Entrevista com Rodolpho Baena, um gamer deficiente visual

Sabe o que é um audio game? Rodolpho nos conta um pouco da sua experiência com jogos acessíveis e não acessíveis.

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Para o jogador sem nenhuma deficiência é difícil pensar em como os jogos podem ser acessíveis para os jogadores com algum tipo de deficiência. Como um deficiente visual pode jogar video-game? Impossível? A entrevista com Rodolpho Baena mostra o que um jogo precisa para ser acessível e que é possível a um deficiente visual ser gamer.

Priscilla: Então, eu jogo desde criança. No começo jogava em consoles de primos, tive meu console depois de muitos anos, lá com uns 12 anos, mas desde criança sempre me interessei por vídeo-game, sempre senti essa vontade de jogar. Hoje eu jogo com muita frequência, jogo todos os dias, é raro um dia em que eu não jogue alguma coisa. Normalmente gosto de jogar jogo singleplayer, aquele jogo com uma campanha, com uma história legal, jogo pouco multiplayer, tô jogando muito Apex Legends ultimamente, mas eu jogo pouco multiplayer. E você Rodolpho, como é sua vida de gamer?

Rodolpho: Minha vida de gamer… sempre tive contato com video-game, sempre, sempre não, tinha alguns parentes que tinham video-game, joguei, já tive video-game, mas sempre joguei na raça video-game normal, vamos chamar assim, porque não enxergo, nasci cego, então, né.

“já tive video-game, mas sempre joguei na raça video-game normal, vamos chamar assim, porque não enxergo, nasci cego.”

Priscilla: Você não enxerga nada ou você consegue enxergar uma coisinha ou outra?

Rodolpho: Nada, nada. Então jogo que eu conseguia jogar, entre aspas, é jogo de futebol. Conseguia perder, mas pelo menos era alguma coisa. Tomava gol que era uma beleza.

Priscilla: (risos) Mas jogava na raça porque tinha vontade de jogar.

Rodolpho: Jogava na raça porque todo mundo jogava, por que eu não vou jogar?

Priscilla: Entendi.

Rodolpho: Jogava na raça, apertava tudo quanto era botão, o jogo era em inglês, era um jogo de, pelo menos os primeiros que joguei eram no Nintendo 64 ou Super Nintendo, não lembro, mas o jogo era inglês. Aí uma vez me deram me um jogo em portunhol, Brasileiro 96, 97…

” Jogava na raça porque todo mundo jogava, por que eu não vou jogar?”

Priscilla: (risos) Sei, sei, conheço.

Rodolpho: “Passe longo!”

Priscilla: (risos) Sim, esse mesmo!

Rodolpho: “Cartão Amarelo!”. Não sabia nem pra quem, mas tá tudo certo. Aí eu tive um PlayStation 1, o som do jogo evoluiu, só não ajudou muita coisa porque o jogo era em japonês, até um jogo que misturava o português com o japonês, não sei quem foi o louco.

Priscilla: Isso é tudo jogo de futebol?

Rodolpho: Tudo de futebol. Até o dia em que ele resolveu vender o vídeo-game e minha mãe comprou com todos os jogos que ele tinha, que não era só de futebol. Sozinho, fui caçando CD por CD. Tinha jogo de tiro, não vou lembrar qual era, mas lembro que tinha um Medal of Honor, que eu gostava de me matar, porque era a única coisa que eu sabia fazer, porque matar os outros eu não ia conseguir mesmo. Eu lembro que vinha com uma arminha básica e uma granada, mudava pra granada e me matava e pronto. Era a única graça do jogo (risos) pra mim, pelo menos. E aí isso vídeo-game comum, até… usava o computador, mas não sabia que tinha jogos pra cegos. Aí instalei um programa, chama DosVox, um sistema paralelo ao Windows, vamos dizer assim, um sistema operacional para cegos, existe até hoje e lá tinha vários jogos. Jogos simples, jogo da forca, da memória, tabuada, jogo educativo, jogo pra criança aprender a mexer no computador. Jogo que hoje eu considero babaca, na época era uma pequena criança então… Jogo mais emocionante, até zerar pela primeira vez, era Fuga de San Quentin, era um dos dois jogos mais emocionantes que era simples, você tinha que fugir de um presídio, roubar os guardas, roubar uniforme, roubar uma chave pra tentar fugir. Só que quanto você fugia, terminava ali e pff… Lembre-se que o crime não compensa (risos). Tinha um que era O Explorador da Caverna Colossal que não consegui zerar nunca, nem com mapa. Teve um cego que fez um mapa, mas nem com mapa eu consegui zerar porque o jogo é… meio chato.

Imagem do jogo Ronaldinho Soccer 98. Mostra uma partida entre Flamengo e Guarani em 0x0. Os jogadores destacados são Romário e Adaberto.

Priscilla: Esses são todos jogos acessíveis, mas são mais simples, né?

Rodolpho: É.

Priscilla: Mais pra criança.

Rodolpho: É… mais pra criança. Esse Fuga de San Quentin e Caverna Colossal você digitava comandos, tipo: “Pegar lanterna”, “Pegar chave”, “Acender lanterna” e pra ficar mais chique você digita o comando em inglês (risos). E aí eu fui numa associação daqui e conversei com um colega cego e ele falou: “Tem um jogo muito legal, chama Top Speed, um jogo de corrida e quando você tem que fazer a curva pra direita, o carro faz barulho no lado direito do fone”. Tinha também um de nave, que depois fiquei sabendo que foi um cego que criou, mas tinha imagem, existe até hoje, mas nem sei onde encontrar, sei que tem gente que tem. Tem um programa que criaram que chama Games Suit e ele tá no meio lá. Joguei esse de nave e depois um de RPG chamado The Last Crusade, que você tem que matar bichos, e tentar matar o rei. Tem que matar o rei, mas eu falo tentar porque né, não é porque é audio-game que é fácil não.

Priscilla: Entendi. Você me falou uma vez que o gamer deficiente visual tem uma limitação de títulos, não tem muitos tipos de jogos disponíveis, a maioria que você jogava era RPG porque era o que tinha né.

Rodolpho: Sim, tem muito jogo de RPG, tem um jogo agora que é um simulador de aviação que não é o Flight Simulator da Microsoft. Tem uns cegos loucos que jogam Flight Simulator, porque parece que tem que entender de aviação pra vencer…

Priscilla: Nossa.

Rodolpho: Pelo menos é o que falavam, agora, esse que tem agora você não tem que entender de aviação, é mais simples. Tem de RPG, agora tem uns de FPS…

Priscilla: E como que funciona esse FPS?

Rodolpho: Tem o Desafio Mortal, que não existe mais, mas criaram vários jogos parecidos com ele, Batalha Constante, Comando Militar

Priscilla: Ele é por comando também, ou você escuta alguma coisa? Como ele funciona?

Rodolpho: Por teclado, não só esse, mas todos os áudio games são por teclado, tem uns que dá pra usar o mouse. Aí você tem bips pra identificar o jogador perto, você vai andando pelos mapas se tiver um jogador a sua esquerda, ele dá um bip no fone da esquerda e você mira sua arma pra esquerda e atira e ele faz barulho que você tá matando. Como o jogo é online, ele avisa pra todo mundo “Fulano matou Ciclano”.

Priscilla: É tipo um battleroyale então (risos)

Rodolpho: É, tipo isso. Aí você vai pegando dinheiro, comprando arma melhor, vai evoluindo. Enfim, tem um que é de sobrevivência na selva, você tem que pescar, matar bichos. Você morre também, porque quando um bicho te ataca você quebra costela, quebra dedo e tem que se curar.

Priscilla: E tudo isso é avisado, tipo “você quebrou um dedo”, “você quebrou uma costela”.

Rodolpho: Isso, tudo isso o jogo avisa pelo leitor de tela, o bicho de ataca, tem várias teclas de atalho, por exemplo pra ver se tem um bicho ao seu redor, aí ele diz “Um urso está atrás de você a tantos passos de distância”, “Um urso está a sua direita a cinco passos de distância”, só que até ele avisar esses cinco passos de distância, o bicho já te atacou.

Priscilla: É (risos).

Rodolpho: Ele avisa, não adianta nada, mas ele avisa (risos).

Priscilla: E tem algum tipo de jogo, você tava falando de jogo de futebol, que você sente vontade de jogar, mas não são acessíveis?

Rodolpho: Tem muito jogo que eu queria jogar, tava até conversando com a Giovana Breve, numa conversa não tão breve assim (risos). Estávamos falando de jogos e ela me falou pra jogar o Apex, o vício de todo mundo, e ela tava me falando que o Apex tem negócio de áudio também, dá pra colocar fone pra jogar… assim, nunca tentei jogar o tal do Apex, não posso falar dele, mas sei lá, queria que tivesse um GTA, que eu já joguei na raça também, queria que tivesse um jogo pra cegos desse tipo, porque os que tem são muito fracos, muito simples. Criaram um jogo de futebol pra cego, mas o jogo é muito simples, você vai passando a bola o jogador não tem nome, tem número, time azul e vermelho e tem número de um a dez aí eles avisam “bola com o número um azul”, “dois azul”, “número três vermelho”, só que o jogo é muito simples, tem dois tempos de 45 minutos, acabar, acabou. Acabar empatado acabou, não tem graça. Não tem campeonato, não tem nada.

Priscilla: Então normalmente são jogos curtos e sem muito recurso. E Rodolpho, uma coisa que muita gente tem curiosidade, e eu também, o que faz um jogo acessível? O que o jogo precisa ter pra ele ser acessível pros deficientes visuais?

Rodolpho: Assim, eu não sou especialista, mas tem que ter um áudio bom, um áudio que dê pra gente jogar com fone de ouvido, acho que é áudio 3D, não sei dizer. Os jogos pra quem enxerga, você pega itens, num jogo de RPG por exemplo, e quem enxerga tá vendo o item ali no chão, mas quem é cego não, então… teria que ter alguma forma de orientação em áudio…

Priscilla: O item tinha que fazer barulho, alguma coisa assim né.

Rodolpho: É, alguma orientação de áudio pra gente jogar de igual pra igual. Os jogos pra cegos, eu acho que também deveria ter gráficos, imagens, pra quem enxerga também poder jogar. Se não fica só num nicho e coisa que ninguém conhece. Apesar de ter uns jogos bem fraquinhos, tem uns jogos legais que seria legal o pessoal que enxerga jogar também.

Priscilla: É, até queria comentar com você, tem um jogo que ele chama Perception e você joga com uma personagem cega, mas o jogo não é acessível (risos). É estranho né…

Imagem do jogo Perception. Nela aparece a mansão, ambientação do game. A casa está em tons de azul e preto, como se tivesse uma névoa ao seu redor.

Rodolpho: Ah que ótimo.

Priscilla: Pois é, é um jogo de terror, você tem que se orientar numa mansão escura, só que quando você bate a bengala no chão, as coisas se iluminam ao redor dela e aí você consegue ver a poltrona, consegue ver os móveis num raio em volta dela.

Rodolpho: Ah ta, a personagem é cega e as coisas se iluminam (risos), tá, que ótimo.

Priscilla: Pois é (risos), podia ser um jogo assim, que ele fosse acessível pros dois públicos né, pro publico que enxerga…

Rodolpho: Então, tá aí. Tem um jogo pra celular que chama A Blind Legend, eu não sei visualmente, mas ele é acessível. O cara é um cavaleiro cego que é guiado pela filha. O jogo é em inglês, e aí a menina vai orientando, pra frente, pra direita, e as vezes você para de andar por causa das cenas que acontecem… será que eu vou dar spoiler? (risos) Acho que não, porque é no começo do jogo. A esposa do cara é sequestrada por um rei e o cara fica puto da vida, eu não entendo inglês, mas imagino o cara puto da vida e vai com a filha pra salvar a esposa. Aí você tem que matar bichos, monstros e acho que soldados também. Tem três caras e cada um ataca de um lado, centro, esquerda e direita, aí você tem que arrastar o dedo na tela pra um dos lados, pra poder atacar os caras, o celular vai vibrar e tudo mais, tem todo esse esquema da vibração do celular…

Priscilla: Que poderia ser usado também no controle do video-game né.

Imagem do jogo A Blind Legend. Ela é dividida entre duas partes. Na parte de cima há um cavaleiro segurando uma espada em uma mão e a outra segura a mão de garota em cima de um cavalo. Na parte de baixo um homem de olhos fechados está usando fones de ouvidos segurando um celular.

Rodolpho: É, então. E tem outros joguinhos, cego também tem seu bichinho virtual (risos), um cachorro que faz cocô na privada inclusive.

Priscilla: Nossa, eficiente esse cachorro (risos).

Rodolpho: Teve um desenvolvedor que criou vários joguinhos simples e daí ele juntou todos e fez o Meu Mascote Acessível pra Android. Aí você cuida de um cachorrinho, tem que dar comida, trabalhar. É acessível e tem gráficos. Eu sei que ele faz cocô na privada porque olharam meu celular e falaram: “O cachorro tá fazendo cocô na privada!” e eu “Ah ta, não sabia” (risos). Mas tem mais jogo pra computador do que pra celular.

Priscilla: Conversei com você sobre isso também, tem jogos com uma possibilidade de ser acessível pros dois públicos e serem muito bons. Como esse Perception, a ideia dele é muito boa, de ter uma mulher cega num ambiente que você não sabe o que tá acontecendo, e é um jogo de terror. E um gênero que eles podiam aproveitar é o gênero de terror, porque você não poder ver, vai te deixar apavorado. Usar bastante os sons, como você falou, vibração no controle, e eles não aproveitaram ainda essa deixa, é uma ideia muito boa, não sei porque alguém não aproveitou ainda.

Rodolpho: Ninguém pensou nisso ainda. Jogo de corrida, jogo de carro, tem muito isso de vibração, mas só quando você bate o carro. O pessoal não pensa normalmente no áudio, pensa na imagem, gráficos fodas. Tem que bater o carro e ver o sangue escorrer.

Priscilla: Usar o áudio em cada fone também. Tem várias formas de fazer o jogo acessível, mas o pessoal não investe muito nessa área, infelizmente. Rodolpho, minha pauta acabou aqui, mas se você quiser falar mais alguma coisa, pode ficar à vontade.

Rodolpho: Tem um canal no youtube de um português que cria áudio tutoriais para áudio games. Não tem imagem, porque é áudio game e daí tem que ouvir com fone de ouvido. Tem vários jogos que ele gravou tutorial e é bem interessante pra quem quiser conhecer.

Priscilla: Quero te agradecer então pela sua disponibilidade. Gostei bastante da entrevista e espero que você também tenha gostado.

Rodolpho: Gostei, gostei da entrevista. Depois a gente continua a conversa, porque esse assunto de jogo vai longe.

Amante de livros, séries, mangás e claro, amante de jogos, principalmente aqueles com uma ótima e profunda história. Estuda pedagogia porque precisa trabalhar para comprar os games no lançamento.