A maioria anônima do mundo dos games

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Recentemente, a Game Brasil divulgou os dados deste ano da pesquisa que visa traçar o perfil do gamer brasileiro. Para isso, quase 3000 pessoas foram entrevistadas em todo o país. O resultado foi o que causou polêmicas e discórdias: 53,6% do público é feminino.

A grande questão é que a maioria desse público joga no smartphone. O meu objetivo aqui não é discutir se Candy Crush é ou não jogo — porque é. O que proponho aqui é uma reflexão sobre os motivos que tornam os resultados dessa pesquisa algo tão surreal.

Ao abrir qualquer grande portal que divulgou o resultado da pesquisa, vemos muitos homens questionando a credibilidade da mesma, já que eles nunca viram uma mulher gamer, o que quer dizer: quando eu jogo online, nunca vejo mulheres. Bom, quero alertar que sim, mulheres gamers existem! Não são uma lenda, sou a prova viva. O motivo de muitos homens não nos verem é de propósito, porque normalmente nos escondemos. Usamos nicks que não deixam claro o nosso gênero e não usamos o microfone.

Já joguei muito Ragnarok e, mesmo usando o nick e char femininos, quando ficavam na dúvida se eu era mesmo mulher, eu nunca fiquei ansiosa pra pegar o microfone e provar. E você pode se perguntar: por quê? Porque as coisas mudam quando a mulher solta a voz no microfone, a forma de tratamento muda repentinamente.

“Ah, então do que você tá reclamando? Os homens tratam as mulheres super bem!” Pode ser que de princípio essa frase seja verdadeira, mas, com o passar do tempo, se você passa a jogar com mais frequência com o mesmo cara, ele vai te pedir teu perfil no Facebook, ele vai dar a entender que quer algo a mais com você, além do mundo virtual. Mas, se você o rejeitar ou talvez se não se encaixar no padrão de beleza, o tratamento muda, de novo.

É claro que perseguição online é algo que todos já sofreram, sejam mulheres ou homens, porém o tipo de assédio e intensidade muda quando o alvo são mulheres. Em 2014, o Pew Research Center revelou dados de um estudo sobre assédio online. A pesquisa engloba ambos os sexos e quantifica o assédio em várias formas, dentre elas o quanto um ambiente pode ser acolhedor para um determinado público. No âmbito de jogos online, apenas 3% disseram que o espaço poderia ser mais receptivo para as mulheres. Falando do assédio online em geral, a pesquisa do Online Harassment diz que 17% dos entrevistados já sofreu assédio sexista, mas as mulheres tem 4x mais probabilidade de sofrê-lo do que os homens.

Mas não são somente os jogadores que excluem as mulheres, os próprios produtores de jogos normalmente o fazem. Existem muitos títulos que fazem personagens femininas profundas, reais em suas proporções e vestuário — Mass Effect <3 — mas ainda temos uma maioria com personagens estereotipadas e hipersexualizadas. Além disso, é muito comum utilizar a mulher como muleta para o homem em diversos casos. Ela normalmente está presente para ser salva, incentivar o herói a lutar por ela e, em casos extremos, ser violentada para causar o sentimento de ódio e vingança no protagonista.

Essa forma de retratar as mulheres foi tema de um vídeo de Anita Sarkeesian no blog Feminist Frequency. Ela fala de “personagens femininas geralmente insignificantes e com as quais não se pode jogar, cuja sexualidade ou vitimização é explorada de modo a dar um tempero provocativo ou picante aos universos dos games”.

Após a publicação do vídeo, Anita recebeu ameaças em sua conta no Twitter e teve de acionar a polícia. Ela também foi alvo de um jogo online em primeira pessoa que se chamava Espanque Anita Sarkeesian.  E não é somente a mulher gamer que sofre assédio. A mulher que trabalha na produção de jogos também é alvo frequente. Quer um exemplo maior do que o boato de que as animações de Mass Effect Andromeda eram culpa de uma funcionária? Acredito que todo mundo sabe que uma equipe responsável pela criação de um jogo triple A, ou mesmo de parte dele, é enorme. Mas é só surgir um boato de que uma mulher estava na equipe de um aspecto que falhou em um jogo e isso é o resultado:

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Sei que muitos caras vão descer loucamente para os comentários para dizer: NEM TODO HOMEM! Sim, eu sei, mas estou englobando, falando de uma maioria. Se você quer ajudar a mudar esse cenário, há formas melhores do que comentar dizendo que você não assedia ou diminui mulheres gamers. Você precisa combater esse tipo de comentário. Quando ver uma mulher sendo assediada, intervir, bradar e reclamar. Isso ainda é necessário porque infelizmente homem só ouve quando outro homem fala. Ao fazer isso, pode-se evitar situações como as dos prints abaixo, que são só alguns exemplos de assédio online.

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Acho que com isso dá pra entender porque você nunca ou quase nunca vê uma mulher gamer. Porque a comunidade gamer não nos aceita como um deles. Normalmente, nós temos que nos provar mais e jogar melhor para só aí sermos cogitadas a fazer parte desse mundo. Talvez, como no meio nerd, os meninos não queiram dividir o brinquedo. Mas a verdade é essa que a pesquisa trouxe: estamos crescendo no meio gamer, por mais que não queriam admitir. E os comentários tóxicos que insistem em sufocar essas jogadoras são a grande prova do porquê ainda preferimos nos manter anônimas.

Amante de livros, séries, mangás e claro, amante de jogos, principalmente aqueles com uma ótima e profunda história. Estuda pedagogia porque precisa trabalhar para comprar os games no lançamento.