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Análise | Dishonored 2

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Foi com pesar que minha experiência com o primeiro Dishonored me desagradou profundamente. Houve algo entre um enredo pouco desenvolvido e a profunda facilidade do game, especialmente ao notar o desequilíbrio provocado por apenas um dos poderes, o Teleporte. Com ele, todas as ameaças sumiam, como o respectivo nome em inglês da habilidade (“Blink“) sugere, num piscar de olhos e, consequentemente, anulou-se todo meu senso de desafio.

Dishonored 2, por sua vez, conseguiu superar seu predecessor em diversos aspectos. Embora, à primeira vista, resgate várias mecânicas do jogo original, ele obtém o êxito de melhorá-los profundamente sem fugir da essência que fez tantos jogadores passarem a amar a franquia.

Emily Dishonored 2

Decida com cautela. Uma vez escolhido o protagonista, não tem volta.

Mesmo assim, não posso deixar de citar o quão “desbalanceado” o game continua com o mesmo poder. Embora os protagonistas Corvo Attano (personagem principal também da obra primeva) e Emily Kaldwin (filha de Corvo e Jessamine Kaldwin, assassinada no golpe de estado do título inicial) possuam cada um sua própria versão do Teleporte, ele é o suficiente para finalizar o jogo.

Isso, no entanto, é apenas uma forma de jogo trazida em Dishonored 2. É possível, inclusive, jogar sem poderes, e tal opção contribuiu para, agora sim, me apaixonar pela série, mas não apenas isso.

A começar pela variedade de habilidades, as novidades trazidas ao novo game deixam as coisas mais divertidas. Seja conectar seus inimigos com o Domino e usar um virote de sono para fazer todos os inimigos dormirem com uma só munição ou ultrapassar lugares apertados para matar sorrateiramente em forma de sombra, as muitas maneiras de vencer seus oponentes divertem tanto por atiçar a criatividade quanto pelas animações. Parar o Tempo com Corvo possibilitou, além de fugas no último segundo, uma penca de animações engraçadas e só confirma que slow-motion deixa qualquer ação mais legal.

Poderes em Dishonored 2

Você pode jogar sem poderes, mas tê-los está ainda mais divertido

De fato, esses poderes facilitam as situações. No entanto, ao contrário do primeiro game, Dishonored 2 faz por onde balancear os combates com uma inteligência artificial mais interessante. Primeiro, a janela de reação dos oponentes entre avistar algo suspeito e partir direto para a pancadaria é consideravelmente pequena. Segundo, o rival pode assumir posturas mais defensivas, usar chutes para minar sua defesa e até mesmo fingir um ataque, recuando no instante final. Tudo isso para forçar mudanças nas suas táticas durante as brigas e tirar-lhe da zona de conforto. Por fim, ao localizá-lo, o “desafeto” é inteligente o suficiente para não lhe encarar sozinho: um grito é o suficiente para todos na área correrem em sua direção como loucos e acabarem com sua raça o mais rápido possível.

Na verdade, Dishonored 2 parece relevar bem mais o som, e o faz aproximar-se mais de Thief do que de Dishonored nesse aspecto. Claro, as sombras ainda têm a devida relevância, todavia matar alguém furtivamente parece fazer mais barulho do que cobrir a boca do rival e deixá-lo inconsciente com um mata-leão. Quebrar uma vidraça dentro de uma casa tem menos probabilidade de atrair um inimigo, porém um grito do desgraçado na mesma cena faz todo o resto do bando aparecer atrás dele. Isso não faz tanto sentido na vida real, mas, por algum motivo, isso dá certo no game. Eu precisava pensar em garantir um ambiente livre de ameaças (ou controlado) antes de atirar uma garrafa contra a parede.

Por outro lado, a visão é capaz de quebrar a imersão em certas ocasiões. Um cachorro pode te ver em cima de uma estante, mas basta recuar dois passos para ver a barra de detecção diminuir para zero. Uma bruxa não te vê em sua frente se a distância for a correta, mas basta uma fresta em seu esconderijo por trás de um biombo e ela soltará magias contra você. O jogo não ficará menos divertido por isso, claro, mas incomoda às vezes.

De qualquer forma, caso eles te vejam, é plenamente possível realizar um combo de habilidades focado em batalhas, porém é importante ressaltar que ainda encontrará dificuldades, e isso torna tudo mais interessante. Afinal, uma das inspirações para obras do gênero está em testar o jogador, seja em lutas mortais ou na furtividade. Sem dúvidas, eu fui testado, assim como saía satisfeito quando cumpria meus planos com eficiência.

Rating Dishonored 2

Sair indetectável de uma fase é uma glória

Além disso, cada fase é acompanhada de um estilo único de jogabilidade, de modo a manter o avanço sempre rejuvenescido, longe do lugar comum. Se, por um lado, temos tempestades de areia que atrapalham a visão – tanto a do protagonista como dos inimigos – no Distrito da Poeira, o Conservatório Real conta com bruxas com poderes semelhantes aos dos personagens principais e a Torre de Jindosh possui poderosos mecanóides com lâminas no lugar de braços. Os ambientes não apenas acompanham o bom trabalho do original, como também o aprimoram. Há mais lugares para visitar, pessoas para conversar e colecionáveis para buscar. Aliás, alguns livros e bilhetes possuem dicas e, até mesmo, histórias mais interessantes que a trama principal, então vale a pena explorar os cenários ou simplesmente ficar de olho quando encontrar um papel dando sopa.

Vale destacar a sensacional “missão quebra-cabeças” que “brinca” com o contínuo espaço-tempo a seu bel prazer para ir em busca de um objetivo específico. Embora não seja possível usar seus poderes na fase – o que pode ser chato para alguns, mas novamente tira o jogador da zona de conforto, algo agradável para mim -, você torna-se capaz de alternar entre o presente e o passado, de modo a visitar salas sem abrir portas, pegar oponentes desprevenidos ou fugir sem deixar vestígios. Nenhum jogo com esse tipo de experiência me vem à mente no momento.

Há ainda as runas e os amuletos de ossos, recursos importantes para ajudar na sua jornada. Elas são responsáveis para aumentar suas habilidades ou dar bônus específicos, como encher completamente a vida com apenas uma poção ou regenerar mana ao beber de uma fonte. No caso de perigos, também não precisa se preocupar. Munições da besta e da pistola estão espalhadas à exaustão pelo mapa, então nem é necessário gastar dinheiro com esses itens. Assim, sobra oportunidade para melhorar as armas com projetos ou comprar chaves e códigos para limpar um cofre achado mais à frente.

Projetos Dishonored 2

Projetos são mais um tipo de colecionáveis espalhado pelo mapa

Obviamente, todo game tem suas falhas, e Dishonored 2 alcançou um grande potencial de me irritar profundamente.

A história, que, como mencionei, já havia achado fraca no anterior, teve a capacidade de ser ainda pior nesta sequência. A Arkane (desenvolvedora da série), pelo jeito, apreciou até demais seu enredo, pois resolveu repetir exatamente a mesma trama de usurpar o trono da família Kaldwin. Os trailers predecessores à obra já davam uma dica de como isso iria acontecer, então, se os viu e fez um esforço mínimo para pensar em uma resolução para o caso, há uma probabilidade altíssima de ter acertado. É profundamente triste chegar ao grande encerramento e ver tudo absurdamente semelhante ao imaginado, tendo fechado ou não Dishonored e seus DLCs.

Plot Dishonored 2

Uma trama reciclada e melhor contada no papel

Assim como o enredo, vários personagens são resgatados do título anterior, mas pouco obtém êxito em demonstrar uma evolução plausível, seja por causa de um roteiro insosso ou voice acting sem vida dado aos personagens. Mesmo com o reforço de atores como Vincent D’Onofrio e Rosario Dawson, as atuações pareciam cansadas e chatas e, em algumas ocasiões, soavam como uma leitura. Infelizmente, a dublagem brasileira parece ter seguido o modelo e consegue superar negativamente isso. Além de inexpressivos, ainda pareciam mal lidos, com pausas sem nexo no meio de frases contínuas e sem a menor sensação de raiva ou tristeza em frases agressivas ou tocantes.

Para piorar, há todo o problema de performance na versão para PC. Durante um bom tempo da minha jogatina, presenciei poucos dos bugs relatados em fóruns e sites, mas alguns foram incômodos. Confesso que até ri com o “bug da mesa-prisão” (vídeo abaixo), porém as coisas ficam menos engraçadas quando, sem motivo aparente, o arquivo de salvamento corrompe e o jogo fecha sozinho sempre que eu tento carregá-lo. Por sorte, Dishonored 2 tem bons recursos de gravação (além do normal, uma tecla rápida para salvar) e pude recuperar minha partida alguns momentos antes da travada.

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Quando joguei pela segunda vez, contudo, pude sentir quedas de frames em várias situações. Não sei se o problema é a escolha de jogar com Corvo ou apenas uma coincidência, mas não tive esse problema (ao menos, nem de longe com a mesma frequência) durante toda a partida com Emily. Com a garota, o jogo só fechou sozinho uma vez (sem contar o problema com o save).

Mesmo com toda a raiva passada por esses problemas, Dishonored 2 cumpriu bem seu papel de divertir. Com certeza, os fãs de furtividade (como eu!) têm aqui um prato cheio, e as melhorias trazidas dão um upgrade considerável nas possibilidades de abordagem. Melhor ainda, escolher um dos estilos define até a ambientação: quanto mais caos gerado, mais sombrias ficam as ruas e mais moscas-de-sangue aparecem para atazanar seu caminho. Se tem preferência pelo combate direto, os inimigos te reconhecem mais facilmente. Ou seja, o mundo reage às suas escolhas.

Flexibilidade Dishonored 2

Furtividade falhou? Há sempre o plano B (e o C pode envolver mortes)

Por sinal, poderia resumir o game a esta frase, pois a liberdade para definir suas ações é realmente levada a sério.  Uma missão, por exemplo, pode pedir explicitamente para eliminar um dentre dois alvos, enquanto o jogador pode escolher não eliminar nenhum (ou ambos) e definir um caminho diferente a seguir. Essa alforria é um aspecto viciante e afeta facilmente a vontade de voltar a jogar, algo prontamente feito por mim.

Se Dishonored não conseguiu me convencer, sua sequência fez esse papel. Ainda que eu considere uma desonestidade intelectual lançar um novo título com um enredo principal idêntico e sem recursos de sustentação, como os revolucionários ou o assassinato de Jessamine da obra inicial, as modificações de gameplay realizadas pela Arkane foram providenciais, e uma dificuldade maior, juntamente com o modo “sem poderes,” refutaram todas as minhas baixas expectativas com o título. Porém, o maior mérito de Dishonored 2 está em um único detalhe: liberdade para exercer sua criatividade e traçar o seu caminho. É a vantagem trazida por um bom sandbox, afinal.

Um simples desenvolvedor com textura realista que quer desligar a PhysX e sonha a 120 frames por segundo. Pena que a memória é baixa.