Mordhau e sua comunidade racista e tóxica são mais um exemplo dos problemas da industria

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O multiplayer medieval de hack ‘n slash do pequeno estúdio esloveno Triternion vem chamando atenção não só pelo repentino sucesso, mas por ter se tornado um espaço onde jogadores expressam os mais diversos tipos de comportamento tóxico, com fóruns repletos de discussões racistas, sexistas, homofóbicas e muito mais. Parte deste comportamento no meio gamer não é novidade, a diferença é o aparente desinteresse e até alinhamento do estúdio com certas atitudes de sua comunidade, fazendo com que outros jogadores abandonem o título.

Como aponta a matéria da PC Gamer, o exemplo mais marcante é o post mais popular no fórum oficial do jogo intitulado “Post your kniggas”, que conta com mais de 2.600 comentários e é onde jogadores compartilham o visual dos seus personagens. Quando um jogador questiona o racismo no título do tópico, outro responde: “você é gay”. A gíria no título do post é extremamente depreciativa e apenas negros podem usa-la. Logo, vale destacar também que o jogo só permite a criação de personagens masculinos e brancos.

Ao questionar um dos desenvolvedores do game, Andrew Geach parece não ver problemas no post e responde:

É um dos nossos maiores e mais antigos [posts], bem como entre os tópicos mais atrativos do nosso fórum, repleto de criatividade. Quanto ao título em si, nós, como equipe, não achamos isso racista ou ofensivo e, considerando o conteúdo do tópico, achamos ainda menos. Entendemos, no entanto, que algumas pessoas podem interpretá-lo como sendo racista ou inadequado se forem retiradas do contexto.

Essa resposta demonstra total desconhecimento do que é racismo, além do desinteresse e despreparo do estúdio para lidar com a comunidade, fazendo com que jogadores abandonem o título por seu ambiente tóxico. Essa reclamação é comum também no sub reddit do jogo, com diversos tópicos criados para reclamar da falta de moderação. Não existe modo oficial de denunciar outros jogadores, é preciso fazer uma screenshot, enviá-la para os desenvolvedores pelo canal oficial no Discord e esperar pelo melhor.

Andrew Geach afirma que mais de 300 jogadores já foram banidos do fórum e do Discord, mas esse é um número muito pequeno para um título que já vendeu mais de 1 milhão de cópias. Como exemplo, um jogador
denunciado, mas com perfil ainda ativo, comenta:

“Nós, brancos, não podemos ter nada para nós mesmos, podemos? Agora não podemos nem jogar nosso maldito videogames em paz, sem algum nog como você gritando […] pela falta de negroides.”

Apesar de pequenos, a falta de moderação não é só um problema de recurso, mas uma política de não interferência ou, como comenta um dos desenvolvedores, foi uma decisão de deixar o “poder nas mãos dos jogadores”, não havendo nem mesmo um filtro de palavras no jogo para evitar “acusações de censura”.

Como mencionado, apenas personagens masculinos e brancos podem ser criados no jogo, mas com uma futura atualização possivelmente mudando isso, jogadores partiram para o ataque, usando o falso argumento de “fidelidade histórica” para justificar a manutenção de um ambiente exclusivo para homens brancos.

Tudo piorou quando dois desenvolvedores afirmaram que talvez existisse um “botão” para ligar/desligar personagens femininas e de outras etnias para aqueles que não gostassem da mudança, no entanto a repercussão desta afirmação fez a empresa voltar atrás e dizer que foi tudo um mal entendido de uma “assessoria de imprensa inexperiente” e que nunca tiveram planos de implementar tal opção.

Os eventos envolvendo Mordhau podem parecer extremos, mas representam uma parte vocal da indústria, que luta constantemente para manter seu posto privilegiado, clamando contra qualquer tipo de
diversidade e inclusão de minorias. São movimentos conservadores organizados por homens que acusam “justiceiros sociais” (SJW) de estarem colocando política nos jogos, sem nunca admitirem que sua própria atitude é, por si só, um ato político.

O que coloca essa confusão numa categoria específica é o fato da desenvolvedora ter pouco interesse em resolver os problemas, demonstrando certo alinhamento com algumas das ideias proferidas por sua comunidade tóxico. Ademais, o debate se torna ainda mais acalorado quando percebemos que a temática medieval é usada como argumento falacioso para todo tipo de preconceito, como o de que só homens brancos tomavam parte em guerras.

Por fim, as pessoas dentro da indústria de jogos vem, nos últimos anos, trazendo para o debate diversos problemas – crunch, assédio, salário desigual – e a toxicidade dos jogadores é mais um destes temas. Enquanto isso não for combatido com seriedade e as empresas não implementarem medidas agressivas contra tais comportamentos, a situação não vai melhorar, principalmente quando a dita empresa faz vista grossa e até endossa uma parte desse comportamento.

Via PC Gamer.

Designer, jogador e leitor ávido, a lista de coisas diferentes que faço é longa demais, porém minha curiosidade e busca por entender tudo a minha volta é maior ainda. Mas e o futuro? Bem, Game Designer e escritor são meus objetivos, conseguir um desses já é uma conquista desbloqueada.