Florence e o Amor

Muita gente fala de amor, poucos falam bem. Florence sabe falar de um jeito singelo.

Artigos

Ficou difícil falar de amor. Ficou difícil depois do Neruda. Ficou difícil depois da Adrienne Rich. Ficou difícil falar de amor até depois da máxima do Milton e do Caetano: qualquer maneira de amor vale a pena. Pra cada tipo de amor, um tipo de pena. É difícil.

Ficou difícil falar de amor com a cobrança do mundo. Com a comparação cotidiana, com o olhar lacônico diante do espelho de quem ali vê pai e mãe. Com o trabalho que aliena, com o sufocamento urbano (não existe amor na minha cidade, cantam as boas línguas), com a notícia na tela que na palma da mão cabe, mas que não cabe na cabeça.

Ficou difícil falar de amor depois que uma ministra de Estado promoveu a abstinência como solução pro jovem. Ainda bem que jovem não escuta ninguém, ainda mais o mais velho, e continuará fazendo amor por todos os cantos. Com proteção, por favor, jovem.

Ficou difícil, mas veja, fala-se de amor: e fala-se bem, note-se. Porque amor não é coisa que se esvai, mas flor que brota no asfalto.

Fala-se bem de amor, por exemplo, em Florence, que é um jogo que muito fala sem recorrer ao recurso da fala.

Mas antes de falar de amor, Florence fala de outras coisas. Porque pra existir o amor tem que ter o desamor. O desamor é a desatenção aos pequenos gestos ao redor da Florence, a protagonista. É escovar os dentes desajeitadamente, é o jeito brusco de falar com quem se importa demais, é importunar-se com leviandades e enterrar numa caixinha papeis amassados e sonhos — são a mesma coisa, afinal, porque a Florence queria ser pintora, mas o desamor-próprio falou mais alto.

Quem joga com a Florence sente esse desamor junto. Porque é a gente que tem que acatar à indigestão do gesto medíocre da vida dela. Aí não tem jeito. Cada olhada no relógio do escritório, cada noite mal dormida dela nos lembra o nosso desamor-próprio também.

Mas o amor há de aparecer. E é o amor por outro que brota na história com umas boas dúzias de notas musicais. Ao peito de Florence falam. Vêm do violoncelo de Krish, e ali floresce o amor do par.

Esse amor brota devagarinho pra Florence. Já falei: é difícil. E é mais difícil pra quem desvia do olhar do outro, pra quem repassa a fala antes de falar como uma atriz traumatizada. Sei bem, talvez você também. É bonito ver (e se ver) no jogo porque as falas da Florence se formam em balõezinhos que a gente monta como um quebra-cabeça. Conforme ela perde o medo, mais fácil fica falar e mais fácil fica pra ela se aproximar do Krish.

Fonte: Wikipedia

Mas amor que é pra valer, e isso vale pra qualquer maneira de amor, tem que ter cumplicidade, tem que ter compreensão, tem que ter confiança. E a maior lição de Florence é que amor é, antes de tudo, auto-confiança. Senão desanda e vira desamor de novo: pior, vira desamor-próprio. Vira o relógio que anda devagar no escritório e voa na vida. Vira um quebra-cabeça de encaixar, depois de fincar. Depois nem tem onde grudar uma coisa na outra e pra montar e se remontar é um calvário. Sei bem, talvez você também.

O bom é que Florence não é sobre desamor, até porque já tem muito jogo que se desama e que se joga desamando. O legal da Florence é que ela toma porrada, cai, mas sobrevive. Quando a coisa aperta, parece que se está à mercê da deriva continental e o que resta é contemplar uma pilha de tralha que achou morada sobre o que se sonhou. Ainda bem que ela ama, desama, mas no fim se ama. E nem precisa reclamar do spoiler porque Florence fala mesmo é da vida e todo mundo passa por bonança e tormenta o tempo todo. Uns mais iguais que os outros.

O que importa é que, a despeito de tudo, continuaremos amando e nos amando. Há quem desespere. A esses, não recomendo Florence. Aos demais, que bom que existe o amor.

*Florence foi lançado em 2018 para iOS e Android. Chegou ao PC, macOS e Nintendo Switch no último dia 13.

Brasileiro de estatura mediana, gosto muito de fulana, mas sicrana é quem me quer. Compositor, guitarrista e pesquisador de trilha musical de videogames, meti-me a falar de jogos e pretendo continuar nesta toada por um tempo.