem o intuito de aplacar sua fome, mas sua sede de poder. Em Jonathan Reid, você é juiz, júri e executor ao decidir quem deve ou não morrer, em um leve “brincar de Deus”.

E Vampyr é justamente uma constante brincadeira com a moral. Alguns personagens se aproveitam da pandemia em prol do lucro, outros são pais e mães dedicados ao extremo. Da ganância à benevolência, do egoísmo ao amor, é possível presenciar as inúmeras variantes da natureza humana aqui. Aos olhos do jogador, podem ser seres humanos ou rebanho.

Enquanto esses conflitos atormentam a cabeça em todo momento, o mesmo não pode ser dito dos combates físicos. Os inimigos comuns, também alguns bosses, seguem um padrão constante e fácil de ser identificado. A inteligência artificial é básica e as ruas de Londres chegavam a ser um estorvo, ao contrário de um desafio.

Se optar escolher o caminho de zero mortes, encontrará uma maior dificuldade já que seu nível não acompanhará o dos oponentes. Conforme progride, rivais com cinco, dez ou até quinze níveis de vantagem são encontrados e as batalhas, especialmente contra alguns chefes, começam a ficar interessantes.

Contudo, tal situação não é suficiente, pois a falta das habilidades vampíricas são facilmente contornadas com o sistema de construção do game. Além do aumento de dano natural ao evoluir as armas, duas mecânicas valem destaque: atordoamento e absorção.

A primeira retira vigor do alvo e provoca atordoamento quando a barra do atributo chega a zero. A partir daí, uma brecha para morder e beber do inimigo é aberta – algo particularmente importante ao usar suas habilidades, em especial a ‘Coagulação’, que regenera o jogador. Aliado isso à possibilidade de aparar ataques com uma arma de duas mãos (usado na hora certa, ele também atordoa o oponente), as brigas se resumiam a golpear – aparar/atordoar – morder – curar – repita o processo.

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A absorção, por sua vez, rouba o sangue do oponente. Assim, basta acertar a arma com a característica em alguém e recuperar o recurso gasto, embora em menos quantidade comparada à mordida. Essa mecânica incentiva o jogador a ir pra cima, mas, com tanta desvantagem de níveis, era seguro abusar da esquiva e da distância, ao invés de perder metade da vida com um ataque.

Mais do que complicar minha imortalidade, esse mínimo de dificuldade tornou-se cativante pelo fato de o jogo mexer constantemente com minha cabeça. Eu poderia lutar sem ter que esquivar a todo momento. Partir pra cima sem pensar. Ao evitar eliminar os cidadãos, eu abdicava também de uma rápida evolução. Em alguns bosses, o que parecia um luxo ou comodidade demonstrava-se uma necessidade. A cada tela de carregamento, uma mensagem aos moldes de “Está difícil? Você pode obter experiência dos NPCs” aparecia, similar à serpente e a tentação da maçã.

Justo por isso, ainda que se defina um RPG de ação, o alicerce que suporta Vampyr está no roleplay, deixando o combate em segundo plano. Àquele que busca por emoções nas brigas e não está interessado em conversar com dezenas de personagens, um dilema distinto é perceptível: quanto menos é falado, menor é a obtenção de xp e mais lenta é a progressão. Contudo, visto que é perfeitamente plausível derrotar monstros com dez ou quinze níveis de vantagem, deve ser possível finalizar a história principal em menos de 15 horas.

Para os fãs do gênero interpretativo, no entanto, temos aqui uma obra complexa e intrigante, repleta de conflitos e indecisões. Boa parte das escolhas tomadas interferem não só na não-vida de Jonathan, mas também no cotidiano dos diversos moradores das regiões por onde passa. Uma morte pode trazer o caos a um distrito e um remédio entregue auxilia ao saneamento da área; ambas influenciam os mercados locais, barateando os itens vendidos ou o contrário.

Com pesar, toda essa empolgação se perde ao final do título, quando começa a seguir um rumo desconexo. Enquanto boa parte da trama foca em ciência, investigações e política, o fim lida com um mix de lendas, misticismo e fatos históricos. Pareceu uma tentativa de repaginar as lendas vampíricas, porém sem muito sucesso.

Independente disso, Vampyr é um autêntico e prazeroso RPG. Ainda que o combate exista tão somente com a intenção de dar um preciosismo aos tempos soturnos dessa Londres corrompida pelo sobrenatural, vivenciar John Reid torna-se uma imortal agonia entre o humano e a Besta interior (em uma vívida alegoria de O Médico e o Monstro). Assim como no protagonista, a vida na cidade luta para permanecer.

Positivo

  • Uma bela experiência RPGística, repleto de conflitos morais
  • Personagens com personalidades distintas e cativantes
  • Qualidade de Sangue é uma boa ideia narrativa
  • Suas ações têm consequência visíveis nas pessoas e regiões

Negativo

  • Combate fraco e facilmente explorável, mesmo com desvantagem de nível
  • Game demora um pouco para engrenar
  • Final decepcionante

Resumo

Um desequilibrado RPG de ação, com boas ideias, grandes pontos de roleplay e um combate desajeitado.
7.5

Bom

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.