A crítica da crítica da crítica

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Eu nunca havia lido Macunaíma. Por motivo acadêmico, resolvi a pendência na semana passada. O ensino de literatura na escola, sempre voltado para o vestibular, me levou a outras obras brasileiras. Algumas se tornariam paixões, como Primeiras Estórias. Outras, talvez, deva retomar com outro olhar hoje.

Grande Otelo na adaptação cinematográfica de Macunaíma.
Fonte: Uol

Em primeira leitura, estranho o estilo de Mário de Andrade. O exagero na descrição, que enumera um sem-fim de substantivos em língua tupi, me irrita. O livro se sucede em episódios que me parecem desconexos, quase que em fluxo de pensamento. Pego birra.

A crítica que educa

Depois, li um ensaio crítico sobre a obra: O Tupi e o Alaúde, de Gilda de Mello e Souza. Aqui a coisa começa a mudar de figura, o texto é um deleite. Sua organização e objetivos são claros, sua argumentação é límpida.

Primeiro, a autora traça um paralelo entre a forma de Macunaíma e estruturas musicais análogas que, para um pesquisador musical como Mário de Andrade, certamente lhe eram conhecidas.

Depois, estabelece um contraponto à produção acadêmica mais recente à época sobre a obra, no caso, a tese de doutorado do poeta e tradutor Haroldo de Campos. Do ponto de vista da construção científica, o embate de ideias é fundamental.

Por fim, clarifica que, mesmo que se trate de uma obra nacionalista, Macunaíma tem suas raízes na tradição europeia. Para tanto, argumenta que Mário de Andrade satirizou o romance de cavalaria. Não como Cervantes o fez em seu Dom Quixote, exagerando o herói, mas criando uma antítese da figura do cavaleiro corajoso, leal e galante. A autora cobre todas as bases essenciais para elaborar uma análise crítica, interpretativa e, sobretudo, densa.

Saio dessa leitura com uma perspectiva renovada sobre a rapsódia modernista. Tiro o herói sem caráter da estante novamente. Ao invés de enumerações maçantes, vejo a influência de Rabelais, autor francês da Renascença. Ao contrário do fluxo de pensamento, encontro um paralelo com a suíte barroca e o bumba-meu-boi. Entendo um pouco melhor a inquietude de um autor que se pergunta “afinal, quem somos nós?”. A Gilda me ensinou a gostar do Mário.

Gilda de Mello e Souza
Fonte: Isso Compensa

Crítica, review ou análise?

Pego-me pensando sobre a crítica de videogame. É impossível enumerar as muitas vezes em que entrei em discussão com colegas, tanto daqui quanto de outros veículos, sobre a definição e função desse ofício.

Definição porque fugimos à menção ao nome “crítica”, mesmo que o usemos na língua portuguesa para denominar textos opinativos sobre livros, filmes e peças teatrais.

No passado, parecia-me que a opção por “análise” ou “review” se dava para amenizar o peso da palavra. Mais recentemente, o amigo Arthur Pieri, do Meu Nintendo, me chamou a atenção para o fato de que, na mídia especializada estrangeira, há quem faça a distinção entre review e crítica. O primeiro é um texto voltado para o público massificado, enquanto o outro é de cunho acadêmico. Penso diferente, creio que “ensaio crítico” contemple a análise mais densa, pois alia a liberdade da forma ao crivo científico. Serve tanto à língua inglesa quanto à portuguesa.

Corro o risco de incorrer em repetição ao falar da função da crítica de videogame. Os empecilhos que o jornalista especializado encontra para produzir esse tipo de texto são vários e bem documentados. Prazos curtos e inevitável acatamento ao projeto do empregador se destacam. Seria arrogância propor uma solução para problemas complexos. Opto por suscitar um debate.

Roger Ebert
Fonte: CNN

A crítica educadora de novo

Penso que a crítica tem, sobretudo, uma função educadora. Roger Ebert, crítico de cinema e vencedor do Pulitzer, coloca em palavras essa ideia muito melhor do que eu poderia fazê-lo:

Eu acredito que o bom crítico é um professor. Ele não tem as respostas, mas ele mesmo pode dar o exemplo do processo de como encontrá-las. Ele pode notar coisas, explicá-las, colocá-las em diversos contextos, ponderar sobre o porquê de algumas coisas “funcionarem” e outras não. Ele pode lhe indicar filmes mais antigos para expandir o contexto de novas obras. Ele pode examinar como os filmes tocam vidas pessoais, podendo promover a cura ou a destruição. Ele pode defendê-los e elevá-los a um status de importância frente àqueles que apenas “procuram por um passatempo”. Ele pode argumentar que você pode passar melhor seu tempo com um filme melhor. Nós somos agraciados com um número desconhecido, porém finito, de horas de consciência. Talvez um crítico possa lhe ajudar a usá-las de forma mais significativa.

O texto integral você encontra aqui.

Realço: ao colocar essa questão na mesa, não me proponho como inventor da roda. A crítica de videogame se vale dessa função educadora de maneira natural. Inclusive, ela vive se reinventando.

Quem pegou o auge das revistas de videogame deve se lembrar que alguns críticos davam notas individuais para os elementos de um game, tais como áudio, visual, mecânicas e o antiquíssimo fator replay. Posteriormente, a crítica passou a enxergar o jogo digital como o que ele é de fato: uma obra multimídia, concebida a partir da relação entre seus elementos.

Aqui, penso ser essencial que, para além do julgamento estético, precisamos explicar e enfatizar de onde vem o nosso olhar sobre nosso objeto de crítica. Nas palavras de Ebert, demonstrar porque determinadas coisas funcionam e outras não.

Contudo, também acredito que a crítica de videogame consegue ir além desse auto-enclausuramento nas noções mais modernas de poética visual e game design. Precisamos olhar para o lugar no mundo dessas obras. Mais do que pensar no efeito individual do jogo, como ele se situa frente às questões mais urgentes de uma sociedade tanto problemática quanto problematizada?

Watch Dogs: Legion, feito por uma empresa que se diz “apolítica”, se passará em uma versão distópica de Londres com conotações pós-Brexit. A ironia…

O papel da crítica na contemporaneidade

As respostas já existem na própria história. Terry Eagleton, um dos grandes pensadores vivos da crítica literária, argumenta que a crítica tem uma função social e é, essencialmente, um texto político — mesmo que isso seja diluído pela indústria cultural. Ele lembra que esse tipo de produção surge como uma forma de propor um pensamento autônomo e intelectualizado frente às arbitrariedades monárquicas dos séculos XVII e XVIII. Seu texto, muito mais denso do que meu resumo injusto, nos convida ao resgate desses valores.

Analogamente, em nosso país, a crítica literária encontra autores que pensaram o Brasil por meio dessa ótica. Antonio Candido e a própria Gilda de Mello e Souza, que me proporcionou a ideia deste texto, são exemplos de dar orgulho.

A ideia de que toda crítica é imbuída de ideologia, abertamente ou não, é um reconhecimento de que as formas de expressão humana são uma via de mão dupla: influenciam e são influenciadas por seu contexto. Termos essa noção é um passo essencial para pensarmos o lugar do jogo na contemporaneidade — especialmente em uma mídia onde parte significativa do público vê com aversão as conotações políticas da mídia que escolheu acessar.

Seria injusto reforçar essas ideias sem reconhecer quem já aponta para esse caminho. O YouTube, com sua maré de insignificâncias, tem Jim Sterling e George Weidman. Em texto, a língua inglesa nos proporcionou o finado Kill Screen e a ZEAL, revista digital que pensa o videogame sob a perspectiva LGBTQ.

Em nossa língua, fora do Pulo Duplo, tenho muitas pessoas a agradecer por seu olhar sensível. Gosto muito do amigo Pedro Vicente, que sempre traz um olhar historiográfico com pitadas de experiências pessoais. O Vinícius Machado, responsável pela curadoria do À Deriva, faz trabalho de suma importância. A Flávia Gasi, que nos guiou na origem deste portal, sempre é generosa ao partilhar seu conhecimento acadêmico em formato acessível e crítico. Os caminhos existem, devemos valorizá-los.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana, mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.