A dificuldade das mulheres para ingressar no cenário profissional dos games

O caso Ellie mostra um pouco dessa dificuldade.

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Existe uma dificuldade da mulher se autodeclarar gamer. Ou ela recebe os parabéns por ser um peça rara, diamante sagrado ou ela precisa responder algumas questões, como o nome do cachorro do Kojima, para que não seja invalidada como poser. Isso é algo que toda mulher que joga passa e infelizmente tem de lidar. Porém, ao tentar ingressar no ambiente profissional, conhecido como e-sports, as mulheres enfrentam dificuldades e empecilhos maiores do que os homens.

Um caso recente no mundo dos games envolveu o grupo Second Wind, participantes do Overwatch Contenders norte americano. Tudo começou quando o grupo saiu a procura de integrantes e, verificando o ranque, se depararam com Ellie, a quarta colocada. Passando por testes, entrevista e constatada a habilidade de Ellie, ela foi finalmente aceita como parte do Second Wind.

A notícia foi de grande impacto, já que Ellie seria a primeira mulher a participar do Overwatch Contenders da América do Norte. A adesão, porém, não foi recebida com entusiasmo pela comunidade, que questionou se Ellie era realmente uma mulher, já que ela jogava tão bem. Outros disseram que, a vaga só foi garantida a ela porque é uma mulher. A própria Second Wind incentivou Ellie a fazer partidas via stream, mas mesmo assim a negatividade recebida foi muita, até que ela decidiu se afastar.

Só os ocorridos acima mostram o quanto a comunidade gamer precisa melhorar, mas a história não acabou aqui. O pior aconteceu alguns dias depois quando a Second Wind se desculpou dizendo que: Ellie realmente não era uma mulher. Ellie na verdade era Punisher, um jogador veterano das partidas ranqueadas que jogava enquanto uma mulher aparecia na câmera e interagia com os jogadores.

A Overwatch Contenders, diferente da Overwatch League, não mantém um contato pessoal com seus jogadores, praticamente todo o contato é feito online, o que ajudou a construir Ellie.

“Quando originalmente contatamos Ellie, não havia nada que provocasse suspeita”, disse a Second Wind em seu comunicado. “Ela parecia ser muito sincera e disposta a trabalhar conosco em ligações e mensagens privadas. Devido ao fato de não termos nenhum contato físico com nossos jogadores, queríamos verificar sua identidade, mas também queríamos respeitar a privacidade dela. Nós genuinamente não tínhamos ideia do que estava por vir, e, na época, subestimamos o quão importante seria dar o exemplo como a primeira equipe a contratar uma jogadora para os competidores”.

Punisher se defendeu dizendo que tudo não passou de um experimento social. O que não explica nada. Porém, algumas imagens mostradas pelo consultor de e-sports, Rod “Slasher” Breslau, no Twitter mostram que a intenção de Punisher não era fazer qualquer tipo de experimento, era mais uma trollagem e uma forma de receber dinheiro.

A Second Wind saiu perdendo com essa história, a indústria de e-sports também, mas quem perdeu mais foram as mulheres. A invalidação que citei no começo desse artigo só piora com um caso desse e faz com que o discurso de “se joga bem é homem” ganhe força. Os dados não estão ao nosso favor. Somos 5% dos jogadores, ou seja, 1 a cada 20 pro-players são mulheres. Não que a mulher não queira fazer parte desse cenário. A recente Pesquisa Game Brasil mostrou que as mulheres conhecem e gostam de Fifa Soccer tanto quanto os homens. Mas onde falta mulheres, sobra toxidade. Não é difícil encontrar casos do tipo no cenário gamer, seja para a garota que joga ou desenvolve. Como exemplo temos o recente caso de assédio e sexismo na Riot, onde as mulheres precisavam trabalhar mais do que os homens para simplesmente serem ouvidas.

O caso Ellie é uma bagunça e realmente um retrocesso para as mulheres, porém, usar a atitude de Punisher como regra é excluir as diversas mulheres que estão e querem fazer parte do cenário de e-sports. As mulheres normalmente usam nicks masculinos para fugir da toxidade que esse caso ressaltou ainda estar muito presente no ambiente gamer.

Fontes: Versus, ESPN

Amante de livros, séries, mangás e claro, amante de jogos, principalmente aqueles com uma ótima e profunda história. Estuda pedagogia porque precisa trabalhar para comprar os games no lançamento.