Análise | DiRT 4

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O mercado dos jogos de corrida demonstrou um crescimento notável nos últimos anos, tanto em quantidade de produções quanto em variedade de experiências proporcionadas. Forza ascendeu no Xbox, Gran Turismo tentará retomar sua força em sua próxima iteração e a Ubisoft, surpreendentemente, investirá de novo no tresloucado The Crew.

Graças a isso, tive a oportunidade de testar dois games voltados para o rali no ano passado, Sébastien Loeb Rally EVO WRC 6. Curiosamente, ambos apresentaram características antagônicas: o primeiro é vistoso, com diversos modos de jogo, mas peca (e muito) quando colocamos as mãos no volante. O segundo é um bom game, a dirigibilidade de seus veículos é confiável, mas é um título sucinto — o que não é, necessariamente, um demérito.

DiRT 4, por sua vez, consegue unir o que mais me chamou a atenção positivamente nos dois jogos citados acima. É um game que une variedade com carros confiáveis e pode ser acessado por jogadores com experiências diferentes — daquele que acabou de conhecer o mundo dos simuladores de corrida aos entusiastas com milhares de quilômetros rodados.

Velocidade para todos

Logo de início, o novo game da Codemasters me recebeu com uma corrida-tutorial que, apesar do nome sugerir, não é maçante. Como muitos jogos do gênero, o primeiro trajeto serve também para o sistema conhecer o usuário e entender as suas capacidades e limitações ao volante. Nesse momento, DiRT me perguntou se eu procurava diversão ou desafio, oferecendo-me, respectivamente, os modos Gamer Simulação.

A opção por um ou outro afeta drasticamente a direção do carro. Em Gamer, todos os aspectos que circundam a pilotagem são notavelmente suprimidos para conferir maior estabilidade ao veículo: as mudanças de terreno e as configurações do carro perdem um pouco de sua importância para dar lugar a corridas menos tortuosas e mais velozes.

É importante frisar que estes fatores, no entanto, não são completamente ignorados. As mudanças na resposta do carro foram perceptíveis quando mexi, por exemplo, no balanceamento dos freios ou nos eixos de transmissão. Além disso, o game se adapta de acordo com a escolha do jogador para continuar oferecendo uma experiência competitiva: os adversários em Gamer fazem tempos mais rápidos quando os comparamos com Simulação. Acima de tudo, isso demonstra respeito pelo jogador.

No entanto, é no modo de simulador em que pode-se encontrar o maior desafio do jogo. Cada movimento deve ser preciso para evitar sair da pista ou sofrer um grave capotamento. Por outro lado, as sensações de cravar aquele hairpin com a ajuda do freio de mão ou de bater o tempo de uma parcial difícil são inigualáveis quando a natureza da pista e do carro se fazem presentes.

Nesse aspecto, a franquia continua extremamente exigente sem ser frustrante. Em termos comparativos, diferencia-se de WRC 6, que pende para um lado mais arcade mesmo em sua chamada simulação. Acerca da fidedignidade, faço somente uma ressalva a alguns efeitos sonoros de batida que, em minha experiência, foram disparados fora do lugar ou em uma intensidade desproporcional.

Tirando as rodinhas da bicicleta

Uma das coisas que mais me agradaram em DiRT 4 é a forma como o game constantemente incentiva o usuário a se superar. Simuladores de rali demandam um tempo e esforço para dominá-los que podem afastar potenciais jogadores. Para contornar isso, o jogo adota uma estratégia muito interessante, sempre impondo desafios e recompensando devidamente quem os completa. Explico.

No modo carreira, o jogador pode correr por uma equipe estabelecida ou montar seu próprio time. Além disso, há a presença dos patrocinadores, que proveem o usuário com apoio financeiro e peças automotivas. Ambas organizações fazem exigências para que se mantenha uma boa relação com elas, pedindo ao jogador, por exemplo, para que ele complete a prova em um nível de dificuldade mais acentuado ou que não bata o carro durante a corrida. Acredite, é uma tarefa longe de fácil.

Os níveis de dificuldade são altamente maleáveis, sendo medidos em porcentagem — que aumenta conforme o usuário configura a inteligência artificial ou desliga algumas assistências, como o sistema anti-travamento de rodas ou o reforço de estabilidade do carro. Graças a isso, nunca há uma sensação de estagnação. O bom resultado nas provas passa a ser ainda mais gratificante porque evidencia-se o progresso na própria pilotagem. É como ser criança e andar sem as rodinhas da bicicleta pela primeira vez.

Para aprimorar essa faceta, o jogo oferece um modo chamado Dirt Academy, onde pode-se acessar lições práticas acerca de diferentes assuntos da pilotagem. É algo que provavelmente será deixado de lado por muitos jogadores, mas a abordagem sucinta, tratando da matéria como uma aula de corrida no mundo real, é muito interessante aos entusiastas do cheiro de óleo de motor.

Variedade de sobra

Outro trunfo na manga de DiRT 4 são as diferentes modalidades oferecidas ao jogador. Estas dividem-se em quatro categorias.

A primeira, Rally, comporta as provas convencionais de, pasmem, rali. Seus eventos subdividem-se de acordo com os tipos de carro que disputam essa modalidade e, a exemplo das outras categorias, tornam-se disponíveis conforme o jogador avança. Os eventos iniciais são competidos com carros de tração dianteira, mais manejáveis e propensos a uma pilotagem mais mansa.

A graça da coisa aumentou mesmo quando obtive a licença para correr com veículos de tração nas quatro rodas, mais pesados e agressivos: perdi a conta das vezes em que joguei meu pobre Subaru WRX STI contra um guard rail ou uma parede rochosa por perder o tempo de frenagem, mas faz parte, não?

Land Rush, por sua vez, introduziu-me a um universo desconhecido: o dos circuitos arenosos disputados com buggies, caminhões (só faltou a narração do saudoso Luciano do Valle) e crosskarts no México e sul dos Estados Unidos. Por um instante, senti-me estrelando um filme do Robert Rodriguez.

Voltando àquela história de aprendizado, é muito interessante notar como categorias tão distantes podem influenciar o manejo do piloto de forma geral. Nas corridas de caminhão, por exemplo, aprendi da pior maneira como lidar com o oversteering (quando o veículo vira mais do que devia). Ao conseguir dominar minimamente aquelas monstruosidades sobre quatro rodas, percebi que meu controle nas curvas do rali havia melhorado, além de ter aprendido a regular melhor meu veículo para evitar essa situação extremamente adversa.

Rallycross coloca o jogador no epicentro de uma das modalidades que mais cresce no mundo. Circuitos disputados por carros de rali e que misturam trechos de asfalto com cascalho ou terra. A proposta é interessante porque obriga o jogador a ser cauteloso como um piloto de rali e competitivo como um rato das pistas. Há um quê de estratégia de equipe também, visto que o competidor deve completar uma volta mais longa do que a convencional, chamada Joker Lap, para não receber uma punição de tempo ao final da contenda.

Por fim, o Historic Rally traz aquela pitada de classe a todo jogo de corrida que se preze. A possibilidade de se disputar provas com carros clássicos, seminais à história do automobilismo, é sempre emocionante para os amantes dos motores. Aqui destaco a presença das provas de Grupo B, modalidade que levantou a bola do rali nos anos 1980 com veículos extremamente potentes, como o Lancia Stratos e o Renault 5 Turbo. Foi justamente extinta por Jean-Marie Balestre (aquele figurão da FIA que roubou o campeonato de Senna em 1989) após uma série de acidentes, alguns fatais. Agora, resta-nos o videogame para reviver o glamour dessa época.

Ah, o Audi Quattro… Fonte: Mad4Wheelz.com

Assim como no rali convencional, o modo histórico segue uma lógica de crescimento do jogador, colocando-o no volante de máquinas menos potentes das décadas de 1960 e 1970 antes de oferecê-lo carros mais indomáveis, como os do já citado Grupo B ou aqueles com tração traseira — cujo manejo nas curvas é tanto peculiar quanto exigente.

Se o modo carreira do game oferece essa profusão de eventos, ainda há a opção do Freeplay, onde o jogador pode criar seus próprios campeonatos. Aqui, DiRT 4 oferece um sistema de geração procedural de pistas em cinco cenários diferentes. De início, fiquei um pouco descrente em relação à qualidade desses percursos, mas fui surpreendido positivamente. Em Gales, por exemplo, o jogo criou um trajeto de 10 quilômetros repleto de aclives, declives, tipos diferentes de curva e com uma paisagem tão estonteante quanto aquelas criadas previamente pela equipe de desenvolvimento. Essa lógica se estende aos eventos online do game, o que garante um longo tempo de vida ao título.

Ainda sobre as partidas online, encontrei vez ou outra um problema de matchmaking, resolvido ao entrar e sair da sala. Além dos modos para vários jogadores, há as provas diárias, semanais e mensais — em que o usuário marca seu tempo sem a necessidade de disputar a corrida com outros simultaneamente.

DiRT 4 oferece uma experiência democrática, recompensadora e variada a qualquer um que se interesse por jogos de corrida. Após debruçar-me durante boas horas sobre a obra, sinto que o nível de seu gênero foi aprimorado pelo belo trabalho da Codemasters.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana, mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.