Análise | AC Chronicles: Russia – Traz minha maracujina!

Análises PC

Devo começar deixando claro para o caro leitor que sou fã da franquia Assassin’s Creed. Meus prediletos, de longe, são AC 2 e AC Brotherhood – ainda não joguei Syndicate –, porém não tem como compará-los com a série Chronicles, é claro. Estamos falando de engines diferentes, gameplays diferentes e, consequentemente, diversão diferente.

Ao contrário de nosso querido Kazuo, eu ainda não havia jogado Chronicles, mas me marcou na mente o título que ele utilizou em sua análise: Paciência oriental em Assassins Creed Chronicles: China. Paciência oriental foi o que eu pensei na maior parte do tempo em que jogava. Jogava, pausava, desligava, pensava em jogar o monitor pela janela e depois voltava após três copos de suco de maracujá para tentar novamente. Vos explico o porquê, mas comecemos pelo enredo.

É julho de 1918 na Rússia, época da revolução, onde grupos de esquerda iniciam levantes contra os bolcheviques. Você está na pele do assassino Nikolaï Orelov, um membro já cansado e desiludido da Ordem que está fazendo planos para viajar com sua família para a América a fim de começar uma vida nova e deixar os assassinos para sempre. Para isso, Orelov precisa de dinheiro e, portanto, aceita uma última missão; infiltrar-se na cidade de Yekaterinburg, controlada por templários, encontrar a residência onde a família imperial está sendo mantida cativa e recuperar deles uma caixa misteriosa; um artefato há muito desejado pela Ordem.

Nada mau para uma história de Assassin’s Creed. No caminho, você se depara com a única sobrevivente da família imperial, a filha do Czar, Anastasia, e se afeiçoa por ela, o que te leva a mudar seus planos para protegê-la e tirá-la daquele pesadelo. Orelov é pai de uma menina, portanto é fácil entender a conexão que ele cria com Anastasia.

O enredo conta com momentos épicos de ira, traição, vingança e fuga desesperada, mas, infelizmente, tudo isso é ofuscado pelas dores de cabeça causadas pelo gameplay. Em primeiro lugar, joguei no PC e já digo a você, caro leitor, não é a plataforma ideal para jogar Chronicles; é muito fácil se enrolar com os controles e morrer bestamente – apertar um “S” ao invés de “A” ou “D” e cair numa grade elétrica ou sair pelo lado errado de um muro. Um joystick certamente lhe ajudará muito na missão. E morrer bestamente me leva à maior dor de cabeça que o jogo impõe, a dificuldade exagerada.

Entende-se, em alguns lugares, que jogo bom é jogo difícil. Entusiastas da FromSoftware (Dark Souls, Bloodborne) podem até concordar, mas existe uma linha muito tênue entre dificuldade e chatice. Talvez um trabalho melhor no level design permita que o gameplay flua com mais facilidade – há momentos em que o cenário força o seu erro e isso não parece acontecer de maneira proposital. Toda vez que você morre ou em alguns casos é descoberto, o jogo dessincroniza e você retorna ao último ponto de checagem. Passar por isso uma, duas, cinco ou até dez vezes até vai, mas vinte, trinta ou mais é muito para a vida de quem quer curtir a história. Sem mentira, esta foi a obra em que mais morri em toda minha história como jogador. Levei uma semana para fechar um jogo que, se não fosse tão chato difícil, seria completado facilmente em dois ou três dias no máximo – e olha que eu joguei no modo normal.

Confesso, não sou nenhum mestre do stealth e muito menos um amante do estilo, mas existe limite para tudo. Eu tive que tirar forças do fundo de minha alma apaixonada por games para chegar até a metade do jogo, quando finalmente ele começa a ficar interessante. Na verdade, a partir do momento em que você começa a jogar com Anastasia e Orelov o jogo muda completamente, fica mais fluido e MUITO mais divertido.

Os cenários são simples, mas funcionam para o que é proposto, o áudio é ótimo – como esperado da Ubisoft -, algumas cenas de ação, onde você deve fugir de grandes exércitos levando saraivadas de tiros de metralhadoras e canhões são sensacionais. Tudo isso mesclado a uma trama que ganhou corpo durante o andar da carruagem estavam quase me convencendo a dar três estrelas para o título, mas então veio a fase final, aquela que deveria culminar em uma tremendo momento de regozijo, mas que ao invés disso impôs tanta dificuldade e um eterno ciclo de morte e renascimento que o recente carinho criado em meu âmago, e toda a imersão construida até aquele momento que deveria ser glorioso foi jogado no vinagre. Uma pena, uma pena mesmo.

Assassin’s Creed Chronicles é uma série com bastante potencial – obviamente nunca será algo próximo dos AAA com os quais estamos acostumados -, mas ainda precisa de muito trabalho para tornar-se algo divertido e agradável de se jogar. Eu quero te amar, mas você precisa me amar também.

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Marketing na cabeça, game no coração. Não importa o dia, a hora e muito menos a plataforma, o que importa é o prazer de jogar.